Anais - Livro XVI 1

A conspiração de Pisão, a morte de Sêneca e de Petrônio (livro fragmentário)

Logo depois a fortuna zombou de Nero, por meio da própria leviandade dele e das promessas de Ceselio Basso, cartaginês de origem e de mente perturbada, que transformou uma imagem vista no sono noturno na esperança de uma coisa certa. Embarcou para Roma e, tendo comprado acesso ao príncipe, revelou ter descoberto em seu terreno uma caverna de profundidade imensa, onde se guardava grande quantidade de ouro, não em forma de moeda, mas em massas brutas e pesadas, ao modo antigo. Diziam-se ali lingotes pesadíssimos, e em outra parte havia colunas erguidas; tudo aquilo, oculto por tanto tempo, destinava-se a aumentar a riqueza presente. Como sua conjectura procurava mostrar, Dido, a fenícia fugida de Tiro e fundadora de Cartago, escondera tais riquezas para que o novo povo não se corrompesse com excesso de dinheiro, ou para que os reis dos númidas, hostis por outras razões, não fossem incitados à guerra pela cobiça do ouro.
Assim Nero, sem examinar bem a credibilidade do autor da história nem do próprio assunto, e sem enviar quem averiguasse se as notícias eram verdadeiras, ele mesmo ampliou o boato e despachou homens para trazerem o espólio, como se estivesse à mão. Foram-lhes dadas trirremes e remadores escolhidos para acelerar a empreitada. Naqueles dias o povo, em sua credulidade, não falava de outra coisa, ao passo que os homens prudentes comentavam o oposto. Aconteceu também que os jogos quinquenais eram celebrados pela segunda vez, e os oradores tomaram desse mesmo episódio o tema principal para louvar o príncipe. Diziam que a terra não produzia apenas as colheitas habituais nem o ouro misturado a outros metais, mas brotava agora com nova fertilidade, e os deuses ofereciam riquezas espontâneas, e inventavam outras bajulações servis com suprema eloquência e igual lisonja, seguros da facilidade de quem acreditava.
Crescia entretanto o luxo, alimentado por uma esperança vã, e gastavam-se as riquezas antigas como se houvesse outras à disposição para esbanjar por muitos anos. Mais ainda, se distribuía a partir dela; e a expectativa de tesouros estava entre as causas da pobreza pública. Pois Basso, depois de escavar seu terreno e os largos campos ao redor, enquanto afirmava ser este ou aquele o lugar da caverna prometida, e era seguido não pelos soldados mas também pela população rural recrutada para a obra, por fim abandonou a loucura. Admirando que seus sonhos jamais antes tivessem sido falsos e que então pela primeira vez fora enganado, escapou da vergonha e do medo pela morte voluntária. Alguns relataram que ele foi preso e logo solto, com os bens confiscados em lugar do tesouro real.
Enquanto isso o senado, com o certame quinquenal próximo, para evitar o escândalo, ofereceu ao imperador a vitória no canto e acrescentou a coroa de eloquência, para que se velasse a vergonha do espetáculo. Mas Nero, repetindo que não precisava de favor nem do poder do senado, pois era páreo para seus rivais e haveria de conquistar o louvor merecido pela consciência dos juízes, primeiro recitou um poema no palco. Depois, com a multidão exigindo que ele tornasse público todo o seu talento (foram estas as palavras que disseram), entrou no teatro, obedecendo a todas as regras da cítara: não se sentava quando cansado, não enxugava o suor senão com a veste que usava, para que não se vissem secreções da boca ou do nariz. Por fim, ajoelhando-se e saudando a assembleia com um gesto da mão, aguardava as sentenças dos juízes com fingida ansiedade. E a plebe da cidade, acostumada a aplaudir até os gestos dos histriões, ecoava em compassos certos e aplausos ensaiados. Dir-se-ia que se alegravam, e talvez de fato se alegrassem, por descaso da desgraça pública.
