Metafísica - Livro VII 1
Livro VII (Zeta): o coração da obra, a longa investigação sobre o que é a substância
O ser tem muitos sentidos, mas o primeiro é a substância: investigar o ser é investigar a substância
A palavra 'ser' tem vários sentidos, como já mostramos no livro em que tratamos dos vários significados das palavras. Num sentido, dizer que algo 'é' aponta para o que essa coisa é, ou seja, para um 'isto' determinado. Noutro sentido, aponta para uma qualidade, uma quantidade, ou para alguma das outras categorias que se afirmam das coisas. Embora 'ser' tenha todos esses sentidos, fica claro que o que primeiro 'é' é o 'que', ou seja, aquilo que indica a substância da coisa.
Veja: quando dizemos de que qualidade uma coisa é, dizemos que ela é boa ou má, e não que tem três côvados de comprimento ou que é um homem. Mas quando dizemos o que ela é, não dizemos 'branca' nem 'quente' nem 'de três côvados', e sim 'um homem' ou 'um deus'. Todas as outras coisas só são chamadas de existentes porque são quantidades, qualidades, estados ou alguma outra determinação daquilo que é nesse sentido primeiro.
Por isso até dá para perguntar se palavras como 'andar', 'estar saudável' ou 'estar sentado' indicam que cada uma dessas coisas existe de fato, e o mesmo vale para outros casos parecidos. Nenhuma delas existe por si mesma nem pode ser separada da substância. Se algo existe ali, é a coisa que anda, que está sentada ou que está saudável.
Essas coisas, sim, parecem ser mais reais, porque por baixo delas há algo definido que as sustenta, ou seja, a substância, o indivíduo concreto, que está implicado nesse tipo de afirmação. Afinal, nunca usamos a palavra 'bom' ou 'sentado' sem pressupor essa coisa por baixo. Fica claro, então, que cada uma das outras categorias só existe graças à substância. Logo, aquilo que é em sentido primeiro, não num sentido qualificado mas sem nenhuma qualificação, tem que ser a substância.
Ora, a palavra 'primeiro' também tem vários sentidos. Mesmo assim, a substância é primeira em todos eles: primeira na definição, primeira na ordem do conhecimento e primeira no tempo. Primeira no tempo, porque nenhuma das outras categorias pode existir por conta própria, só a substância pode. Primeira na definição, porque na definição de qualquer termo tem que estar presente a definição de sua substância. E primeira no conhecimento, porque achamos que conhecemos uma coisa de modo mais pleno quando sabemos o que ela é, por exemplo o que é um homem ou o que é o fogo, do que quando sabemos sua qualidade, sua quantidade ou seu lugar. Mesmo essas outras coisas só são conhecidas quando sabemos o que é aquela quantidade ou aquela qualidade.
E a pergunta que se levantava antigamente, que se levanta agora e sempre se levantará, e que está sempre em aberto, a saber, o que é o ser, é na verdade a mesma pergunta: o que é a substância? Pois é sobre a substância que uns dizem ser uma só, outros mais de uma; uns dizem ser limitada em número, outros ilimitada. Por isso também nós precisamos investigar, principal, primeira e quase exclusivamente, o que é aquilo que é nesse sentido.