Anais - Livro XVI 2
A conspiração de Pisão, a morte de Sêneca e de Petrônio (livro fragmentário)
Lançava-lhe ainda outras acusações: no início do ano, Trásea evitava o juramento solene de fidelidade; não comparecia à proclamação dos votos públicos, embora investido no sacerdócio dos Quindecênviros; nunca havia oferecido sacrifício pela saúde do príncipe nem por sua voz celeste. Antes assíduo e incansável, capaz de mostrar-se favorável ou contrário até nas decisões mais ordinárias dos senadores, fazia três anos que não punha os pés na cúria; e recentíssimamente, quando todos corriam à disputa para condenar Silano e Vetere, preferira ocupar-se dos negócios particulares de seus clientes. Isso já era cisão, e facção, e, se muitos ousassem o mesmo, seria guerra. 'Como antes se falava de Caio César e de Marco Catão', disse, 'assim agora, Nero, a cidade ávida de discórdias fala de ti e de Trásea. E ele tem seguidores, ou melhor, satélites, que ainda não imitam a obstinação de suas opiniões, mas o porte e o semblante: gente rígida e sombria, para te lançar em rosto a tua alegria. Só a ele a tua segurança não importa, os teus talentos não merecem honra. Despreza a prosperidade do príncipe: nem com os teus lutos e dores se sacia? É próprio do mesmo espírito não crer na divindade de Popeia e recusar o juramento sobre os atos do divino Augusto e do divino Júlio. Despreza as religiões, ab-roga as leis. Os atos diários do povo romano são lidos com mais atenção pelas províncias e pelos exércitos, só para que se saiba o que Trásea não fez. Ou passemos àquelas instituições dele, se são melhores, ou tire-se aos que desejam novidades o seu líder e mentor. Essa seita gerou os Tuberões e os Favônios, nomes odiosos já à antiga república. Para derrubar o império, exibem a liberdade; se o derrubarem, atacarão a própria liberdade. Em vão afastaste Cássio, se vais permitir que cresçam e prosperem os émulos dos Brutos. Enfim, nada escrevas tu mesmo sobre Trásea: deixa-nos o senado como árbitro.' Nero exaltou o ânimo já disposto de Cossuciano e acrescentou-lhe Márcelo Eprio, de eloquência mordaz.
Quanto a Bárea Sorano, já o cavaleiro romano Ostório Sabino o reclamara como réu por seu proconsulado da Ásia, no qual a justiça e a diligência aumentaram a aversão do príncipe, e também porque empregara cuidado em abrir o porto dos efésios e deixara impune a violência da cidade de Pérgamo, que impedira Acrato, liberto de César, de levar embora estátuas e pinturas. Mas imputava-se-lhe como crime a amizade com Plauto e a ambição de atrair a província para esperanças de revolta. Escolheu-se para a condenação o momento em que Tirídates chegava para receber o reino da Armênia, de modo que o crime interno ficasse obscurecido pelos rumores dos assuntos externos, ou para que Nero ostentasse a grandeza imperial com a morte de homens ilustres, como se fosse um feito de rei.
Assim, com toda a cidade espalhada para receber o príncipe e contemplar o rei, Trásea, impedido de comparecer, não abateu o ânimo, mas redigiu um bilhete a Nero, indagando as acusações e afirmando que se justificaria, se tivesse conhecimento dos crimes e oportunidade de refutá-los. Nero recebeu esse bilhete apressadamente, na esperança de que Trásea, aterrorizado, houvesse escrito algo que exaltasse a glória do príncipe e desonrasse a própria fama. Quando isso não aconteceu e, ao contrário, ele próprio temeu o olhar, o ânimo e a independência do inocente, ordenou que se convocassem os senadores.
Então Trásea consultou os mais próximos sobre se deveria tentar a defesa ou desprezá-la. Ofereciam-se conselhos opostos. Os que achavam melhor entrar na cúria diziam que confiavam em sua firmeza: nada diria que não aumentasse a sua glória. Cercar os últimos momentos de segredo era próprio dos fracos e medrosos. Que o povo visse um homem que ia ao encontro da morte, que o senado ouvisse palavras como vindas de uma divindade, acima das humanas: era possível que o próprio prodígio comovesse até Nero. Mas se ele persistisse na crueldade, distinguir-se-ia ao menos, perante a posteridade, a memória de uma morte honrosa da covardia dos que pereciam em silêncio.
