Antiguidades Judaicas - Livro I 19
Livro I: da Criação a Isaque e Jacó
Sobre a fuga de Jacó para a Mesopotâmia, por causa do medo que tinha do irmão.
Jacó foi enviado pela mãe à Mesopotâmia para casar com a filha de Labão, irmão dela. Esse casamento foi permitido por Isaque, que cedia à vontade da esposa. Jacó então atravessou a terra de Canaã, e como detestava os habitantes daquele país, não quis se hospedar com nenhum deles, mas passou a noite ao relento, apoiando a cabeça sobre um monte de pedras que ele mesmo havia juntado. Nessa hora teve, durante o sono, a seguinte visão ao seu lado. Ele pareceu ver uma escada que ia da terra até o céu, e seres descendo por ela, que tinham aparência superior à humana. Por fim, o próprio Deus estava no alto da escada e se mostrou claramente a ele. Chamando-o pelo nome, falou-lhe estas palavras:
"Jacó, não convém que você, filho de um bom pai e neto de um homem que alcançou grande renome por sua virtude excepcional, fique abatido com a situação presente. Tenha esperança de tempos melhores, pois você terá grande abundância de todos os bens com a minha ajuda. Eu trouxe Abraão para cá, vindo da Mesopotâmia, quando ele foi expulso pelos parentes, e fiz do seu pai um homem feliz. A você não concederei felicidade menor. Tenha então coragem e, sob a minha direção, siga em frente nesta sua jornada, pois o casamento que você busca com tanto empenho se realizará. Você terá filhos de bom caráter, e eles serão incontáveis em número. Deixarão o que têm a uma descendência ainda mais numerosa, e a eles e à sua posteridade dou o domínio de toda esta terra, e os seus descendentes encherão a terra e o mar inteiros, até onde o sol os alcança. Mas não tema perigo algum, nem se assuste com os muitos trabalhos que você terá de enfrentar, pois pela minha providência eu o guiarei no que deve fazer no tempo presente e muito mais ainda no tempo por vir."
Essas foram as predições que Deus fez a Jacó. Diante disso ele ficou muito alegre com o que tinha visto e ouvido, e derramou óleo sobre as pedras, porque sobre elas fora feita a predição de bens tão grandes. Fez também um voto: se vivesse e voltasse em segurança, e se retornasse em tal condição, ofereceria sacrifícios sobre aquelas pedras e daria a Deus o dízimo de tudo o que tivesse adquirido. Julgou ainda que o lugar era digno de honra e lhe deu o nome de Betel, que na língua grega é Θεία Ἑστία, [a casa de Deus].
Assim prosseguiu sua jornada rumo à Mesopotâmia e por fim chegou a Harã. Encontrando pastores nos arredores, junto com rapazes já crescidos e moças sentadas ao redor de certo poço, ficou com eles, pois precisava de água para beber. Começando a conversar, perguntou se conheciam um homem chamado Labão e se ele ainda estava vivo. Todos disseram que o conheciam, pois ele não era pessoa tão insignificante a ponto de ser desconhecido de algum deles, e que a filha dele cuidava do rebanho do pai junto com eles. De fato, admiravam-se de que ela ainda não tivesse chegado, "pois por meio dela você poderia saber com mais exatidão tudo o que deseja conhecer a respeito daquela família". Enquanto diziam isso, a jovem chegou, e com ela os outros pastores que desceram em sua companhia. Então mostraram Jacó a ela e contaram que ele era um estrangeiro que vinha se informar sobre os assuntos do pai dela. Ela, contente, à maneira própria dos jovens com a chegada de Jacó, perguntou quem ele era, de onde vinha e do que precisava para ter ido até lá. Disse também que desejava que estivesse no poder deles suprir aquilo de que ele necessitava.
