Metafísica - Livro XII 9

Livro XII (Lambda): a substância eterna e o Motor Imóvel, a teologia de Aristóteles

O pensamento divino que se pensa a si mesmo

A natureza do pensamento divino levanta alguns problemas. Costumamos considerar o pensamento a mais elevada de todas as coisas que observamos. Mesmo assim, é difícil entender como ele precisa estar disposto para ter esse caráter supremo.
Se ele não pensa em nada, onde está sua dignidade? Seria como alguém que dorme. E se ele pensa, mas o que pensa depende de outra coisa, então não pode ser a melhor substância. Pois, nesse caso, aquilo que constitui o seu ser não seria o ato de pensar, e sim apenas a capacidade de pensar, uma potência. Mas é justamente por pensar que esse ser tem todo o seu valor.
Além disso, seja o seu ser a faculdade de pensar, seja o próprio ato de pensar, ainda fica a pergunta: o que ele pensa? Ou pensa a si mesmo, ou pensa outra coisa. E se pensa outra coisa, ou pensa sempre a mesma, ou pensa ora uma, ora outra.
Faz diferença, então, ele pensar no que é bom ou em qualquer coisa ao acaso? Não coisas sobre as quais seria absurdo que ele pensasse? Está claro, portanto, que ele pensa naquilo que é mais divino e mais precioso, e que não muda. Pois a mudança seria mudança para pior, e constituiria um tipo de movimento.
Vejamos por quê. Primeiro, se o pensamento divino fosse a capacidade de pensar, e não o ato de pensar, seria razoável supor que manter esse pensamento sem parar o cansaria. Segundo, haveria então algo mais precioso do que o próprio pensamento, ou seja, aquilo que é pensado.
Afinal, o pensar e o ato de pensar pertencem até a quem pensa na pior coisa do mundo. Logo, se coisas que é melhor evitar pensar, e há, pois existem coisas que é melhor não ver do que ver, então o ato de pensar não pode ser, sozinho, a melhor de todas as coisas.
Por isso, é em si mesmo que o pensamento divino pensa, que ele é o mais excelente de tudo. O seu pensar é um pensar que pensa o próprio pensar.
Mas é evidente que o conhecimento, a percepção, a opinião e o entendimento têm sempre alguma outra coisa como objeto, e a si mesmos de passagem. Surge ainda uma questão: se pensar e ser pensado são coisas diferentes, em qual delas está o valor do pensamento? Pois ser um ato de pensar e ser um objeto pensado não são a mesma coisa.
A resposta é que, em alguns casos, o conhecimento é o próprio objeto. Nas ciências que produzem algo, o objeto é a substância da coisa ou a sua essência, deixando a matéria de lado. nas ciências teóricas, que investigam, o objeto é a definição ou o próprio ato de pensar. Ora, nas coisas que não têm matéria, aquilo que pensa e aquilo que é pensado não são diferentes. Logo, o pensamento divino e o seu objeto serão a mesma coisa: o pensar será um com aquilo que ele pensa.
Resta uma última questão: o objeto do pensamento divino é composto de partes? Se fosse, o pensamento mudaria ao passar de uma parte do todo para outra.
A resposta é que tudo o que não tem matéria é indivisível. O pensamento humano, ou melhor, o pensamento dos seres compostos, alcança o seu bem dentro de um certo período de tempo. Ele não possui esse bem neste instante ou naquele, pois o seu melhor, sendo algo distinto dele próprio, é alcançado ao longo de um período inteiro. o pensamento que tem a si mesmo por objeto é assim por toda a eternidade, de uma vez.