Metafísica - Livro XII 8

Livro XII (Lambda): a substância eterna e o Motor Imóvel, a teologia de Aristóteles

Quantos motores imóveis existem: o número das esferas celestes e a unidade do céu

ficou claro por que essas coisas são como são. Mas não podemos ignorar a pergunta: existe apenas uma substância desse tipo, ou mais de uma? E se for mais de uma, quantas? Convém também observar que os outros pensadores não disseram nada sobre o número dessas substâncias que pudesse sequer ser formulado com clareza.
A teoria das Ideias não trata especificamente do assunto. Os que falam das Ideias dizem que as Ideias são números, e ora falam dos números como ilimitados, ora como limitados pelo número 10. Mas quanto à razão pela qual deveria haver exatamente essa quantidade de números, nada é dito com precisão demonstrativa.
Nós, no entanto, vamos discutir o tema partindo dos pressupostos e das distinções que apresentamos. O primeiro princípio, ou ser primário, não se move nem por si mesmo nem por acidente, mas produz o movimento primeiro, eterno e único.
Ora, aquilo que se move tem de ser movido por algo, e o primeiro motor tem de ser em si mesmo imóvel; um movimento eterno tem de ser produzido por algo eterno, e um movimento único, por uma coisa única. Mas, além do simples movimento espacial do universo, que dizemos ser produzido pela primeira substância imóvel, vemos que outros movimentos espaciais, os dos planetas, que são eternos (pois um corpo que se move em círculo é eterno e nunca descansa, conforme provamos nos tratados de física).
Logo, cada um desses movimentos também tem de ser causado por uma substância que seja em si mesma imóvel e eterna. Pois a natureza dos astros é eterna justamente porque é um certo tipo de substância; o motor é eterno e anterior ao que é movido; e aquilo que é anterior a uma substância tem de ser, ele próprio, uma substância.
Fica claro, então, que tem de haver substâncias em número igual ao dos movimentos dos astros, eternas por natureza, imóveis em si mesmas e sem grandeza, pela razão que indicamos antes.
Está claro, portanto, que os motores são substâncias, e que entre eles um é primeiro, outro é segundo, na mesma ordem dos movimentos dos astros.
Quanto ao número desses movimentos, chegamos a um problema que deve ser tratado a partir daquela ciência matemática que é mais próxima da filosofia, ou seja, a astronomia. Essa ciência investiga uma substância que é perceptível pelos sentidos, mas eterna, ao passo que as outras ciências matemáticas, a aritmética e a geometria, não tratam de nenhuma substância.
Que os movimentos são mais numerosos do que os corpos movidos, é evidente para quem deu ao assunto até uma atenção moderada, pois cada planeta tem mais de um movimento. Mas, quanto ao número exato desses movimentos, vamos agora, para dar uma ideia do tema, citar o que alguns dos matemáticos dizem, de modo que nosso pensamento tenha algum número definido para fixar. No resto, em parte teremos de investigar por nós mesmos, em parte aprender com outros investigadores; e se os que estudam o assunto chegarem a uma opinião contrária à que acabamos de expor, devemos estimar ambas as partes, mas seguir a mais exata.
Eudoxo supôs que o movimento do Sol e o da Lua envolvem, em cada caso, três esferas. A primeira é a esfera das estrelas fixas; a segunda se move no círculo que corre pelo meio do zodíaco; e a terceira, no círculo que se inclina atravessando a largura do zodíaco. O círculo em que a Lua se move é inclinado num ângulo maior do que aquele em que o Sol se move.
E o movimento dos planetas envolve, em cada caso, quatro esferas. Destas, a primeira e a segunda são as mesmas duas mencionadas (pois a esfera das estrelas fixas é a que move todas as outras, e a que está logo abaixo dela e se move no círculo que corta o zodíaco ao meio é comum a todos). Mas os polos da terceira esfera de cada planeta estão no círculo que corta o zodíaco ao meio, e o movimento da quarta esfera fica no círculo inclinado num ângulo em relação ao equador da terceira esfera. Os polos da terceira esfera são diferentes para cada um dos outros planetas, mas os de Vênus e de Mercúrio são os mesmos.