Mas Jacó ficou completamente arrebatado, não tanto pelo parentesco nem pelo afeto que dele poderia surgir, mas pelo amor à jovem e pelo encanto diante da sua beleza, que era tão viçosa que poucas mulheres daquela época podiam rivalizar com ela. Disse então: "Há entre você e mim uma ligação mais antiga que o seu nascimento e o meu, se você é filha de Labão. Pois Abraão foi filho de Tera, assim como Harã e Naor. Deste último, Naor, foi filho Betuel, seu avô. Isaque, meu pai, foi filho de Abraão e de Sara, que era filha de Harã. Mas existe um laço de parentesco mútuo mais próximo e mais recente que nos une. Minha mãe, Rebeca, era irmã de Labão, seu pai, pelo mesmo pai e pela mesma mãe. Portanto eu e você somos primos em primeiro grau. Vim agora saudá-la e renovar o vínculo de parentesco que é próprio entre nós." Diante disso a jovem, à menção de Rebeca, como costuma acontecer com os jovens, chorou, e isso pela afeição que tinha pelo pai. Abraçou Jacó, pois conhecia a história de Rebeca por intermédio do pai e sabia que os seus pais gostavam de ouvir o nome dela. Depois de saudá-lo, disse que "você traz os mais desejados e os maiores prazeres ao meu pai e a toda a nossa família, ele que está sempre mencionando a sua mãe e sempre pensando nela e só nela, e isso o tornará, aos olhos dele, igual a qualquer vantagem que se possa imaginar". Então pediu que ele fosse até o pai dela e a seguisse, enquanto o conduzia até ele, e que não privasse o pai de tamanho prazer ficando ausente por mais tempo.
Tendo dito isso, ela o levou a Labão. Reconhecido pelo tio, Jacó sentiu-se seguro, por estar entre amigos, e trouxe grande alegria a eles com sua chegada inesperada. Pouco depois Labão lhe disse que não conseguia expressar em palavras a alegria que sentia com a sua vinda, mas ainda assim perguntou o motivo da viagem e por que ele havia deixado a mãe e o pai idosos justamente quando precisavam de ser cuidados por ele. Disse também que lhe daria toda a ajuda de que precisasse. Então Jacó lhe relatou todo o motivo da jornada e contou que "Isaque tinha dois filhos gêmeos, ele mesmo e Esaú, que, por ter perdido as bênçãos pedidas pelo pai, as quais pela sabedoria da mãe foram dirigidas a ele, procurou matá-lo, vendo-se privado do reino que Deus lhe daria e das bênçãos pelas quais o pai havia orado. Foi esse o motivo da minha vinda para cá, conforme minha mãe me ordenou. Pois todos nós, disse ele, somos irmãos uns dos outros, mas nossa mãe valoriza uma aliança com a sua família mais do que com as famílias deste país. Por isso considero você e Deus os sustentadores da minha jornada e me sinto seguro na situação em que estou."
Labão prometeu tratá-lo com grande bondade, tanto por causa dos antepassados quanto, sobretudo, por causa da mãe dele, a quem disse que demonstraria sua afeição, mesmo na ausência dela, cuidando do filho. Pois garantiu que o faria chefe dos pastores do seu rebanho e lhe deu autoridade suficiente para isso, e que, quando ele quisesse voltar aos pais, o mandaria de volta com presentes, de maneira tão honrosa quanto a proximidade do parentesco exigisse. Jacó ouviu isso com alegria e disse que de bom grado, e com prazer, suportaria todo tipo de esforço enquanto permanecesse ali, mas pediu Raquel por esposa como recompensa desses esforços. Ele a estimava não só por outros motivos, mas também porque ela fora o meio pelo qual chegou até Labão, pois disse que era levado pelo amor à jovem a fazer essa proposta. Labão ficou muito satisfeito com o acordo e consentiu em lhe dar a jovem, já que não desejava encontrar genro melhor, e disse que faria isso se Jacó ficasse com ele por algum tempo, pois não estava disposto a mandar a filha para viver entre os cananeus, já que se arrependia da aliança que já havia feito ao casar a irmã ali. Quando Jacó concordou com isso, comprometeu-se a ficar sete anos, pois decidira servir o sogro por esses anos, para que, dada uma amostra de sua virtude, ficasse mais conhecido que tipo de homem ele era. Aceitando Jacó os termos, terminado o prazo, Labão preparou a festa de casamento. E quando anoiteceu, sem que Jacó percebesse, colocou na cama dele a outra filha, que era mais velha que Raquel e não tinha rosto bonito. Jacó deitou-se com ela naquela noite, por estar embriagado e no escuro. Mas quando amanheceu, percebeu o que lhe haviam feito e censurou Labão por sua conduta desleal. Este pediu perdão pela necessidade que o forçara a agir assim, pois não lhe dera Lia por má intenção, mas vencido por outra necessidade maior, e que, apesar disso, nada o impediria de casar com Raquel, mas que, depois de servir outros sete anos, lhe daria aquela que amava. Jacó submeteu-se a essa condição, pois o amor pela jovem não lhe permitia agir de outro modo, e quando se passaram outros sete anos, tomou Raquel por esposa.
