Metafísica - Livro XII 3
Livro XII (Lambda): a substância eterna e o Motor Imóvel, a teologia de Aristóteles
Nem a matéria nem a forma são geradas: o que nasce é o composto, produzido por um agente de mesma forma
Note, em seguida, que nem a matéria nem a forma vêm a ser, e me refiro à última matéria e à última forma. Pois tudo o que muda é alguma coisa, é mudado por algo e é mudado em direção a algo. Aquilo pelo qual a coisa é mudada é o motor imediato; aquilo que é mudado é a matéria; e aquilo em que a coisa se torna é a forma. O processo, então, iria ao infinito se não fosse só o bronze que vem a ser redondo, mas também o redondo ou o bronze viessem a ser; por isso é preciso que haja um ponto de parada.
Note, em seguida, que cada substância vem a existir a partir de algo que tem o mesmo nome que ela. (Tanto os objetos naturais quanto as outras coisas contam como substâncias.) Pois as coisas vêm a existir ou pela arte, ou pela natureza, ou pela sorte, ou de modo espontâneo. A arte é um princípio de movimento que está em outra coisa diferente daquilo que é movido; a natureza é um princípio que está na própria coisa (pois o homem gera o homem); e as outras causas são apenas a falta dessas duas.
Há três tipos de substância. O primeiro é a matéria, que aparenta ser um 'isto', uma coisa individual. Tudo o que se caracteriza por simples contato, e não por uma unidade orgânica, é matéria e substrato, ou seja, aquilo que está por baixo e sustenta as propriedades. Exemplos: fogo, carne, cabeça. Todas essas coisas são matéria, e a última matéria é a matéria daquilo que é substância no sentido pleno.
O segundo tipo é a natureza, isto é, um 'isto' ou estado positivo em direção ao qual o movimento ocorre, a forma que a coisa vai assumindo. O terceiro tipo é a substância particular, composta desses dois, matéria e forma, como Sócrates ou Cálias.
Ora, em alguns casos o 'isto' não existe separado da substância composta. A forma de uma casa, por exemplo, não existe assim separada, a menos que se considere separada a arte de construir (e não há geração nem destruição dessas formas; é de outro modo que a casa em si, sem a matéria, e a saúde, e tudo o que é objeto de uma arte, passam a existir e deixam de existir).
Mas, se o 'isto' existe separado da coisa concreta, isso só acontece no caso dos objetos naturais. Por isso Platão não estava de todo errado quando disse que há tantas Formas quantos são os tipos de objeto natural (admitindo que existam Formas distintas das coisas deste mundo).
As causas motoras existem como coisas que precedem seus efeitos, mas as causas no sentido de definições são simultâneas aos seus efeitos. Pois, quando um homem está saudável, então a saúde também existe; e a forma de uma esfera de bronze existe ao mesmo tempo que a esfera de bronze.
(Mas é preciso examinar se alguma forma também sobrevive depois que o composto deixa de existir. Em alguns casos nada impede que isso aconteça. A alma, por exemplo, pode ser desse tipo, não toda a alma, mas a razão; pois é provavelmente impossível que toda a alma sobreviva.)
Fica evidente, então, que não há necessidade, ao menos por esse motivo, de que existam as Ideias. Pois o homem é gerado pelo homem, um homem específico por um pai individual; e o mesmo vale nas artes, pois a arte da medicina é a causa formal da saúde.