Mas os que vinham de municípios distantes, de uma Itália ainda severa e fiel aos antigos costumes, e os que chegavam de províncias remotas, sem experiência daquela libertinagem, em missões diplomáticas ou por interesse particular, não toleravam aquela cena nem suportavam o esforço aviltante: cansavam-se com as mãos inábeis, atrapalhavam os que sabiam aplaudir e muitas vezes eram espancados pelos soldados, que ficavam entre as fileiras para que nenhum instante passasse com aplauso desigual ou silêncio frouxo. Sabe-se que muitos cavaleiros, ao se espremerem pelas passagens estreitas e pela multidão que avançava, foram pisoteados, e outros, por passarem dia e noite nos assentos, foram acometidos de doença mortal. Pois havia um medo ainda maior, o de faltar ao espetáculo: muitos abertamente e mais ainda em segredo vigiavam nomes e rostos, escrutinando o entusiasmo e a tristeza dos presentes. Daí vieram castigos imediatos contra os humildes, e contra os ilustres um ódio dissimulado por ora e logo pago. Contavam que Vespasiano, por ter cochilado de sono, foi repreendido pelo liberto Febo e a custo protegido pelos rogos dos bem-intencionados, escapando depois da ruína iminente graças a um destino maior.
Após o fim dos jogos, Popeia morreu, vítima de um acesso fortuito de cólera do marido, que a derrubou com um pontapé estando ela grávida. Não creio que tenha sido veneno, embora alguns escritores o relatem, mais por ódio que por convicção: pois ele desejava filhos e estava dominado pelo amor à esposa. Seu corpo não foi consumido pelo fogo, ao costume romano, mas, à maneira dos reis estrangeiros, foi recheado de aromas e embalsamado, sendo então depositado no túmulo dos Júlios. Houve, contudo, um funeral público, e o próprio Nero, do alto dos rostros, elogiou a beleza dela e o fato de ter sido mãe de uma criança divinizada, além de outros dons da fortuna, como se fossem virtudes.
À morte de Popeia, tão pública em sua tristeza quanto alegre para os que recordavam sua impudicícia e crueldade, Nero acrescentou novo ódio ao proibir Caio Cássio de comparecer ao funeral. Esse foi o primeiro sinal do mal. E não tardou muito: Silano foi associado a ele, sem nenhuma acusação além de que Cássio se destacava pela riqueza ancestral e pela seriedade de caráter, e Silano pela nobreza da linhagem e a modesta juventude. Assim, num discurso enviado ao senado, Nero argumentou que ambos deviam ser afastados da vida pública e lançou contra Cássio a acusação de que, entre os bustos dos antepassados, venerava também a efígie de Caio Cássio, com esta inscrição: "ao chefe do partido"; pois com isso teria semeado a guerra civil e buscado a revolta contra a Casa dos Césares. E para não se valer apenas da memória de um nome odiado a fim de provocar discórdias, associara a si Lúcio Silano, jovem de linhagem nobre e índole impetuosa, que poderia exibir como instrumento de revolução.
Em seguida Nero atacou o próprio Silano com as mesmas acusações com que atacara seu tio Torquato, alegando que ele organizava os afazeres do império e punha libertos à frente das contas, dos registros e da correspondência, imputações ao mesmo tempo vãs e falsas: pois Silano, antes apreensivo de medo, estava aterrorizado e em guarda pela destruição do tio. Foram depois introduzidos, sob o nome de delatores, homens que forjassem contra Lépida, esposa de Cássio e tia de Silano, uma acusação de incesto com o filho do irmão e de ritos sacros sinistros. Foram arrastados como cúmplices os senadores Vulcácio Tulino e Marcelo Cornélio, e o cavaleiro romano Calpúrnio Fabato; estes, apelando ao príncipe, frustraram a condenação iminente e, logo, com Nero ocupado em crimes maiores, escaparam como insignificantes.
Então, por deliberação do senado, decretaram-se o exílio para Cássio e Silano: quanto a Lépida, decidiria o César. Cássio foi deportado para a ilha da Sardenha, e esperava-se ali a sua velhice. Silano, sob o pretexto de ser levado a Naxos, foi removido para Óstia e depois fechado num município da Apúlia chamado Bário. Ali, suportando com sabedoria a mais indigna desventura, foi surpreendido por um centurião enviado para matá-lo. A quem o aconselhava a cortar as veias, respondeu que tinha de fato decidido morrer, mas não cederia ao executor a glória do serviço. Então o centurião, vendo-o desarmado mas robusto e mais próximo da ira que do medo, ordenou aos soldados que o subjugassem. E Silano não deixou de resistir e de desferir golpes, tanto quanto podia com as mãos nuas, até ser abatido pelo centurião, com ferimentos no peito, como se em batalha.
