Metafísica - Livro IX 6

Livro IX (Teta): a distinção entre potência e ato

O que é o ato: definição por exemplos e a diferença entre ação completa e movimento

tratamos do tipo de potência (capacidade) que tem a ver com o movimento. Vamos agora discutir o ato (realização): o que ele é e que tipo de coisa ele é. Ao analisar isso, ficará claro também algo sobre a potência: nós não atribuímos potência apenas àquilo que, por natureza, é capaz de mover outra coisa ou de ser movido por outra coisa, de um modo qualquer ou de um modo específico. Usamos a palavra também em outro sentido, e é justamente para examinar esse outro sentido que antes tratamos desses sentidos anteriores.
O ato, então, é a existência de uma coisa que não está no modo a que chamamos "em potência". Por exemplo, dizemos que a estátua de Hermes está em potência dentro do bloco de madeira, e que a metade de uma linha está em potência dentro da linha inteira, porque pode ser separada dela. E chamamos até de cientista o homem que não está estudando, desde que ele seja capaz de estudar. Aquilo que, em cada um desses casos, se opõe a esse estado de potência é o que existe em ato.
O que queremos dizer fica visível examinando os casos particulares, um por um. Não devemos exigir uma definição de tudo: basta captar a analogia. O ato está para a potência assim como quem está construindo está para quem apenas sabe construir; como quem está acordado está para quem dorme; como quem está vendo está para quem tem olhos fechados mas possui o sentido da visão; como aquilo que foi moldado a partir da matéria está para a matéria ainda em bruto; como o que foi acabado está para o que não foi trabalhado. Tomemos um dos lados dessa oposição para definir o ato, e o outro lado para definir a potência.
Mas nem todas as coisas são ditas existir em ato no mesmo sentido. Elas existem em ato apenas por analogia: assim como A está em B, ou para B, do mesmo modo C está em D, ou para D. Em alguns casos a relação é a do movimento para a potência; em outros, é a da substância para um certo tipo de matéria.
Também o infinito, o vazio e todas as coisas parecidas são ditos existir em potência e em ato num sentido diferente do que vale para muitas outras coisas, como aquilo que vê, ou anda, ou é visto. Nesses últimos casos, o que se diz pode em algum momento ser verdadeiramente afirmado sem ressalva, pois algo é chamado de "visto" ora porque está sendo visto naquele instante, ora porque é capaz de ser visto. o infinito não existe em potência no sentido de que um dia venha a ter existência separada e atual; ele existe em potência apenas para o conhecimento. O fato de o processo de dividir nunca chegar ao fim garante que essa atividade exista em potência, mas não que o infinito exista como uma coisa separada.
Vejamos agora a diferença entre ação e movimento. Das ações que têm um limite, nenhuma é em si o fim: todas estão voltadas para um fim externo. Tome o exemplo de emagrecer, isto é, de perder gordura. Quando alguém está emagrecendo, as próprias partes do corpo estão em movimento desse modo, ou seja, ainda não alcançaram aquilo que o movimento busca, que é a magreza. Isso não é uma ação, ou pelo menos não é uma ação completa, porque ainda não é um fim. A ação propriamente dita é aquela em que o fim está presente nela mesma.
Por exemplo: no mesmo instante estamos vendo e vimos, estamos entendendo e entendemos, estamos pensando e pensamos. Mas não é verdade que, no mesmo instante, estejamos aprendendo e tenhamos aprendido, ou estejamos sendo curados e tenhamos sido curados. No mesmo instante estamos vivendo bem e vivemos bem, estamos sendo felizes e fomos felizes. Se não fosse assim, o processo teria de cessar em algum momento, como o emagrecer cessa quando se chega à magreza. Mas não é o que acontece com viver: estamos vivendo e vivemos ao mesmo tempo.
Desses dois conjuntos de processos, então, devemos chamar um de movimentos, e o outro de atos. Todo movimento é incompleto: emagrecer, aprender, andar, construir são movimentos, e movimentos incompletos. Pois não é verdade que, ao mesmo tempo, uma coisa esteja andando e tenha andado, ou esteja construindo e tenha construído, ou esteja vindo a ser e tenha vindo a ser, ou esteja sendo movida e tenha sido movida. O que está sendo movido é diferente do que foi movido, e o que está movendo é diferente do que moveu. Mas é a mesma coisa que, ao mesmo tempo, viu e está vendo, ou está pensando e pensou. A esse segundo tipo de processo eu chamo ato, e ao primeiro chamo movimento.