Cálipo manteve a posição das esferas igual à de Eudoxo, e atribuiu a Júpiter e a Saturno o mesmo número de esferas que Eudoxo. Mas achou que se deviam acrescentar mais duas esferas ao Sol e duas à Lua, para explicar os fatos observados, e mais uma a cada um dos outros planetas.
Acontece que, se todas as esferas em conjunto têm de explicar os fatos observados, é preciso que, para cada planeta, existam outras esferas (uma a menos do que as atribuídas) que neutralizem as anteriores e recoloquem na mesma posição a esfera mais externa do astro situado, em cada caso, abaixo do astro em questão. assim todas as forças em ação conseguem produzir o movimento observado dos planetas.
Ora, as esferas envolvidas no próprio movimento dos planetas são oito para Saturno e Júpiter, e vinte e cinco para os demais. Dessas, não precisam ser neutralizadas as do planeta situado mais embaixo. As esferas que neutralizam as dos dois planetas mais externos serão seis ao todo, e as que neutralizam as dos quatro planetas seguintes serão dezesseis. Portanto, o número de todas as esferas, tanto as que movem os planetas quanto as que neutralizam essas, será de cinquenta e cinco. E se não acrescentássemos ao Sol e à Lua os movimentos que mencionamos, o conjunto todo de esferas seria de quarenta e sete.
Aceitemos, então, esse como o número das esferas, de modo que as substâncias imóveis e os princípios também possam, provavelmente, ser admitidos em igual número. Quanto a afirmar isso como uma necessidade, deixemos para pensadores mais poderosos.
Se não pode haver nenhum movimento espacial que não contribua para mover um astro, e se, além disso, todo ser e toda substância que esteja livre de mudança e que por si mesma tenha alcançado o melhor deve ser considerada um fim, então não pode existir nenhum outro ser além desses que nomeamos: este tem de ser o número das substâncias.
Pois, se houvesse outras substâncias, elas causariam mudança por serem um fim do movimento, uma causa final. Mas não pode haver outros movimentos além dos mencionados. É razoável concluir isso a partir de uma consideração sobre os corpos que se movem, pois, se tudo o que se move existe em função daquilo que é movido, e todo movimento pertence a algo que é movido, então nenhum movimento existe em função de si mesmo nem de outro movimento: todos os movimentos existem em função dos astros.
Pois, se houvesse um movimento em função de outro movimento, este último também teria de existir em função de mais alguma coisa. E como não pode haver uma sequência infinita para trás, o fim de todo movimento será um dos corpos divinos que se movem pelo céu.
evidente que apenas um céu. Pois, se houvesse muitos céus, como muitos homens, os princípios motores, dos quais cada céu teria o seu, seriam um na forma, mas muitos em número. Acontece que tudo o que é muitos em número tem matéria, porque uma e mesma definição, a de homem, por exemplo, aplica-se a muitas coisas, enquanto Sócrates é um indivíduo único. Mas o ser primário não tem matéria, pois é realização plena (entelequia). Assim, o primeiro motor imóvel é um só, tanto na definição quanto no número, e portanto também o é aquilo que se move sempre e continuamente. Logo, existe um céu.)
Nossos antepassados, nas épocas mais remotas, transmitiram à posteridade uma tradição, na forma de um mito, de que esses corpos celestes são deuses e de que o divino envolve toda a natureza. O resto da tradição foi acrescentado depois, em forma mítica, para convencer a multidão e por conveniência legal e utilitária: dizem que esses deuses têm a forma de homens ou se parecem com alguns dos outros animais, e dizem outras coisas no mesmo sentido e parecidas com essas.
Mas, se separarmos desses acréscimos o primeiro ponto, e o tomarmos sozinho, a saber, que eles pensavam que as primeiras substâncias são deuses, então devemos ver nisso uma intuição inspirada. E devemos refletir que, embora provavelmente cada arte e cada ciência tenha sido muitas vezes desenvolvida o quanto possível e de novo perdida, essas opiniões, junto com outras, foram preservadas até hoje como relíquias de um antigo tesouro. até esse ponto, então, a opinião dos nossos antepassados e dos nossos primeiros predecessores nos é clara.