Metafísica - Livro XII 2

Livro XII (Lambda): a substância eterna e o Motor Imóvel, a teologia de Aristóteles

Toda mudança exige um substrato que permanece: a matéria

A substância que percebemos pelos sentidos está sujeita à mudança. Ora, toda mudança parte de um estado e vai até o seu oposto, ou até um estado intermediário entre eles. E não parte de qualquer oposto: a voz, por exemplo, não é branca, mas nem por isso ela muda para branca. A mudança parte sempre do contrário direto daquilo a que se vai chegar.
Por isso tem de haver algo por baixo, algo que permanece e que passa para o estado contrário, pois os contrários em si não se transformam um no outro. Além disso, esse algo se mantém ao longo da mudança, enquanto o contrário não se mantém. Existe, portanto, uma terceira coisa além do par de contrários: a matéria.
As mudanças são de quatro tipos. mudança quanto ao que a coisa é, quanto à sua qualidade, quanto à sua quantidade e quanto ao seu lugar. A mudança quanto ao que a coisa é, ou seja, quanto ao seu próprio ser, é o simples nascer e perecer. A mudança na quantidade é o crescer e o diminuir. A mudança numa propriedade é a alteração. E a mudança de lugar é o deslocamento.
Em cada um desses casos, a mudança vai de um estado dado até o estado contrário a ele. Logo, a matéria que muda precisa ser capaz de assumir os dois estados.
E como a palavra "ser" tem dois sentidos, é preciso dizer que tudo o que muda passa daquilo que é em potência (capacidade) para aquilo que é em ato (realização). Por exemplo, passa do branco em potência ao branco em ato, e o mesmo vale para o crescer e o diminuir.
Por isso uma coisa não surge apenas, por acidente, a partir do que não é. Tudo o que passa a existir surge, na verdade, a partir do que é, mas é apenas em potência e ainda não em ato.
É a esse estado que corresponde o "Uno" de Anaxágoras. No lugar da fórmula dele, "todas as coisas estavam juntas", e também no lugar da "Mistura" de Empédocles e de Anaximandro e da explicação dada por Demócrito, é melhor dizer: "todas as coisas estavam juntas em potência, mas não em ato". Esses pensadores, portanto, parecem ter tido alguma noção da matéria.
Ora, tudo o que muda tem matéria, mas matéria diferente conforme o caso. E mesmo entre as coisas eternas, aquelas que não nascem nem perecem, mas que se movem no espaço, têm matéria. Não uma matéria para nascer e perecer, e sim uma matéria que permite passar de um lugar a outro.
Aqui caberia uma pergunta: de que tipo de não ser parte aquilo que passa a existir? Pois a expressão "não ser" tem três sentidos.
Se um desses sentidos é o que existe em potência, ainda assim não é uma potência para qualquer coisa indistintamente: coisas diferentes vêm de origens diferentes. Também não basta dizer que "todas as coisas estavam juntas", pois elas se distinguem pela matéria de cada uma. Do contrário, por que teria surgido uma infinidade de coisas, e não uma só? A inteligência que organiza é uma só, de modo que, se a matéria também fosse uma só, teria passado a existir em ato aquilo que essa única matéria era em potência.
As causas e os princípios são, então, três. Dois deles formam o par de contrários: um é a definição e a forma, o outro é a privação, ou seja, a ausência dessa forma. O terceiro é a matéria.