Metafísica - Livro IV 7
Livro IV (Gama): a ciência do ser enquanto ser e a defesa do princípio de não contradição
Entre afirmar e negar não há meio-termo (o terceiro excluído)
Por outro lado, não pode existir nada no meio do caminho entre duas afirmações que se contradizem. De um mesmo sujeito, temos sempre que ou afirmar ou negar cada predicado, sem terceira opção.
Isso fica claro se primeiro definimos o que é o verdadeiro e o que é o falso. Dizer do que é que não é, ou do que não é que é, isso é falso. Dizer do que é que é, e do que não é que não é, isso é verdadeiro. Assim, quem diz de qualquer coisa que ela é, ou que ela não é, estará dizendo ou algo verdadeiro ou algo falso. Mas sobre o que está no meio do caminho não se pode dizer nem que é nem que não é.
Além disso, esse suposto meio-termo entre as contradições teria que existir de uma de duas maneiras. Ou como o cinza está entre o preto e o branco, ou como aquilo que não é nem homem nem cavalo está entre o homem e o cavalo.
Se fosse desse segundo tipo, ele não poderia se transformar nos extremos, pois toda mudança vai do não bom ao bom, ou do bom ao não bom. Só que, na prática, sempre que existe um meio-termo, observamos que ele se transforma nos extremos. Não há mudança a não ser para coisas opostas e para os meios-termos entre elas.
Mas se ele for de fato um meio-termo, mesmo assim teria que haver uma mudança que chega ao branco sem partir do não branco. E isso nunca se vê acontecer.
Além disso, sempre que a mente entende ou raciocina sobre algo, ela ou afirma ou nega esse algo. Isso fica óbvio pela definição, toda vez que ela diz algo verdadeiro ou falso. Quando ela junta as ideias de um certo modo, por afirmação ou negação, diz o verdadeiro; quando as junta de outro modo, diz o falso.
Além disso, se levarmos a sério esse meio-termo, e não estivermos apenas discutindo por discutir, então teria que haver um meio-termo entre todas as contradições. Com isso, alguém poderia dizer algo que não é nem verdadeiro nem falso, haveria um meio entre o que é e o que não é, e existiria até um tipo de mudança no meio do caminho entre nascer e perecer.
Além disso, em todos os campos em que negar um atributo já implica afirmar o seu contrário, mesmo aí teria que existir um meio-termo. No campo dos números, por exemplo, existiria um número que não fosse nem ímpar nem não ímpar. Mas isso é impossível, como fica claro pela própria definição.
Além disso, o processo seguiria sem fim, e o número de coisas existentes não seria só metade maior, mas ainda maior do que isso. Pois seria possível negar de novo esse meio-termo, tanto em relação à sua afirmação quanto à sua negação, e esse novo termo seria por sua vez algo determinado, já que sua essência é algo distinto.
Além disso, quando alguém é perguntado se uma coisa é branca e responde "não", essa pessoa negou apenas uma coisa: que ela seja. E o não ser de algo é uma negação.
Algumas pessoas chegaram a essa opinião do mesmo jeito que chegaram a outras opiniões estranhas. Quando os homens não conseguem refutar argumentos capciosos, eles se rendem ao argumento e concordam que a conclusão é verdadeira. Esse é o motivo de alguns sustentarem essa visão. Outros a sustentam porque exigem uma razão para tudo.
E o ponto de partida para lidar com todas essas pessoas é a definição. A definição se apoia no fato de que elas necessariamente querem dizer alguma coisa quando falam, pois a fórmula verbal da qual a palavra é sinal será a definição dela.
A doutrina de Heráclito, de que todas as coisas são e não são, parece tornar tudo verdadeiro. Já a de Anaxágoras, de que existe um meio-termo entre os dois lados de uma contradição, parece tornar tudo falso. Pois, quando as coisas estão misturadas, a mistura não é nem boa nem não boa, de modo que nada de verdadeiro se pode dizer dela.