Metafísica - Livro IX 4
Livro IX (Teta): a distinção entre potência e ato
Como reconhecer o que é realmente possível
Se aquilo que descrevemos antes é a mesma coisa que o que é capaz, ou pode ser trocado por ele, fica claro que não pode ser verdade dizer: "isto é capaz de existir, mas nunca vai existir". Dizer isso seria fazer desaparecer as coisas que são incapazes de existir, ou seja, deixaria de haver qualquer impossível.
Tome um exemplo. Suponha que alguém, sem levar em conta o que é incapaz de existir, diga que a diagonal do quadrado é capaz de ser medida pelo lado, embora nunca venha a ser medida. Ele diria isso porque, em geral, uma coisa pode muito bem ser capaz de existir ou de vir a existir e mesmo assim não existir nem estar prestes a existir.
Mas do que combinamos antes se segue necessariamente o seguinte: se de fato supormos que aquilo que não existe, mas é capaz de existir, exista ou tenha passado a existir, não haverá nada de impossível nessa suposição. No caso da diagonal, no entanto, o resultado seria impossível, pois medir a diagonal pelo lado é algo impossível. Logo, dizer que ela é capaz de ser medida é falso.
Afinal, o falso e o impossível não são a mesma coisa. Que você esteja de pé agora é falso, se você está sentado; mas que você esteja de pé não é impossível, porque você poderia muito bem estar de pé.
Ao mesmo tempo, fica claro o seguinte: se, quando A é real, B tem necessariamente de ser real também, então, quando A é possível, B também tem necessariamente de ser possível. Pois, se B não precisasse ser possível, nada impediria que ele fosse impossível.
Vamos supor então que A seja possível. Quando A era possível, combinamos que nada de impossível se seguiria caso supuséssemos que A fosse real. E, sendo A real, B teria de ser real também. Mas suponhamos agora que B seja impossível. Pois bem, admita que ele seja impossível.
Ora, se B é impossível, A também tem de ser impossível. Mas o primeiro caso havia sido suposto possível; portanto o segundo também é possível. Assim, se A é possível, B também será possível, contanto que estejam relacionados de tal modo que, se A é real, B tem necessariamente de ser real.
E se A e B estão relacionados desse jeito, mas B não for possível nessa condição, então A e B não estarão relacionados como supusemos. E se, dado que A é possível, B tem necessariamente de ser possível, então, se A é real, B também tem necessariamente de ser real.
Pois dizer que B tem de ser possível, se A é possível, significa o seguinte: se A é real no mesmo momento e do mesmo modo em que se supôs que ele era capaz de ser real, então B também tem de ser real naquele mesmo momento e daquele mesmo modo.