Com igual coragem Lúcio Veto, sua sogra Séxtia e sua filha Pólita enfrentaram a morte, odiados pelo príncipe como se, ao viver, lhe censurassem o assassinato de Rubélio Plauto, genro de Lúcio Veto. Mas o pretexto para desnudar a crueldade veio do liberto Fortunato, que, tendo desviado os bens do patrono, passou a acusá-lo, tendo por aliado Cláudio Demiano, a quem Veto, quando procônsul da Ásia, prendera por crimes, e que Nero agora libertava em recompensa pela acusação. Quando o réu soube disso e viu que ele e o liberto eram postos em de igualdade, retirou-se para suas terras em Fórmias: ali os soldados o cercaram com vigilância secreta. Estava com ele a filha, que, além do perigo iminente, trazia a fúria de um longo luto desde que vira os assassinos de Plauto, seu marido. Abraçara o pescoço ensanguentado dele e guardava ainda o sangue e as vestes respingadas, viúva, desgrenhada, em luto contínuo, sem alimento senão o que afastasse a morte. Então, a pedido do pai, foi a Nápoles; e, como lhe barravam o acesso a Nero, ficava à porta esperando que ele saísse, suplicando que ouvisse um inocente e não entregasse a um liberto quem fora antes seu colega no consulado, ora com lamento feminino, ora, ultrapassando a condição do sexo, gritando em voz hostil, até que o príncipe se mostrou imóvel tanto às súplicas quanto à indignação.
Por isso ela avisou ao pai, por mensagem, que abandonasse a esperança e cedesse à necessidade: ao mesmo tempo, chegou a notícia de que se preparava o julgamento do senado e uma sentença cruel. E não faltaram os que aconselhassem nomear o César como herdeiro em grande parte e assim assegurar o resto aos netos. Veto rejeitou isso, para não manchar com uma última servidão uma vida vivida próxima da liberdade, e distribuiu aos escravos todo o dinheiro disponível; e mandou que cada um levasse para si o que pudesse carregar, retendo apenas três leitos para o fim. Então, no mesmo quarto, com o mesmo ferro, cortaram as veias; e, apressados e cobertos cada um com uma veste por pudor, foram levados aos banhos, o pai olhando a filha, a avó a neta, e ela ambos, todos rogando em disputa uma rápida saída para a vida que se esvaía, para deixarem os seus sobreviventes e prestes a morrer. A fortuna preservou a ordem, e os mais velhos morreram primeiro, depois quem era mais jovem. Foram acusados após o sepultamento, e decretou-se que fossem punidos ao modo dos antepassados, mas Nero intercedeu, permitindo a morte sem testemunha: tais escárnios eram acrescentados aos assassinatos consumados.
Públio Galo, cavaleiro romano, por ter sido íntimo de Fênio Rufo e não alheio a Veto, foi proibido do uso da água e do fogo. Ao liberto e acusador foi dado, como prêmio do serviço, um lugar no teatro entre os oficiais dos tribunos. E os meses que seguiam abril, mês também chamado Neroneu, foram mudados: maio passou a chamar-se Cláudio, e junho, Germânico, declarando publicamente Cornélio Órfito, que propusera isso, que o mês de junho fora suprimido porque a execução dos dois Torquatos por seus crimes tornara funesto o nome de junho.
Esse ano, manchado por tantos crimes, os próprios deuses assinalaram com tempestades e pestes. A Campânia foi devastada por um turbilhão de ventos que dispersou por toda parte casas de campo, pomares e colheitas, e levou sua violência até as vizinhanças de Roma; nela, todo gênero de mortais era dizimado pela força da peste, sem nenhuma alteração visível do céu. Mas as casas se enchiam de corpos sem vida, e as ruas, de funerais; nem sexo nem idade ficaram a salvo do perigo. Escravos e plebe livre eram igualmente arrebatados de morte, em meio aos lamentos de esposas e filhos, que, enquanto velavam e choravam, muitas vezes eram cremados na mesma pira. As mortes de cavaleiros e senadores, embora indiscriminadas, eram menos lamentadas, como se, por uma mortalidade comum, antecipassem a crueldade do príncipe. No mesmo ano realizaram-se recrutamentos na Gália Narbonense, na África e na Ásia para completar as legiões da Ilíria, das quais os esgotados por idade ou enfermidade eram dispensados do juramento militar. O príncipe consolou a destruição de Lugduno com quatro milhões de sestércios, para que a cidade repusesse o que perdera; quantia que os habitantes de Lugduno tinham antes oferecido nas calamidades de Roma.
