Metafísica - Livro IX 8
Livro IX (Teta): a distinção entre potência e ato
O ato é anterior à potência: na definição, no tempo e na substância
Pela análise que fizemos dos vários sentidos de "anterior", fica claro que o ato é anterior à potência. E por "potência" não entendo apenas aquele tipo definido que se diz ser um princípio de mudança em outra coisa, ou na própria coisa enquanto considerada como outra, mas em geral todo princípio de movimento ou de repouso. Pois a natureza também pertence ao mesmo gênero que a potência, já que é um princípio de movimento, não em outra coisa, mas na própria coisa enquanto ela mesma. A toda potência desse tipo, então, o ato é anterior tanto na definição quanto na substância; e no tempo é anterior num sentido, e em outro não.
(1) Que ele é anterior na definição, é claro. Pois aquilo que é potencial no sentido primário é potencial porque lhe é possível tornar-se ativo. Por exemplo, chamo de "capaz de construir" aquilo que pode construir, de "capaz de ver" aquilo que pode ver, e de "visível" aquilo que pode ser visto. O mesmo vale para todos os outros casos, de modo que a definição e o conhecimento de um termo precisam vir antes do conhecimento do outro.
(2) No tempo, ele é anterior neste sentido: o que está em ato, sendo idêntico em espécie (embora não em número) a uma coisa que existe em potência, é anterior a ela. Quero dizer que, em relação a este homem particular que agora existe em ato, e ao trigo, e ao sujeito que vê, são anteriores no tempo a matéria, a semente e aquilo que é capaz de ver, que são em potência um homem, o trigo e a visão, mas ainda não em ato.
Mas anteriores no tempo a estes são outras coisas que já existem em ato, das quais eles foram produzidos. Pois, a partir do que existe em potência, o que existe em ato é sempre produzido por algo que já existe em ato. Por exemplo, o homem vem do homem, o músico é formado pelo músico; há sempre um primeiro motor, e o motor já existe em ato. Já dissemos, ao tratar da substância, que tudo o que é produzido é algo produzido a partir de algo e por algo, e que esse algo é o mesmo em espécie que ele.
É por isso que se considera impossível ser construtor sem nunca ter construído nada, ou tocador de harpa sem nunca ter tocado a harpa. Pois quem aprende a tocar harpa aprende tocando, e o mesmo vale para todos os que aprendem qualquer coisa.
Daí surgiu o truque dos sofistas, segundo o qual quem não possui uma ciência estaria realizando aquilo de que essa ciência trata, pois quem está aprendendo ainda não a possui. Mas, como aquilo que está vindo a ser já precisa ter chegado a ser em parte, e aquilo que está mudando já precisa ter mudado em parte (o que é mostrado no tratado sobre o movimento), então quem está aprendendo já deve possuir alguma parte da ciência. Aqui também, portanto, fica claro que o ato é anterior à potência nesse sentido, ou seja, na ordem da geração e do tempo.
(3) Mas o ato também é anterior na substância. Primeiro, (a) porque as coisas que são posteriores na geração são anteriores na forma e na substância. Por exemplo, o homem é anterior ao menino, e o ser humano é anterior à semente, pois um já tem a sua forma e o outro ainda não.
E também porque tudo o que vem a ser caminha em direção a um princípio, isto é, a um fim. Pois aquilo em vista do qual uma coisa existe é o seu princípio, e o vir a ser acontece em vista do fim. Ora, o ato é o fim, e é em vista dele que a potência é adquirida. Pois os animais não veem para ter visão, mas têm visão para ver. Do mesmo modo, os homens têm a arte de construir para construir, e a ciência teórica para contemplar; eles não contemplam para ter a ciência teórica, exceto os que estão aprendendo na prática, e mesmo esses contemplam apenas num sentido limitado, ou porque não têm necessidade de contemplar.
Além disso, a matéria existe em estado potencial justamente porque pode chegar à sua forma; e, quando existe em ato, está então na sua forma. O mesmo vale para todos os casos, inclusive aqueles em que o fim é um movimento. Por isso, assim como os professores acham que atingiram o seu fim quando exibem o aluno trabalhando, a natureza faz o mesmo. Pois, se não fosse assim, teríamos de novo o Hermes de Páuson, já que seria difícil dizer sobre o conhecimento, como sobre a figura no quadro, se ele está dentro ou fora. Pois a ação é o fim, e o ato é a ação. E por isso a própria palavra "ato" (energeia) deriva de "ação" (ergon) e aponta para a realidade plena.
