Metafísica - Livro IX 7

Livro IX (Teta): a distinção entre potência e ato

Quando uma coisa existe em potência e o sentido de feito de

O que é o ato, e que tipo de coisa ele é, pode ser dado por entendido a partir dessas e de outras considerações parecidas. Mas precisamos distinguir quando uma coisa existe em potência e quando não existe, pois isso não acontece em qualquer momento.
Por exemplo: a terra é, em potência, um homem? Não. Mas ela passa a sê-lo quando se tornou semente, e talvez nem mesmo aí. É como acontece com a cura: nem tudo pode ser curado pela arte da medicina ou pela sorte, mas existe um certo tipo de coisa que é capaz de ser curada, e essa coisa é saudável em potência.
Vejamos primeiro os casos em que uma coisa passa a existir em ato a partir de existir em potência por meio do pensamento de alguém. A marca que define esses casos é a seguinte: se o agente quiser, a coisa acontece, contanto que nada de fora atrapalhe. Do outro lado, no caso daquilo que é curado, a condição é que nada dentro dele atrapalhe o resultado.
Em termos parecidos é que temos aquilo que é uma casa em potência. Se nada na coisa sobre a qual se age, ou seja, na matéria, a impede de virar uma casa, e se não nada que precise ser acrescentado, retirado ou modificado, então essa coisa é uma casa em potência. O mesmo vale para todas as outras coisas cuja origem da sua transformação está fora delas.
E vejamos agora os casos em que a origem da transformação está dentro da própria coisa que vem a ser. Aqui uma coisa é, em potência, tudo aquilo que ela virá a ser por si mesma, se nada de fora a atrapalhar.
Por exemplo: a semente ainda não é um homem em potência, pois ela precisa ser depositada em algo diferente dela e passar por uma mudança. Mas quando, pelo seu próprio princípio interno de movimento, ela adquiriu tais e tais características, nesse estado ela é um homem em potência. No estado anterior, ela precisava de outro princípio de movimento, assim como a terra ainda não é uma estátua em potência, pois primeiro ela precisa mudar para se tornar bronze.
Parece que, quando chamamos uma coisa não pelo nome de outra, mas dizendo que ela é feita daquela outra, indicamos algo importante. Por exemplo: uma caixa não é madeira, mas sim feita de madeira. E a madeira não é terra, mas feita de terra. E, do mesmo modo, a terra, se não for ela mesma alguma outra coisa, mas feita de outra coisa. Em cada caso, essa outra coisa é sempre, em potência (no sentido pleno da palavra), aquilo que vem depois dela nessa sequência.
Por exemplo: uma caixa não é feita de terra nem é terra, mas feita de madeira, pois a madeira é uma caixa em potência e é a matéria de uma caixa: a madeira em geral é matéria da caixa em geral, e esta madeira em particular é matéria desta caixa em particular.
E se existe uma coisa primeira que não é chamada, em referência a algo anterior, de feita de outra coisa, essa coisa é a matéria primeira. Por exemplo: se a terra é feita de ar, e o ar não é fogo, mas feito de fogo, então o fogo é a matéria primeira, que não é um isto, ou seja, não é uma coisa individual determinada.
Pois o sujeito (aquilo que está por baixo e sustenta as propriedades) se distingue por ser um isto ou por não ser um isto. O sujeito das modificações é, por exemplo, um homem, isto é, um corpo e uma alma, enquanto a modificação é ser músico ou ser pálido.
Repare: quando a música passa a estar presente no sujeito, ele não é chamado de música, mas de músico. E o homem não é chamado de palidez, mas de pálido. E não é chamado de caminhada ou movimento, mas de andante ou de quem se move. Isso é parecido com o feito de.
Sempre que é assim, então, o sujeito último é uma substância. Mas quando não é assim, e sim quando aquilo que se afirma da coisa é uma forma e um isto, o sujeito último é matéria e substância material.
E está absolutamente certo usar a expressão feito de tanto para a matéria quanto para as qualidades acidentais (aquelas que a coisa pode ter ou não ter sem deixar de ser o que é), pois ambas são indeterminadas.
Dissemos, então, quando uma coisa deve ser considerada existente em potência e quando não deve.