Os que, ao contrário, achavam que ele devia esperar em casa tinham a mesma opinião sobre o próprio Trásea, mas advertiam que o aguardavam escárnios e afrontas: que afastasse os ouvidos dos insultos e ultrajes. Não eram só Cossuciano ou Eprio que estavam prontos para o crime: restavam outros que talvez, em sua brutalidade, ousassem as mãos e os golpes; e até os homens de bem os seguiriam por medo. Que poupasse antes ao senado, que ele tanto honrara, a infâmia de tamanho ultraje, e deixasse incerto o que os senadores teriam decretado se tivessem visto Trásea como réu. Era esperança vã supor que a vergonha das próprias infâmias tomasse Nero; muito mais se devia temer que ele se enfurecesse contra a esposa, contra a filha, contra os demais entes queridos dele. Portanto, íntegro e sem mácula, buscasse o fim com a glória daqueles cujos passos e estudos havia seguido na vida. Estava presente na deliberação Rústico Aruleno, jovem ardente, que, por desejo de glória, oferecia-se a opor-se ao decreto do senado, pois era tribuno da plebe. Trásea conteve o ímpeto dele, para que não empreendesse algo vão e inútil ao réu, mas funesto a quem intercedesse. A sua própria vida estava consumada, e não devia abandonar a ordem de vida mantida por tantos anos; aquele estava no início das magistraturas, e o que lhe restava ainda estava intacto. Que pesasse muito bem consigo, antes, o caminho da vida pública que iniciava em tal momento. Quanto a si, reservou para a própria reflexão a questão de saber se lhe convinha ir ao senado.
Mas na manhã seguinte duas coortes pretorianas armadas ocuparam o templo de Vênus Genetriz; um grupo de homens togados, com espadas não ocultas, bloqueara o acesso ao senado, e por entre os foros e as basílicas espalhavam-se pelotões de soldados. Sob esses olhares e ameaças entraram os senadores na cúria, e ouviu-se o discurso do príncipe, lido por seu questor: sem mencionar ninguém pelo nome, censurava os senadores por abandonarem os deveres públicos e por levarem, com seu exemplo, os cavaleiros romanos à indolência. Que admira, dizia, que não venham das províncias distantes, quando a maioria, depois de obter o consulado e os sacerdócios, prefere dedicar-se à amenidade dos jardins. Os acusadores agarraram isso como uma arma.
E, começando Cossuciano, Márcelo, com maior violência, bradava que estava em jogo o mais alto interesse do Estado; que a obstinação dos inferiores diminuía a clemência de quem governa. Demasiado brandos até aquele dia os senadores, que deixavam zombar impunemente de Trásea, o desertor, de seu genro Helvídio Prisco, presa dos mesmos furores, ao mesmo tempo de Pacônio Agripino, herdeiro do ódio paterno contra os príncipes, e de Cúrcio Montano, fabricante habitual de versos detestáveis. Procurava ele em vão, no senado, um consular; nos votos, um sacerdote; no juramento, um cidadão; a não ser que Trásea, contra as instituições e os ritos dos antepassados, tivesse abertamente assumido o papel de traidor e inimigo. Enfim, ele, que costumava bancar o senador e proteger os detratores do príncipe, viesse e propusesse o que quisesse corrigir ou mudar: mais facilmente suportariam que ele criticasse os pontos isolados do que agora suportavam o silêncio de quem tudo condena. Desagradava-lhe a paz por todo o orbe da terra, ou as vitórias sem perda dos exércitos? Não fizessem um homem triste com o bem público, e que tinha por deserto os foros, os teatros e os templos, e que ameaçava com o próprio exílio, satisfazer a sua vaidade perversa. Para ele, estas decisões, as magistraturas, a cidade de Roma nada eram. Rompesse a vida com a cidade cujo afeto havia muito perdera e cuja própria vista agora rejeitava.
Enquanto, com estas e tais palavras, Márcelo, torvo e ameaçador como era, ardia na voz, no rosto e nos olhos, já não era aquela conhecida e habitual tristeza do senado, afeito à frequência dos perigos, mas um pavor novo e mais profundo dos que viam as mãos e as armas dos soldados. Ao mesmo tempo, surgia diante deles a figura venerável do próprio Trásea; e havia os que também se compadeciam de Helvídio, que ia pagar a pena de um parentesco inocente. Que se imputava a Agripino, a não ser a triste sorte do pai, já que também aquele, igualmente inocente, sucumbira à crueldade de Tibério? E quanto a Montano, jovem de bons costumes e sem versos infamantes, era levado ao exílio por ter exibido o seu talento.
E nesse meio-tempo entra Ostório Sabino, acusador de Sorano, e começa a falar da amizade com Rubélio Plauto, e de que Sorano administrara o proconsulado da Ásia mais conforme à própria glória do que à utilidade comum, fomentando sedições nas cidades. Eram fatos antigos; mas havia um recente, com o qual ligava a filha ao perigo do pai: que ela teria distribuído dinheiro com largueza. Isso de fato acontecera por piedade de Servília (esse era o nome da moça), a qual, por amor ao pai e ao mesmo tempo por imprudência da idade, nada mais consultara senão sobre a segurança da casa, e se Nero seria aplacável, e se a investigação do senado nada de atroz traria. Foi, pois, convocada ao senado, e ficaram de pé, em lados opostos, diante do tribunal dos cônsules: o pai de idade avançada, e em frente a filha, ainda com menos de vinte anos, recém-viúva e desamparada pelo exílio do marido Ânio Polião, sem sequer olhar para o pai, cujos perigos parecia ter agravado.