Cada uma delas tinha uma serva, dada de presente pelo pai. Zilpa era serva de Lia, e Bila, de Raquel, de modo algum escravas, mas ainda assim subordinadas às suas senhoras. Lia ficava profundamente angustiada com o amor do marido pela irmã e esperava ser mais estimada se lhe desse filhos. Por isso suplicava continuamente a Deus, e quando deu à luz um filho, e o marido por isso se reconciliou melhor com ela, deu ao filho o nome de Rúben, porque Deus tivera misericórdia dela ao lhe dar um filho, pois esse é o significado desse nome. Algum tempo depois deu à luz mais três filhos. Simeão, nome que significa que Deus tinha atendido à sua oração. Depois deu à luz Levi, o que confirma a amizade entre eles. Depois dele nasceu Judá, que indica ação de graças. Mas Raquel, temendo que a fecundidade da irmã a fizesse desfrutar de menor parte do afeto de Jacó, colocou na cama dele a sua serva Bila. Por meio dela Jacó teve Dã, nome que se pode traduzir para o grego como juízo divino. E depois dele, Naftali, como que invencível em estratagemas, já que Raquel tentou vencer a fecundidade da irmã por esse estratagema. Da mesma forma, Lia adotou o mesmo método e usou um contraestratagema ao da irmã, pois colocou na cama dele a sua própria serva. Jacó teve então, por meio de Zilpa, um filho cujo nome era Gade, que se pode traduzir como sorte. E depois dele, Aser, que se pode chamar homem feliz, porque acrescentou glória a Lia. Rúben, o filho mais velho de Lia, trouxe à mãe frutos de mandrágora. Quando Raquel os viu, desejou que ela lhe desse os frutos, pois ansiava por comê-los. Mas como Lia recusou e mandou que ela se contentasse com já tê-la privado da afeição que devia receber do marido, Raquel, para apaziguar a raiva da irmã, disse que lhe cederia o marido e que ele se deitaria com ela naquela noite. Lia aceitou o favor, e Jacó dormiu com ela, por concessão de Raquel. Ela deu à luz então estes filhos: Issacar, que indica alguém nascido por salário, e Zebulom, alguém nascido como penhor de afeição por ela, e uma filha, Diná. Algum tempo depois Raquel teve um filho, chamado José, que significava que outro lhe seria acrescentado.
Jacó apascentou os rebanhos de Labão, seu sogro, durante todo esse tempo, vinte anos. [De cerca do ano 1801 a cerca do ano 1781.] Depois disso pediu licença ao sogro para tomar as esposas e ir para casa. Mas como o sogro não lhe dava licença, ele tratou de fazer isso em segredo. Pôs então à prova a disposição das esposas, para saber o que pensavam dessa viagem. Quando elas se mostraram contentes e aprovaram a ideia, Raquel levou consigo as imagens dos deuses que, segundo as leis deles, costumavam adorar no próprio país, e fugiu junto com a irmã. Os filhos de ambas, as servas e tudo o que possuíam foram com elas. Jacó também levou metade do gado, sem avisar Labão de antemão. O motivo pelo qual Raquel levou as imagens dos deuses, embora Jacó a tivesse ensinado a desprezar tal culto àqueles deuses, foi este: caso fossem perseguidas e capturadas pelo pai, ela poderia recorrer a essas imagens para obter o perdão dele.
