Metafísica - Livro VI 2
Livro VI (Épsilon): a divisão das ciências e os sentidos do ser, incluindo o ser por acidente
O ser por acidente: por que não existe ciência do que acontece por mero acaso
A palavra 'ser', usada sem qualificação, tem vários sentidos. Um deles, como vimos, é o ser por acidente. Outro é o ser no sentido de verdadeiro (e o não ser, no sentido de falso). Além desses, há os tipos de predicação (por exemplo, o 'que é a coisa', a qualidade, a quantidade, o lugar, o tempo e outros sentidos semelhantes que 'ser' pode ter). E, ainda além de todos esses, há o que existe em potência ou em ato. Já que 'ser' tem tantos sentidos, precisamos dizer, a respeito do ser por acidente, que não pode haver tratamento científico dele.
Isso se confirma pelo fato de que nenhuma ciência, seja prática, produtiva ou teórica, se ocupa do acidental. Quem constrói uma casa não produz todas as propriedades que surgem junto com a casa, pois elas são incontáveis. A casa construída pode muito bem ser agradável para uns, prejudicial para outros, útil para outros ainda, e diferente, em poucas palavras, de todas as coisas que existem. A ciência da construção não tem por objetivo produzir nenhuma dessas propriedades.
Do mesmo modo, quem estuda geometria não considera as propriedades que se prendem assim às figuras, nem se 'triângulo' é diferente de 'triângulo cujos ângulos somam dois ângulos retos'. E isso acontece naturalmente, pois o acidental é, na prática, um mero nome.
Por isso Platão tinha alguma razão ao classificar a sofística como algo que trata daquilo que não é. Os argumentos dos sofistas lidam, podemos dizer, acima de tudo com o acidental. Por exemplo: a pergunta se 'músico' e 'letrado' são diferentes ou a mesma coisa; se 'Corisco músico' e 'Corisco' são o mesmo; e se 'tudo o que é, mas não é eterno, veio a ser'. Daí tiram a conclusão paradoxal de que, se alguém que era músico se tornou letrado, então ele também terá sido letrado e terá se tornado músico, e todos os outros argumentos desse tipo. O acidental é claramente parente próximo do não ser.
Isso fica claro também por argumentos como o seguinte: as coisas que são em outro sentido vêm a ser e deixam de ser por um processo, mas as coisas que são por acidente não. Ainda assim, precisamos dizer, até onde for possível, qual é a natureza do acidental e de que causa ele provém. Talvez ao mesmo tempo fique claro por que não há ciência dele.
Entre as coisas que existem, algumas estão sempre no mesmo estado e existem por necessidade. Não necessidade no sentido de coação, mas aquela que afirmamos das coisas porque elas não podem ser de outro modo. Outras coisas não existem por necessidade nem sempre, mas na maioria das vezes. Este é o princípio e esta é a causa da existência do acidental: aquilo que não é nem sempre nem na maioria das vezes, isto chamamos de acidental.
Por exemplo, se na canícula, a estação mais quente do ano, fizer tempo de inverno e frio, dizemos que isso é um acidente, mas não dizemos isso se fizer um calor abafado, porque o calor é sempre ou na maioria das vezes assim, e o frio não. E é por acidente que um homem é pálido (pois isso não é nem sempre nem na maioria das vezes verdade), mas não é por acidente que ele é um animal.
Que o construtor produza saúde é um acidente, porque não é próprio do construtor fazer isso, e sim do médico, só que aquele construtor por acaso também era médico. Do mesmo modo, um confeiteiro, mirando dar prazer, pode fazer algo saudável, mas não em virtude da arte de confeitar. Por isso dizemos 'foi um acidente'. Há um sentido em que ele faz aquilo, mas no sentido pleno ele não faz.
Para as outras coisas correspondem capacidades que as produzem, mas aos resultados acidentais não corresponde nenhuma arte ou capacidade determinada. Pois, das coisas que são ou vêm a ser por acidente, a causa também é acidental.
Portanto, já que nem todas as coisas são ou vêm a ser por necessidade e sempre, mas a maioria delas é assim na maioria das vezes, o acidental tem de existir. Por exemplo, um homem pálido não é nem sempre nem na maioria das vezes músico, mas, como isso às vezes acontece, tem de ser por acidente. Se não fosse assim, tudo seria por necessidade. Logo, a matéria, aquilo que é capaz de ser diferente do que costuma ser, tem de ser a causa do acidental.
Comecemos pela pergunta: existe alguma coisa que não seja nem sempre nem na maioria das vezes? Isso é certamente impossível. Há, então, além dessas coisas, algo que é fortuito e acidental. Mas, enquanto o que acontece na maioria das vezes existe, será que nada pode ser dito existir sempre? Ou existem coisas eternas? Isso teremos de examinar depois.
O que está claro é que não há ciência do acidental, pois toda ciência é daquilo que é sempre ou daquilo que é na maioria das vezes. De que outro modo alguém poderia aprender ou ensinar outra pessoa? A coisa precisa ser determinada como ocorrendo sempre ou na maioria das vezes. Por exemplo, que a água com mel é útil para um doente com febre é verdade na maioria das vezes.
Mas aquilo que vai contra a regra usual a ciência não conseguirá afirmar, isto é, não conseguirá dizer quando a coisa não acontece, por exemplo 'no dia da lua nova'. Pois mesmo o que acontece no dia da lua nova acontece então sempre ou na maioria das vezes. Mas o acidental vai contra regras desse tipo. Dissemos, então, o que é o acidental, de que causa ele provém, e que não há ciência que trate dele.