Metafísica - Livro VI 1

Livro VI (Épsilon): a divisão das ciências e os sentidos do ser, incluindo o ser por acidente

As três ciências teóricas: física, matemática e a filosofia primeira (o divino)

O que buscamos são os princípios e as causas das coisas que existem, e claramente delas enquanto seres. Existe uma causa da saúde e do bom estado do corpo, e os objetos da matemática têm seus princípios primeiros, seus elementos e suas causas. De modo geral, toda ciência que raciocina, ou que de algum jeito envolve raciocínio, lida com causas e princípios, mais ou menos precisos.
Mas todas essas ciências recortam um ser particular, algum gênero, e investigam apenas esse recorte. Não investigam o ser de modo simples, nem o ser enquanto ser, e tampouco discutem a essência das coisas de que tratam. Elas partem da essência: umas a tornam evidente aos sentidos, outras a tomam como hipótese de partida. A partir daí demonstram, com mais ou menos rigor, as propriedades que pertencem por natureza ao gênero de que tratam.
É claro, portanto, que esse tipo de procedimento não chega a demonstrar a substância nem a essência, e sim a exibi-la de algum outro modo. Da mesma forma, essas ciências deixam de lado a pergunta sobre se o gênero de que tratam existe ou não existe, porque mostrar o que uma coisa é e mostrar que ela existe pertencem ao mesmo tipo de pensamento.
A ciência da natureza, como as outras ciências, trata de uma única classe de seres, isto é, daquele tipo de substância que tem em si mesma o princípio do seu movimento e do seu repouso. Por isso ela não é nem prática nem produtiva. No caso das coisas fabricadas, o princípio está em quem fabrica: é a razão, ou a arte, ou alguma capacidade. No caso das coisas feitas pela ação, o princípio está em quem age, ou seja, a vontade, pois aquilo que é feito e aquilo que é querido são a mesma coisa.
Logo, se todo pensamento é prático, produtivo ou teórico, a física precisa ser uma ciência teórica. Mas ela vai teorizar sobre aquele tipo de ser que admite ser movido, e sobre a substância definida, na maior parte dos casos, apenas como algo que não se separa da matéria.
Não podemos deixar de notar de que maneira a essência e a sua definição existem, pois sem isso a investigação não leva a nada. Entre as coisas que se definem, ou seja, entre os "o que isto é", algumas são como o "nariz arrebitado" e outras como o "côncavo". Essas duas diferem porque o arrebitado está amarrado à matéria (já que um nariz arrebitado é um nariz côncavo), enquanto o ser côncavo independe de qualquer matéria perceptível.
Ora, todas as coisas naturais são como o arrebitado: nariz, olho, rosto, carne, osso e, em geral, o animal; folha, raiz, casca e, em geral, a planta. Nenhuma delas pode ser definida sem referência ao movimento, pois sempre têm matéria. Fica claro, então, como devemos buscar e definir o "o que isto é" no caso dos objetos naturais, e também por que cabe a quem estuda a natureza estudar até mesmo a alma, em certo sentido: a parte dela que não existe independente da matéria.
Que a física é uma ciência teórica fica evidente por essas considerações. A matemática também é teórica. Mas se os seus objetos não se movem e existem separados da matéria, isso por enquanto não está claro. O que está claro é que alguns teoremas matemáticos tratam desses objetos justamente como coisas que não se movem e que existem separadas da matéria.
Se, no entanto, existe algo eterno, imóvel e separado, claramente o conhecimento dele cabe a uma ciência teórica. Não à física (que lida com certas coisas móveis), nem à matemática, mas a uma ciência anterior às duas. A física trata de coisas que existem separadas mas não são imóveis; algumas partes da matemática tratam de coisas que são imóveis mas provavelmente não existem separadas, e sim incorporadas na matéria; a primeira ciência trata daquilo que ao mesmo tempo existe separado e é imóvel.
Todas as causas precisam ser eternas, mas sobretudo essas, pois são elas que operam sobre o tanto do divino que se mostra a nós. Há, então, três filosofias teóricas: a matemática, a física e o que podemos chamar de teologia. Pois é claro que, se o divino está presente em algum lugar, ele está presente em coisas desse tipo. E a ciência mais alta precisa tratar do gênero mais alto.
Assim, embora as ciências teóricas sejam mais desejáveis que as outras ciências, esta é mais desejável que as outras ciências teóricas. Pode-se levantar a questão de se a filosofia primeira é universal ou se trata de um único gênero, isto é, de um único tipo de ser. Nem mesmo as ciências matemáticas são todas iguais nesse ponto: a geometria e a astronomia tratam de um tipo particular de coisa, enquanto a matemática universal se aplica igualmente a tudo.
Respondemos que, se não existe nenhuma substância além daquelas formadas pela natureza, então a ciência da natureza será a primeira ciência. Mas se existe uma substância imóvel, a ciência dela tem que ser anterior e tem que ser a filosofia primeira, e universal justamente por ser primeira. E caberá a ela considerar o ser enquanto ser: tanto o que ele é quanto as propriedades que lhe pertencem enquanto ser.