Sob o consulado de Caio Suetônio e Lúcio Telesino, Antístio Sosiano, punido com o exílio, como disse, por compor poemas injuriosos contra Nero, ao saber que tal honra cabia aos delatores e que o príncipe era tão inclinado às matanças, inquieto de espírito e ágil em aproveitar oportunidades, fez aliança com Pâmenes, exilado no mesmo lugar e famoso pela arte dos caldeus, e por isso ligado à amizade de muitos, atraindo-o pela semelhança de sorte; e, julgando não em vão que iam até ele mensageiros e consultas, soube ao mesmo tempo que uma pensão anual lhe era paga por Públio Anteu. Não ignorava também que Anteu era odiado por Nero por seu apreço por Agripina e que suas riquezas notáveis bastavam para despertar a cobiça, sendo essa a causa da ruína de muitos. Assim, interceptadas as cartas de Anteu e furtados também os documentos em que se ocultavam o dia de seu nascimento e os eventos futuros nos arquivos secretos de Pâmenes, e descobrindo ainda os escritos sobre o nascimento e a vida de Ostório Escápula, escreveu ao príncipe que lhe traria notícias grandes e úteis à sua segurança, se obtivesse um breve perdão do exílio: pois Anteu e Ostório aspiravam ao poder e indagavam o destino próprio e o do César. Então foram enviadas embarcações ligeiras, e Sosiano chegou às pressas. E, divulgada a sua denúncia, Anteu e Ostório passaram a ser tidos mais como condenados que como réus, a ponto de ninguém querer testemunhar o testamento de Anteu, até que Tigelino se ofereceu como garante, tendo antes advertido Anteu a não demorar as últimas vontades. E ele, tomado o veneno, detestando-lhe a lentidão, cortou as veias e apressou a morte.
Ostório estava naquele tempo em terras distantes, junto à fronteira dos lígures: para foi enviado um centurião que apressasse a sua morte. A causa da pressa nascia do fato de que Ostório, com grande fama militar e a coroa cívica merecida na Britânia, dotado de corpo imenso e perícia nas armas, causara medo a Nero, sempre temeroso e ainda mais assustado pela conspiração recém-descoberta, de que o atacasse. Assim o centurião, depois de fechar as saídas da casa, revelou a Ostório as ordens do imperador. Ele voltou contra si a coragem muitas vezes provada contra os inimigos; e, como as veias, embora cortadas, derramassem pouco sangue, valeu-se da mão de um escravo apenas para que mantivesse firme o punhal e, puxando a mão dele para si, lançou-se de encontro à garganta.
Ainda que eu relatasse guerras externas e mortes encontradas a serviço da República, com tamanha monotonia de desgraças, a saciedade me teria tomado, e eu esperaria o tédio dos outros, enojados com o fim, embora honroso, de tantos cidadãos, mas triste e contínuo. Mas agora a submissão servil e tanto sangue perdido em casa fatigam o ânimo e o oprimem de tristeza. E não pediria outra defesa aos que vierem a conhecer essas coisas senão a de não odiar os que pereceram tão covardemente. Foi tamanha a ira dos deuses contra o Estado romano, que não se pode passar por ela com uma menção, como nas derrotas de exércitos ou na captura de cidades. Concedamos isto à posteridade dos homens ilustres: que, assim como nos funerais se distinguem de um sepultamento comum, também na narração de seu fim recebam e conservem uma memória própria.
Em poucos dias, na mesma sucessão, caíram Aneu Mela, Cerial Anício, Rufrio Crispino e Caio Petrônio; Mela e Crispino eram cavaleiros romanos com dignidade senatorial. Pois este, antes prefeito do pretório e honrado com as insígnias consulares, e pouco banido para a Sardenha sob acusação de conspiração, ao receber a notícia da morte ordenada, matou-se. Mela, nascido dos mesmos pais que Galião e Sêneca, abstivera-se de buscar honrarias por uma ambição às avessas, a de igualar um cavaleiro romano em poder aos ex-cônsules; ao mesmo tempo, julgava ser caminho mais curto para ajuntar dinheiro o das procuradorias na administração dos negócios do príncipe. Ele também gerara Aneu Lucano, grande apoio à sua fama. Morto este, enquanto cobrava com rigor os bens do espólio, provocou um acusador na pessoa de Fábio Romano, dos amigos íntimos de Lucano. Forjou-se que pai e filho compartilhavam o conhecimento da conspiração, falsificando-se cartas de Lucano: examinadas estas, Nero mandou levá-las a Mela, ávido das riquezas dele. Mas Mela, pelo modo de morte então mais à mão, abriu as veias, deixando um codicilo em que legava grande soma de dinheiro a Tigelino e ao genro dele, Cossuciano Capitão, para que o restante ficasse a salvo. Acrescenta-se ao codicilo que ele, como que se queixando da injustiça de sua morte, escrevera assim: que ele morria sem nenhum motivo de castigo, ao passo que Rufrio Crispino e Anício Cerial, inimigos do príncipe, gozavam da vida. Cria-se que isso fora inventado a respeito de Crispino, porque estava morto, e a respeito de Cerial, para que fosse morto. E, de fato, não muito depois ele atentou contra si mesmo, com menos compaixão que os outros, porque lembravam que delatara a César a conspiração.