Então, perguntando-lhe o acusador se vendera os enfeites do dote, ou tirara do pescoço um colar, para reunir dinheiro destinado a ritos mágicos, primeiro ela se lançou ao chão e chorou longamente em silêncio; depois, abraçando os degraus do altar e o próprio altar, disse: 'Não invoquei deuses ímpios, nem maldições, nem outra coisa em minhas preces infelizes senão que tu, César, e vós, senadores, conservásseis incólume este excelente pai. Assim dei as gemas, as vestes e as insígnias da minha dignidade, como teria dado o sangue e a vida, se mos houvessem exigido. Que respondam por isso aqueles homens, antes desconhecidos de mim, qualquer que seja o seu nome e as artes que exerçam: nenhuma menção fiz do príncipe a não ser entre as divindades. Meu pobre pai, contudo, de nada sabe; e, se há crime, eu sozinha o cometi.'
Enquanto ela ainda falava, Sorano lhe tomou as palavras e proclamou que ela não partira com ele para a província, que não pudera ser conhecida de Plauto por causa da idade, e que não estava envolvida nas acusações do marido: tratassem em separado o caso de quem só era ré de uma piedade excessiva, e que ele próprio enfrentasse qualquer destino. Ao mesmo tempo, precipitava-se nos braços da filha, que corria ao seu encontro, se os litores interpostos não os tivessem detido a ambos. Em seguida, deu-se lugar às testemunhas; e tanto a crueldade da acusação movera à compaixão, quanto a testemunha Públio Egnácio suscitou indignação. Esse, cliente de Sorano e agora comprado para arruinar o amigo, alardeava a autoridade da seita estoica, treinado no porte e na expressão para reproduzir a imagem da virtude, mas no íntimo pérfido e dissimulado, ocultando a avareza e a luxúria. Quando o dinheiro as revelou, deu exemplo de cautela: que se desconfiasse tanto dos que se mostram falsos sob a aparência de bons costumes e enganosos na amizade, quanto dos envolvidos em fraudes ou manchados por infâmias.
Esse mesmo dia, contudo, trouxe também um exemplo honroso, o de Cássio Asclepiodoto, que, eminente entre os bitínios pela grandeza de suas riquezas, com a mesma deferência com que celebrara Sorano próspero, não o abandonou na queda; foi despojado de todos os bens e levado ao exílio, mostrando a equanimidade dos deuses diante dos exemplos de bem e de mal. A Trásea, a Sorano e a Servília concede-se a escolha da morte; Helvídio e Pacônio são expulsos da Itália; Montano é poupado por intercessão do pai, com a condição de não exercer cargo público. Aos acusadores Eprio e Cossuciano dão-se cinco milhões de sestércios a cada um, a Ostório um milhão e duzentos mil, com as insígnias da questura.
Então, ao cair já o dia, foi enviado a Trásea, que estava em seus jardins, o questor do cônsul. Ele reunira uma assembleia numerosa de homens e mulheres ilustres, atento sobretudo a Demétrio, mestre da escola cínica, com quem, como se podia conjeturar pela intensidade do semblante e pelo que se ouvia quando falavam mais alto, indagava sobre a natureza da alma e a separação do espírito e do corpo, até que chegou Domício Ceciliano, um de seus amigos íntimos, e lhe expôs em detalhe o que o senado decidira. Então Trásea exortou os presentes, que choravam e se lamentavam, a partirem depressa e a não misturarem os próprios perigos com a sorte de um condenado; e a Árria, que tentava seguir o fim do marido e o exemplo de Árria, sua mãe, aconselhou a conservar a vida e a não tirar à filha de ambos o seu único amparo.
Então, avançando até o pórtico, ali o encontra o questor, mais inclinado à alegria, pois soubera que seu genro Helvídio apenas seria afastado da Itália. Recebido em seguida o decreto do senado, conduz Helvídio e Demétrio para um aposento; e, abertas as veias de ambos os braços, depois de derramar o sangue, aspergindo-o sobre o chão, chamou o questor para mais perto e disse: 'Façamos a libação a Júpiter libertador. Olha, jovem; e que os deuses afastem o agouro, mas nasceste em tempos em que convém fortalecer o ânimo com exemplos de firmeza.' Depois, como a lentidão da morte lhe trazia graves dores, voltando os olhos para Demétrio