Ora, em alguns casos o exercício é a coisa última. Por exemplo, na visão a coisa última é o ver, e nenhum outro produto além desse resulta da visão. Mas de outras coisas resulta um produto. Por exemplo, da arte de construir resulta uma casa, além do próprio ato de construir. Ainda assim, no primeiro caso o ato é o fim, e no segundo o ato é mais um fim do que a potência é. Pois o ato de construir se realiza naquilo que está sendo construído, e vem a ser, e existe, ao mesmo tempo que a casa.
Onde, então, o resultado é algo separado do exercício, o ato está naquilo que está sendo feito. Por exemplo, o ato de construir está naquilo que está sendo construído, e o de tecer naquilo que está sendo tecido, e assim por diante em todos os outros casos; em geral, o movimento está naquilo que está sendo movido. Mas, onde não há produto separado do ato, o ato está presente no próprio agente. Por exemplo, o ato de ver está no sujeito que vê, o de contemplar no sujeito que contempla, e a vida está na alma (e por isso o bem-estar também, pois ele é um certo tipo de vida).
Fica claro, portanto, que a substância, ou forma, é ato. Por esse argumento, então, é evidente que o ato é anterior à potência na substância. E, como dissemos, um ato sempre precede outro no tempo, recuando até o ato do eterno primeiro motor.
(b) Mas o ato é anterior também num sentido mais rigoroso. Pois as coisas eternas são anteriores na substância às coisas perecíveis, e nenhuma coisa eterna existe em potência. A razão é esta: toda potência é, ao mesmo tempo, potência do oposto. Pois aquilo que não é capaz de estar presente num sujeito não pode estar presente, mas tudo o que é capaz de ser pode também não estar em ato.
Aquilo, então, que é capaz de ser, pode ser ou não ser; logo, a mesma coisa é capaz tanto de ser quanto de não ser. E aquilo que é capaz de não ser pode de fato não ser; e aquilo que pode não ser é perecível, seja no sentido pleno, seja no sentido preciso em que se diz que pode não ser, isto é, quanto ao lugar, à quantidade ou à qualidade. "No sentido pleno" significa "quanto à substância".
Portanto, nada que seja imperecível no sentido pleno existe em potência no sentido pleno (embora nada impeça que exista em potência sob algum aspecto, por exemplo, em potência quanto a uma certa qualidade ou a um certo lugar). Logo, todas as coisas imperecíveis existem em ato. Tampouco pode existir em potência aquilo que existe por necessidade; e essas coisas são primárias, pois, se elas não existissem, nada existiria.
Nem o movimento eterno, se existe um, existe em potência; e, se existe um móvel eterno, ele não se move em virtude de uma potência, exceto quanto ao "de onde" e ao "para onde" (nada impede que ele tenha uma matéria que o torne capaz de se mover em várias direções). Por isso o sol, as estrelas e todo o céu estão sempre ativos, e não há por que temer que algum dia parem, como temem os filósofos da natureza. E não se cansam nessa atividade; pois, para eles, o movimento não está ligado, como para as coisas perecíveis, à potência dos opostos, de modo que a continuidade do movimento fosse trabalhosa. A causa desse cansaço é aquele tipo de substância que é matéria e potência, não ato.
As coisas imperecíveis são imitadas pelas que estão envolvidas na mudança, como a terra e o fogo. Pois estas também estão sempre ativas, já que têm o seu movimento por si mesmas e em si mesmas. Mas as outras potências, conforme nossa discussão anterior, são todas potências dos opostos. Pois aquilo que pode mover outra coisa de um certo modo também pode movê-la de modo contrário, ao menos quando age segundo uma definição racional; e as mesmas potências não racionais produzem resultados opostos por sua presença ou ausência.
Se, então, existem entidades ou substâncias como as que os dialéticos dizem ser as Ideias, teria de haver algo muito mais científico do que a própria ciência e algo mais móvel do que o próprio movimento. Pois esses teriam mais a natureza de atos, enquanto a própria ciência e o próprio movimento seriam potências para eles.
Fica claro, portanto, que o ato é anterior à potência e a todo princípio de mudança.