Sobre Caio Petrônio cabe retomar algumas coisas. Pois ele passava os dias dormindo e a noite nos afazeres e prazeres da vida; e, como a outros a diligência, a ele a indolência levara à fama, sendo tido não como devasso e perdulário, ao modo da maioria dos que esbanjam os próprios bens, mas como homem de luxo refinado. E suas palavras e ações, quanto mais soltas e revelando certo desleixo de si, tanto mais agradavam pela aparência de simplicidade. Contudo, como procônsul da Bitínia e logo como cônsul, mostrou-se vigoroso e à altura dos negócios. Depois, voltando aos vícios, ou imitando vícios, foi acolhido por Nero entre os poucos íntimos, como árbitro da elegância, de modo que o príncipe nada considerava agradável e requintado em meio à profusão senão o que Petrônio aprovasse. Daí a inveja de Tigelino, como contra um rival e mais entendido na ciência dos prazeres. Por isso ele recorreu à crueldade do príncipe, à qual cediam as demais paixões, acusando Petrônio de amizade com Cévino, corrompendo um escravo para a denúncia, tirando-lhe a defesa e arrastando para os ferros a maior parte da criadagem.
Aconteceu que naqueles dias o César se dirigira à Campânia, e Petrônio, tendo avançado até Cumas, ali ficou retido; e não suportou por mais tempo as delongas do medo ou da esperança. Mas não expulsou a vida precipitadamente: cortadas as veias e atadas conforme lhe apetecia, abria-as de novo e conversava com os amigos, não sobre assuntos sérios nem com que buscasse a glória da constância. E ouvia os que recitavam, não coisas sobre a imortalidade da alma ou as doutrinas dos sábios, mas poemas leves e versos fáceis. A uns escravos brindou com presentes, a outros com açoites. Foi a um banquete, entregou-se ao sono, para que a morte, embora forçada, parecesse fortuita. Nem mesmo no codicilo, como a maioria dos que pereciam, bajulou Nero ou Tigelino ou qualquer outro dos poderosos, mas descreveu os crimes do príncipe sob os nomes dos seus prostitutos e mulheres, e a novidade de cada devassidão, e enviou tudo lacrado a Nero. E quebrou o anel para que depois não servisse para causar perigos.
Estando Nero em dúvida de como os engenhos de suas noites se tornavam conhecidos, lembrou-se de Sília, mulher conhecida pelo casamento com um senador, recrutada por ele para toda libertinagem e muito íntima de Petrônio. Foi mandada ao exílio como se não tivesse calado o que vira e suportara, por ódio pessoal. E entregou Minúcio Termo, que exercera a pretura, às desavenças de Tigelino, porque um liberto de Termo denunciara criminosamente certas coisas sobre Tigelino, que ele próprio expiou com os suplícios dos tormentos, e o patrono dele, com uma morte imerecida.
Massacrados tantos homens insignes, Nero por fim desejou exterminar a própria virtude, matando Trásea Peto e Bareia Sorano, a ambos havia muito hostil e com motivos acrescidos contra Trásea, porque este saíra do senado quando se tratava de Agripina, como contei, e porque dera apoio pouco visível nos jogos Juvenais; e essa ofensa penetrava mais fundo, porque o mesmo Trásea, em Pádua, sua terra natal, em jogos instituídos pelo troiano Antenor, cantara em traje trágico. Também no dia em que o pretor Antístio era condenado à morte por insultos compostos contra Nero, Trásea propôs e obteve uma decisão mais branda; e, quando se decretaram honras divinas a Popeia, ausentou-se de propósito e não comparecera ao funeral. Cossuciano Capitão não deixava que essas coisas caíssem no esquecimento, ele, além de ter o ânimo inclinado aos crimes, inimigo de Trásea porque caíra graças à autoridade dele, quando este ajudava os embaixadores da Cilícia ao interrogarem Capitão por extorsão.