Metafísica - Livro IX 9

Livro IX (Teta): a distinção entre potência e ato

Por que o ato vale mais que a potência (e a geometria como prova)

Que o ato é também melhor e mais valioso do que a boa potência fica claro pelo seguinte raciocínio. Tudo aquilo de que dizemos que pode fazer algo é igualmente capaz dos contrários: aquilo que pode estar com saúde é o mesmo que pode adoecer, e tem ambas as capacidades ao mesmo tempo. A mesma potência é potência de saúde e de doença, de repouso e de movimento, de construir e de demolir, de ser construído e de ser demolido.
A capacidade para os contrários, então, está presente ao mesmo tempo. Mas os contrários não podem estar presentes ao mesmo tempo, e os atos também não podem estar presentes ao mesmo tempo, como a saúde e a doença. Portanto, embora o bem tenha de ser um dos dois, a capacidade é igualmente dos dois, ou de nenhum. O ato, então, é melhor.
No caso das coisas más, o fim ou ato tem de ser pior do que a potência, pois aquilo que pode é igualmente dos dois contrários. Fica claro, então, que o mal não existe separado das coisas más, pois o mal é, por natureza, posterior à potência.
Por isso podemos também dizer que nas coisas que existem desde o princípio, ou seja, nas coisas eternas, não nada de mau, nada de defeituoso, nada de pervertido, pois a perversão é algo mau.
É também por uma atividade que as construções da geometria são descobertas, pois nós as encontramos dividindo as figuras. Se as figuras estivessem divididas, as construções seriam óbvias; mas, do jeito que estão, elas existem apenas em potência.
Por que os ângulos do triângulo somam dois ângulos retos? Porque os ângulos em torno de um único ponto somam dois ângulos retos. Se a reta paralela ao lado tivesse sido traçada, a razão seria evidente a qualquer um assim que olhasse para a figura.
Por que o ângulo inscrito num semicírculo é sempre um ângulo reto? Se três retas são iguais, as duas que formam a base e a perpendicular vinda do centro, a conclusão fica evidente num relance para quem conhece a proposição anterior.
Fica claro, portanto, que as construções existentes em potência são descobertas ao serem trazidas ao ato. A razão é que o pensamento de quem estuda geometria é um ato. Assim, a potência procede de um ato, e por isso é fazendo as construções que as pessoas chegam a conhecê-las, embora o ato individual seja, na ordem da geração, posterior à potência correspondente.