Metafísica - Livro XII 4
Livro XII (Lambda): a substância eterna e o Motor Imóvel, a teologia de Aristóteles
As causas de tudo são as mesmas? Sim, mas só por analogia: forma, privação, matéria e o agente externo
As causas e os princípios de coisas diferentes são, num sentido, diferentes, mas, em outro sentido, se falarmos de modo geral e por analogia, são os mesmos para todas as coisas. Pode-se perguntar se os princípios e os elementos das substâncias e das coisas relativas são diferentes ou os mesmos, e o mesmo vale para cada uma das categorias.
Seria estranho que fossem os mesmos para tudo, pois então as coisas relativas e as substâncias proviriam dos mesmos elementos. Que elemento comum seria esse? Não existe nada que seja ao mesmo tempo comum à substância e às outras categorias e distinto delas, ou seja, comum àquilo que se afirma de algo. Mas um elemento é anterior àquilo de que ele é elemento. Além disso, a substância não é um elemento das coisas relativas, nem nenhuma coisa relativa é um elemento da substância.
E mais: como poderiam todas as coisas ter os mesmos elementos? Nenhum elemento pode ser idêntico àquilo que é composto de elementos. Por exemplo, as letras 'b' e 'a' não podem ser a mesma coisa que a sílaba 'ba'. Por isso, nenhuma das noções gerais, como o ser ou a unidade, é um elemento, pois elas se afirmam de cada um dos compostos, e não apenas dos elementos. Sendo assim, nenhum elemento será substância nem coisa relativa, embora tivesse de ser uma coisa ou outra. Concluímos, então, que nem todas as coisas têm os mesmos elementos.
Ou, como costumamos dizer, num sentido têm e em outro sentido não têm. Tomemos os corpos perceptíveis pelos sentidos. Como forma, seus elementos talvez sejam o quente e, em outro sentido, o frio, que é a privação, ou seja, a falta do quente. Como matéria, o elemento é aquilo que, por si mesmo, tem diretamente a capacidade de ser quente ou frio. E são substâncias tanto essas coisas quanto aquilo que se compõe delas e tem nelas seus princípios, ou ainda qualquer unidade que se produz a partir do quente e do frio, como a carne ou o osso, pois o produto tem de ser diferente dos elementos que o formam.
Essas coisas, então, têm os mesmos elementos e princípios (ainda que coisas de espécies diferentes tenham elementos de espécies diferentes). Mas não se pode dizer que todas as coisas têm os mesmos elementos nesse sentido literal. Têm apenas por analogia, ou seja, do mesmo jeito que se poderia dizer que há três princípios: a forma, a privação e a matéria. Só que cada um desses três é diferente em cada classe de coisas. Nas cores, por exemplo, eles são o branco, o preto e a superfície que os recebe. No dia e na noite, são a luz, a escuridão e o ar.
Mas não só os elementos presentes numa coisa são causas dela. Há também algo externo, que é a causa do movimento. Fica claro, então, que 'princípio' e 'elemento' são coisas diferentes, embora ambos sejam causas, e que 'princípio' se divide nesses dois tipos. Aquilo que age produzindo o movimento ou o repouso é um princípio e uma substância. Assim, por analogia há três elementos, e há quatro causas e princípios. Mas os elementos são diferentes em coisas diferentes, e a causa que move de imediato também é diferente para cada coisa.
Vejamos exemplos. Na saúde, há a saúde, a doença e o corpo; a causa que move é a arte da medicina. Na construção, há a forma da casa, certa desordem dos materiais e os tijolos; a causa que move é a arte de construir. E como a causa que move, no caso das coisas naturais, é uma coisa do mesmo tipo (para o homem, por exemplo, a causa que move é outro homem), enquanto nos produtos do pensamento a causa é a forma ou o seu contrário, então, num sentido, há três causas e, em outro sentido, há quatro.
Pois a arte da medicina é, de certo modo, a própria saúde; a arte de construir é a forma da casa; e o homem gera o homem. Além de tudo isso, existe ainda aquilo que, sendo o primeiro de todas as coisas, move todas as coisas.