Metafísica - Livro VI 3
Livro VI (Épsilon): a divisão das ciências e os sentidos do ser, incluindo o ser por acidente
Existe causa do acaso, mas ela escapa à ciência
É evidente que existem princípios e causas que podem surgir e desaparecer sem que estejam, em momento algum, de fato no processo de surgir ou de desaparecer. Se não fosse assim, tudo aconteceria por necessidade, pois aquilo que está surgindo ou desaparecendo precisa ter uma causa que não seja sua causa apenas por acaso.
Vejamos. Tal coisa vai existir ou não? Vai existir se outra coisa acontecer; se essa outra coisa não acontecer, então não. E essa outra coisa, por sua vez, vai existir se ainda outra acontecer. Assim, à medida que vamos subtraindo tempo de um intervalo limitado, é claro que mais cedo ou mais tarde chegamos ao momento presente.
Pegue um exemplo: este homem vai morrer de morte violenta se sair de casa; e ele vai sair se ficar com sede; e vai ficar com sede se outra coisa antes acontecer. Recuando assim de causa em causa, acabamos chegando ao que está acontecendo agora, ou a algum fato já passado.
Concretamente: ele vai sair se ficar com sede, e vai ficar com sede se estiver comendo comida apimentada. Ora, ou ele está comendo essa comida ou não está. Conforme o caso, ele necessariamente vai morrer, ou necessariamente não vai morrer.
O mesmo raciocínio vale se, em vez de avançar para o futuro, recuarmos para fatos passados, pois esse fato passado, a condição anterior, já está presente em alguma coisa.
Portanto, tudo o que vai acontecer, vai acontecer por necessidade. Por exemplo, é necessário que quem está vivo um dia morra, pois já se realizou alguma condição que leva a isso, como a presença de elementos contrários dentro de um mesmo corpo. Mas se ele vai morrer de doença ou de morte violenta, isso ainda não está decidido: depende de outra coisa acontecer.
Fica claro, então, que esse encadeamento recua até chegar a um ponto de partida, e esse ponto não aponta para nada mais atrás dele. Esse será o ponto de partida do que acontece ao acaso, e ele não tem nenhuma outra coisa como causa de seu vir a ser.
Mas a que tipo de ponto de partida e a que tipo de causa remetemos esse acaso (se à matéria, se à finalidade, se à força que põe em movimento) é algo que precisa ser examinado com cuidado.