Metafísica - Livro IX 5
Livro IX (Teta): a distinção entre potência e ato
Como adquirimos as capacidades, e por que as racionais precisam de um desejo que decida
Toda capacidade (potência) ou é inata, como a dos sentidos, ou vem da prática, como a habilidade de tocar flauta, ou vem do aprendizado, como o domínio de uma arte. As que vêm da prática ou de uma regra racional só conseguimos adquirir treinando antes; já as que não são desse tipo, e que implicam apenas sofrer uma ação, não precisam desse treino prévio.
Aquilo que é "capaz" é sempre capaz de algo, num certo momento e de um certo modo, com todas as demais condições que precisam estar presentes na definição. Ora, algumas coisas produzem mudança segundo uma regra racional, e suas capacidades envolvem essa regra; outras coisas não têm razão, e suas capacidades também não a têm. As capacidades racionais precisam estar num ser vivo; já as não racionais podem estar tanto no que tem vida quanto no que não tem.
Quanto às capacidades não racionais, quando o agente e o paciente se encontram do modo apropriado àquela capacidade, um necessariamente age e o outro necessariamente sofre a ação. Mas com as capacidades racionais isso não acontece de forma necessária.
As capacidades não racionais produzem, cada uma, um único efeito; as racionais, no entanto, produzem efeitos contrários. Logo, se as capacidades racionais produzissem seus efeitos por necessidade, produziriam ao mesmo tempo efeitos contrários, o que é impossível.
Tem de haver, então, alguma outra coisa que decide; e por isso quero dizer o desejo ou a vontade. Pois, dos dois efeitos opostos, aquele que o ser vivo desejar de modo decisivo é o que ele vai realizar, quando estiver presente e encontrar o objeto que sofre a ação, do modo apropriado àquela capacidade.
Por isso, tudo o que tem uma capacidade racional, quando deseja aquilo para o qual tem a capacidade e nas circunstâncias em que a tem, necessariamente age. E tem a capacidade em questão quando o objeto que sofre a ação está presente e num certo estado; do contrário, não conseguirá agir.
Não é preciso acrescentar a condição "se nada externo o impedir". Pois a coisa já tem a capacidade nos termos em que isto é uma capacidade de agir, e ela vale não em todas as circunstâncias, mas sob certas condições, entre as quais já está incluída a ausência de obstáculos externos. Esses obstáculos ficam excluídos por algumas das condições positivas que entram na definição.
Assim, mesmo que alguém tenha o desejo racional, ou o apetite, de fazer duas coisas ao mesmo tempo, ou coisas contrárias, não as fará. Pois não é nesses termos que ele tem a capacidade para elas, nem se trata de uma capacidade de fazer as duas ao mesmo tempo: a pessoa só faz aquilo que tem capacidade de fazer, e nos termos em que tem essa capacidade.