Metafísica - Livro IX 3

Livro IX (Teta): a distinção entre potência e ato

A refutação dos megáricos: por que a capacidade de agir não some quando a gente para de agir

quem diga, como a escola megárica, que uma coisa 'pode' agir quando de fato está agindo, e que, quando não está agindo, não 'pode' agir. Por exemplo, quem não está construindo não pode construir, e pode construir quem está construindo, enquanto constrói. O mesmo valeria para todos os outros casos. Não é difícil enxergar os absurdos que acompanham essa posição.
Pois, segundo essa visão, fica claro que ninguém será construtor a não ser enquanto estiver construindo, que ser construtor é ser capaz de construir. E o mesmo aconteceria com as outras artes. Ora, é impossível ter uma arte assim sem em algum momento tê-la aprendido e adquirido, e depois é igualmente impossível deixar de tê-la sem em algum momento tê-la perdido (seja por esquecimento, seja por algum acidente, seja pelo tempo, pois não pode ser pela destruição da coisa em si, que dura para sempre).
Mas, pela tese megárica, a pessoa não teria a arte assim que parasse de usá-la. E, no entanto, ela poderia construir de novo no instante seguinte. Como teria recuperado a arte? O mesmo vale para as coisas sem vida: nada seria frio, quente, doce ou perceptível de qualquer forma se ninguém estivesse percebendo isso. Assim, quem sustenta essa visão acaba tendo que defender a doutrina de Protágoras.
Mais ainda: nada teria sequer a capacidade de perceber se não estivesse de fato percebendo, ou seja, exercendo essa percepção. Então, se é cego aquilo que não tem visão embora naturalmente devesse tê-la, no momento em que naturalmente a teria e enquanto ainda existe, essas mesmas pessoas seriam cegas várias vezes ao dia, e surdas também.
Além disso, se aquilo que está privado de potência é incapaz, então o que não está acontecendo é incapaz de acontecer. Mas quem afirmar, sobre o que é incapaz de acontecer, que ele é o caso ou que virá a ser o caso, dirá algo falso, pois era exatamente isso que 'incapacidade' significava. Logo, essas teses eliminam tanto o movimento quanto o vir a ser.
Pois o que está de ficará sempre de pé, e o que está sentado ficará sempre sentado, que, se está sentado, não vai se levantar. Afinal, aquilo que, segundo eles, não pode se levantar seria incapaz de se levantar. Mas não podemos dizer isso. Fica evidente, então, que potência e ato são coisas diferentes, enquanto essas teses tornam potência e ato a mesma coisa. Não é coisa pequena o que estão tentando aniquilar.
Por isso é possível que algo seja capaz de existir e não exista, e capaz de não existir e mesmo assim exista. O mesmo vale para os outros tipos de predicado: algo pode ser capaz de andar e ainda assim não andar, ou capaz de não andar e ainda assim andar.
E uma coisa é capaz de fazer algo se não houver nada de impossível em ela ter a realização daquilo de que se diz ter a capacidade. Quero dizer, por exemplo, que, se uma coisa é capaz de estar sentada e nada a impede de sentar, então não haverá nada de impossível em ela estar de fato sentada. O mesmo vale se ela é capaz de ser movida ou de mover, de estar de ou de fazer ficar de pé, de existir ou de vir a existir, de não existir ou de não vir a existir.
A palavra 'ato' (energeia), que ligamos à ideia de 'realidade plena', foi em geral estendida dos movimentos para as outras coisas, pois no sentido estrito pensa-se que o ato seja idêntico ao movimento. Por isso as pessoas não atribuem movimento ao que não existe, embora lhe atribuam alguns outros predicados.
Por exemplo, dizem que coisas inexistentes são objetos de pensamento e de desejo, mas não dizem que essas coisas são movidas. E isso porque, embora por hipótese elas não existam de fato, teriam que existir de fato se fossem movidas. Pois, entre as coisas inexistentes, algumas existem em potência. Mas elas não existem, justamente porque não existem em realidade plena.