Capítulos

Anais - Livro XVI
A morte de Petrônio e a condenação de Trásea Peto (livro fragmentário)
Sobre a obra
Os Anais são a última obra de Públio Cornélio Tácito (c. 56 a c. 120 d.C.), senador e considerado o maior historiador de Roma. Escritos por volta de 116 d.C., cobrem o período de 14 a 68 d.C., da morte de Augusto à de Nero. Dos dezesseis livros originais sobrevivem I a VI e XI a XVI, e mesmo esses chegaram incompletos: o V ficou reduzido a um fragmento, falta o começo do XI e o XVI se interrompe no meio de uma frase.
Este é o Livro XVI, o último que chegou até nós, e ele está incompleto. O texto cobre os anos de 65 e 66 e se interrompe no meio do capítulo 35, em plena narrativa. O que vinha depois, incluindo o restante do reinado de Nero, a revolta da Judeia, o incêndio do Capitólio e a queda do imperador em 68, está perdido. Não há manuscrito que o preserve.
Uma correção de rota, porque a confusão é comum: a conspiração de Pisão e a morte de Sêneca são narradas no Livro XV, não neste. O Livro XVI é o que vem depois, quando a repressão continua sem conspiração para justificá-la, e as vítimas passam a ser escolhidas por reputação.
O tesouro de Dido e os jogos
O livro abre com uma fraude. Um cartaginês chamado Caselio Basso procura Nero dizendo ter sonhado com uma caverna em sua propriedade onde estaria escondido o ouro que Dido levara de Tiro. O imperador acredita, manda navios e trabalhadores, e a corte já gasta a expectativa. Nada é encontrado. Basso se mata.
Vêm em seguida os jogos quinquenais, com Nero cantando ao público como citaredo. Tácito descreve a plateia obrigada a aplaudir, gente que vem de longe e não aguenta a duração, e alguns que morrem de exaustão ou são punidos por parecerem desatentos. É a mesma cena de fundo do Livro XV: um imperador que trata o poder como carreira artística.
A morte de Popeia
Popeia Sabina morre grávida, e Tácito registra a versão de que Nero a matou com um coice num acesso de raiva, depois de ela reclamar de que ele voltava tarde das corridas. Ele menciona que alguns escreveram que houve veneno, e descarta essa versão como ódio dos autores, não informação. O corpo não é cremado, é embalsamado ao modo dos reis estrangeiros, e ela recebe honras divinas.
A divinização de Popeia não é detalhe decorativo. Ela reaparece adiante como item de acusação: recusar-se a jurar pelos atos divinos dela vira prova de deslealdade. É o mecanismo que a carta de Plínio, meio século depois, aplicará aos cristãos.
A morte de Petrônio
Petrônio é descrito por Tácito como o árbitro da elegância na corte, homem que dormia de dia e vivia de noite, e que fez da indolência um método. Tigelino o denuncia por amizade com um conspirador. Sabendo o que vinha, Petrônio abre as veias, mas as ata e desata de novo, prolongando a morte, e passa o tempo restante ouvindo versos leves em vez de discursos sobre a imortalidade da alma.
Antes de morrer, escreve e sela um documento com a lista detalhada das devassidões do imperador, com nomes, e o envia a Nero. Depois quebra um vaso precioso para que o imperador não o herdasse. A identificação desse Petrônio com o autor do Satíricon é tradicional e provável pela datação e pelo perfil, mas Tácito não a faz: ele não menciona obra literária nenhuma.
Trásea Peto e o fim do texto
A parte final do livro é o processo de Trásea Peto, senador estoico, e o de Barea Sorano, julgado em paralelo. Os dois não eram parentes: Tácito os junta como alvos da mesma política, e o genro de Trásea era Helvídio Prisco, banido no mesmo movimento. O caso é significativo porque a acusação não consegue apontar crime. O que se lhe imputa é conduta: deixou de comparecer ao senado por três anos, não jurou pelos atos divinos de Popeia, não sacrificou pela voz do imperador, e o rosto dele não mostrava alegria nos dias de festa. Tácito reproduz o argumento do acusador Cossuciano Capitão, para quem um homem assim é uma censura permanente.
Trásea é condenado, abre as veias em casa cercado de amigos, e derrama o sangue no chão dizendo que o oferece a Júpiter Libertador. Aqui o manuscrito se interrompe, no meio de uma frase, com Trásea conversando com o filósofo cínico Demétrio. É o último texto dos Anais que existe.
Vale registrar o que essa perda custa. Os livros XI a XVI dependem de um único manuscrito, o Segundo Medíceo, copiado em Monte Cassino no século 11. O que faltava nele faltou para sempre. Por isso não temos a narrativa taciteana de 67 e 68, e por isso a revolta judaica que começou em 66 e a destruição do Templo em 70 aparecem em Tácito apenas nas Histórias, também mutiladas, e sobretudo em Flávio Josefo.
Por que este livro importa
Este é o retrato do que veio depois da perseguição de 64: um regime que continua matando por dois anos, agora sem incêndio nem conspiração para invocar, e um senado que aprova cada sentença. A tradição cristã situa os martírios de Pedro e Paulo em Roma justamente nesses anos, entre 64 e 68, e o livro mostra o clima em que isso teria acontecido. A tradição vem de fontes cristãs do fim do século 1 em diante, e Tácito não menciona nenhum dos dois.
Há ainda um paralelo que o próprio texto oferece sem intenção. O crime de Trásea é recusar um juramento religioso ao poder. O crime dos cristãos, quando Plínio for julgá-los na Bitínia, será exatamente o mesmo em forma: recusar o sacrifício e a fórmula. O que Roma cobrava nesses casos não era crença, e sim um gesto de lealdade, e ele valia para o senador estoico e para o artesão cristão. A passagem sobre Cristo está no livro anterior.