Metafísica - Livro IX 10

Livro IX (Teta): a distinção entre potência e ato

O ser como verdadeiro: verdade e falsidade estão no pensamento, não nas coisas

Os termos 'ser' e 'não ser' são usados, primeiro, em relação aos tipos de coisas que existem; segundo, em relação à potência ou ao ato delas, ou à falta de potência ou de ato; e terceiro, no sentido de verdadeiro e falso.
Esse terceiro sentido depende, do lado das coisas, de elas estarem combinadas ou separadas. Quem pensa que está separado o que de fato está separado, e que está junto o que de fato está junto, tem a verdade. Quem pensa o contrário do que as coisas são está em erro.
Sendo assim, quando existe o que chamamos de verdade ou de falsidade, e quando não existe? Precisamos examinar o que queremos dizer com esses termos.
Não é por pensarmos com verdade que você é pálido que você é pálido. É porque você é pálido que nós, ao dizer isso, temos a verdade.
Então, se algumas coisas estão sempre combinadas e não podem ser separadas, e outras estão sempre separadas e não podem ser combinadas, enquanto outras admitem tanto a combinação quanto a separação, nesses casos 'ser' é estar combinado e formar uma unidade, e 'não ser' é não estar combinado, mas ser mais de um.
No caso dos fatos que podem ser de um jeito ou de outro, a mesma opinião ou a mesma afirmação chega a ser ora falsa ora verdadeira, e é possível que esteja certa num momento e errada em outro. no caso das coisas que não podem ser diferentes do que são, as opiniões não são ora verdadeiras ora falsas: as mesmas opiniões são sempre verdadeiras ou sempre falsas.
Mas, no caso das coisas simples, sem partes, o que é o ser ou o não ser, a verdade ou a falsidade? Uma coisa desse tipo não é composta, de modo que não pode 'ser' por estar montada e 'não ser' por estar desfeita, como acontece com 'a madeira é branca' ou 'a diagonal é incomensurável'. A verdade e a falsidade também não estarão presentes nelas do mesmo modo que nos casos anteriores.
De fato, assim como a verdade não é a mesma nesses casos, o ser também não é o mesmo. Aqui a verdade ou a falsidade é o seguinte: tocar a coisa e enunciá-la é a verdade (e enunciar não é o mesmo que afirmar um predicado de um sujeito), enquanto a ignorância é não tocá-la.
Pois não é possível errar sobre a questão do que uma coisa é, a não ser num sentido indireto. O mesmo vale para as substâncias sem partes: não é possível errar a respeito delas.
E todas elas existem em ato, não em potência. Se existissem em potência, teriam vindo a ser e teriam deixado de ser. Mas, do jeito que são, o próprio ser delas não vem a ser nem deixa de ser, pois, se viesse a ser, teria de sair de algo anterior.
Portanto, a respeito das coisas que são essências e atos puros, não é possível errar: é possível conhecê-las ou não conhecê-las. O que de fato investigamos a respeito delas é o que elas são, ou seja, se têm esta ou aquela natureza, ou não.
Quanto ao 'ser' que corresponde à verdade e ao 'não ser' que corresponde à falsidade, num caso verdade se o sujeito e a propriedade estão de fato combinados, e falsidade se não estão combinados. No outro caso, se a coisa existe, ela existe de um modo determinado, e, se não existe desse modo, então não existe de modo algum.
Aqui verdade significa conhecer essas coisas. Não existe falsidade nem erro, mas apenas ignorância, e não uma ignorância parecida com a cegueira, pois a cegueira seria como uma ausência total da faculdade de pensar.
Fica claro também que, sobre as coisas que não mudam, não pode haver erro quanto ao tempo, se as supusermos imutáveis. Por exemplo, se supomos que o triângulo não muda, não vamos supor que num momento seus ângulos somam dois ângulos retos e em outro momento não somam, pois isso implicaria mudança.
É possível, no entanto, supor que um membro de uma classe dessas tem certa propriedade e outro não tem. Por exemplo, ainda que possamos supor que nenhum número par seja primo, podemos supor que alguns são e outros não são.
Mas, em relação a um único número tomado individualmente, nem esse tipo de erro é possível. Nesse caso não podemos supor que uma instância tenha a propriedade e outra não, pois, seja nosso juízo verdadeiro ou falso, está implícito que o fato é eterno.