Metafísica - Livro XII 10
Livro XII (Lambda): a substância eterna e o Motor Imóvel, a teologia de Aristóteles
Como o bem está no universo: a ordem e o princípio que a comanda
Precisamos examinar também de que modo a natureza do universo contém o bem, e o bem supremo: se como algo separado e existindo por si mesmo, ou como a ordem das partes. Provavelmente das duas maneiras, como acontece num exército. O bem de um exército está tanto na sua ordem quanto no seu comandante, e mais ainda no comandante, porque ele não depende da ordem, mas a ordem depende dele.
Todas as coisas estão de algum modo ordenadas em conjunto, mas não todas do mesmo jeito: peixes, aves e plantas. O mundo não é tal que uma coisa nada tenha a ver com a outra; ao contrário, elas estão conectadas. Pois todas estão ordenadas em vista de um único fim. É como numa casa, onde as pessoas livres têm a menor liberdade de agir ao acaso, e quase tudo já está determinado para elas, enquanto os escravos e os animais pouco fazem pelo bem comum e em grande parte vivem ao acaso. Esse é o tipo de princípio que constitui a natureza de cada um.
Quero dizer, por exemplo, que todas as coisas têm ao menos de se decompor em seus elementos, e há outras funções semelhantes das quais todas participam para o bem do todo.
Não podemos deixar de notar quantas consequências impossíveis ou absurdas enfrentam aqueles que sustentam opiniões diferentes da nossa, quais são as opiniões dos pensadores mais sutis, e quais opiniões trazem menos dificuldades. Todos fazem todas as coisas a partir de contrários. Mas nem o 'todas as coisas' nem o 'a partir de contrários' está correto; e eles não nos dizem como as coisas em que os contrários estão presentes podem ser feitas a partir dos contrários, pois os contrários não agem uns sobre os outros.
Para nós, essa dificuldade se resolve de modo natural pelo fato de que existe um terceiro elemento. Esses pensadores, no entanto, fazem de um dos dois contrários a matéria. É o que fazem, por exemplo, os que tomam o desigual como matéria para o igual, ou os muitos como matéria para o uno. Mas isso também se refuta do mesmo modo, pois a matéria única que está por baixo de qualquer par de contrários não é contrária a nada.
Além disso, segundo a teoria que estamos criticando, todas as coisas, menos o uno, participariam do mal, pois o mal em si mesmo é um dos dois elementos. Já a outra escola nem sequer trata o bem e o mal como princípios; no entanto, em todas as coisas o bem é, no grau mais alto, um princípio. A primeira escola que mencionamos acerta ao dizer que ele é um princípio, mas não diz de que modo o bem é princípio: se como fim, se como motor, ou se como forma.
Empédocles também tem uma opinião absurda, pois identifica o bem com o amor. Mas esse amor é princípio tanto como motor (porque reúne as coisas) quanto como matéria (porque é parte da mistura). Ora, mesmo que aconteça de a mesma coisa ser princípio tanto como matéria quanto como motor, ainda assim o ser de cada um dos dois não é o mesmo. Em qual dos dois aspectos, então, o amor é princípio? É absurdo também que a discórdia seja imperecível; e a natureza daquilo que ele chama de 'mal' é justamente a discórdia.
Anaxágoras faz do bem um princípio motor, pois a sua 'razão' move as coisas. Mas as move em vista de um fim, que tem de ser algo distinto dela, exceto segundo o nosso modo de expor o caso; pois, na nossa visão, a arte médica é, em certo sentido, a própria saúde. É absurdo também não supor que haja um contrário ao bem, isto é, à razão.
Todos os que falam dos contrários não fazem uso real deles, a menos que demos forma às suas opiniões. E por que algumas coisas são perecíveis e outras imperecíveis, ninguém nos diz, pois fazem todas as coisas existentes a partir dos mesmos princípios. Além disso, alguns fazem as coisas existentes surgir do não existente; e outros, para evitar essa necessidade, fazem de todas as coisas uma só.
Mais ainda: por que deveria haver sempre devir, e qual é a causa do devir? Disso ninguém nos diz nada. E os que supõem dois princípios precisam supor outro, um princípio superior; o mesmo vale para os que creem nas Formas, pois por que as coisas vieram a participar, ou por que participam, das Formas?
E todos os outros pensadores enfrentam a consequência inevitável de que existiria algo contrário à sabedoria, isto é, ao conhecimento mais alto; mas nós não enfrentamos isso. Pois não há nada contrário àquilo que é primeiro. Todos os contrários têm matéria, e as coisas que têm matéria existem apenas em potência; e a ignorância, que é contrária a um conhecimento, leva a um objeto contrário ao objeto desse conhecimento. Mas aquilo que é primeiro não tem contrário.
Além disso, se além das coisas sensíveis não existir nenhuma outra, não haverá princípio primeiro, nem ordem, nem devir, nem corpos celestes; cada princípio teria antes de si outro princípio, como nos relatos dos teólogos e de todos os filósofos da natureza. Já se as Formas ou os números devem existir, eles não serão causa de nada; ou, se forem causa de algo, ao menos não serão causa do movimento.
Mais ainda: como produzir a extensão, isto é, algo contínuo, a partir de partes sem extensão? Pois o número não produzirá algo contínuo, nem como motor nem como forma. E não pode haver nenhum contrário que seja também, por sua própria essência, um princípio produtivo ou motor, pois seria possível que ele não existisse. Ou, no mínimo, a sua ação seria posterior à sua potência. Nesse caso, o mundo não seria eterno. Mas ele é eterno; logo, uma dessas premissas tem de ser negada. E já dissemos como isso deve ser feito.
Além disso, em virtude de que os números, ou a alma e o corpo, ou de modo geral a forma e a coisa, são uma só unidade? Disso ninguém nos diz nada, nem poderia dizer, a não ser que afirme, como nós, que é o motor que os torna um.
E os que dizem que o número matemático é o primeiro, e seguem gerando um tipo de substância após o outro, dando princípios diferentes para cada um, transformam a substância do universo numa mera sucessão de episódios soltos (pois, para eles, uma substância em nada influencia a outra por existir ou não existir), e nos oferecem muitos princípios de governo. Mas o mundo se recusa a ser mal governado.
'O governo de muitos não é bom; que haja um só senhor.'