Mas Labão, depois de um dia, ao saber da partida de Jacó e das filhas, ficou muito perturbado e foi atrás deles, levando consigo um bando de homens. No sétimo dia os alcançou e os encontrou descansando em certo monte. Ali, de fato, não os incomodou, pois era o entardecer. Mas Deus apareceu a ele em sonho e o advertiu a receber o genro e as filhas de maneira pacífica, a não se arriscar a nada de modo precipitado nem com ira contra eles, mas a fazer um pacto com Jacó. E lhe disse que, se desprezasse o pequeno número deles e os atacasse de modo hostil, Ele mesmo os ajudaria. Tendo sido assim advertido por Deus, Labão chamou Jacó no dia seguinte para tratar com ele, mostrou-lhe o sonho que tivera e, confiando nele, aproximou-se com confiança e começou a acusá-lo. Alegava que o havia acolhido quando ele era pobre e carente de tudo, e lhe dera fartura de tudo o que possuía. Pois, disse ele: "Uni minhas filhas a você em casamento e supus que a sua bondade para comigo seria maior que antes. Mas você não teve consideração nem pelo parentesco da sua própria mãe comigo, nem pelo vínculo recém-firmado entre nós, nem pelas esposas com quem casou, nem por aqueles filhos de quem sou avô. Você me tratou como inimigo, levando embora o meu gado, convencendo minhas filhas a fugir do pai e carregando para casa aquelas sagradas imagens paternas que eram adoradas pelos meus antepassados e que receberam de mim o mesmo culto que eles lhes prestavam. Em suma, você fez isso sendo meu parente, filho da minha irmã, marido das minhas filhas, hospedado por mim e comendo à minha mesa." Quando Labão disse isso, Jacó fez a sua defesa: "Não sou a única pessoa em quem Deus plantou o amor à terra natal, pois Ele o tornou natural a todos os homens. Por isso era razoável que, após tanto tempo, eu voltasse para ela. Quanto ao espólio que você me acusa de levar, se qualquer outra pessoa fosse o árbitro, você seria considerado errado. Pois, em vez do agradecimento que eu deveria ter recebido de você, por ter guardado o seu gado e o ter multiplicado, como é que se irrita injustamente comigo por eu ter tomado e ter comigo uma pequena parte dele? E quanto às suas filhas, saiba que não é por nenhuma má ação minha que elas me seguem na volta para casa, mas por aquela justa afeição que as esposas naturalmente têm pelos maridos. Portanto, elas não seguem propriamente a mim, mas aos próprios filhos." Até aqui sua defesa foi feita para se livrar da acusação de ter agido injustamente. A isso ele acrescentou a própria queixa e acusação contra Labão, dizendo: "Enquanto eu era filho da sua irmã e você me dera as suas filhas em casamento, você me esgotou com ordens duras e me prendeu sob elas por vinte anos. Aquilo que se exigia para que eu casasse com as suas filhas, por mais penoso que fosse, reconheço ter sido tolerável. Mas o que me foi imposto depois daqueles casamentos foi pior, e tal que até um inimigo teria evitado." Pois com certeza Labão havia tratado Jacó muito mal. Quando viu que Deus assistia a Jacó em tudo o que ele desejava, prometeu-lhe que, das crias que nascessem, ora teria as de cor branca, ora as de cor preta. Mas quando as que cabiam a Jacó se mostraram numerosas, não cumpriu a palavra, dizendo que as daria no ano seguinte, por inveja da multidão de bens dele. Prometia como antes, porque achava que tal aumento não era de se esperar, mas quando este se mostrava real, ele o enganava.
Quanto às imagens sagradas, Labão mandou que Jacó as procurasse. E quando ele aceitou a proposta, Raquel, informada disso, colocou aquelas imagens dentro da sela do camelo em que montava e sentou-se sobre ela, dizendo que a sua menstruação a impedia de se levantar. Assim Labão desistiu de continuar a busca, não imaginando que a filha, naquelas circunstâncias, se aproximaria daquelas imagens. Então fez um pacto com Jacó e o selou com juramentos, comprometendo-se a não lhe guardar rancor pelo que havia acontecido. Jacó fez o mesmo pacto e prometeu amar as filhas de Labão. Confirmaram esses pactos também com juramentos, que fizeram sobre certos montes, onde ergueram uma coluna em forma de altar. Por isso aquele monte se chama Gileade, e a partir dali chamam aquela terra, até hoje, de terra de Gileade. Depois de banquetearem, feito o pacto, Labão voltou para casa.