Metafísica - Livro IV 5
Livro IV (Gama): a ciência do ser enquanto ser e a defesa do princípio de não contradição
Refutação de Protágoras e da tese de que tudo o que aparece é verdadeiro
Da mesma opinião nasce também a doutrina de Protágoras, e as duas doutrinas precisam ser ou ambas verdadeiras ou ambas falsas. Por um lado, se todas as opiniões e aparências são verdadeiras, então toda afirmação tem de ser ao mesmo tempo verdadeira e falsa. Pois muita gente sustenta crenças em que entra em conflito com os outros, e acha que erram aqueles que não pensam como ela. Assim, a mesma coisa teria que ao mesmo tempo ser e não ser.
Por outro lado, se isso acontece, então todas as opiniões têm de ser verdadeiras. Pois quem erra e quem acerta estão em oposição um ao outro nas suas opiniões. Se a realidade é tal como essa tese supõe, todos estarão certos no que creem.
Fica claro, então, que as duas doutrinas partem do mesmo modo de pensar. Mas não se deve usar o mesmo método de discussão com todos os adversários. Alguns precisam ser persuadidos; outros, forçados. Quem foi levado a essa posição por dificuldades no próprio raciocínio pode ser curado da ignorância com facilidade, porque o que precisamos enfrentar não é o argumento que ele declara, e sim o pensamento por trás dele. Já quem discute só por discutir, esse só se cura refutando o argumento tal como ele o exprime, na fala e nas palavras.
Os que sentem de verdade as dificuldades chegaram a essa opinião observando o mundo sensível. Primeiro, eles acham que afirmações contraditórias ou contrárias são verdadeiras ao mesmo tempo, porque veem coisas contrárias surgindo a partir de uma mesma coisa. Ora, se aquilo que não existe não pode passar a existir, então a coisa já existia antes como as duas contrárias ao mesmo tempo, como diz Anaxágoras (tudo está misturado em tudo), e também Demócrito, que afirma que o vazio e o cheio existem igualmente em cada parte, sendo um deles ser e o outro não ser.
A esses, cuja crença se apoia nesses motivos, diremos que num sentido falam certo e noutro sentido erram. Pois a expressão aquilo que é tem dois significados, de modo que num sentido uma coisa pode vir a ser a partir daquilo que não é, e noutro sentido não pode. E a mesma coisa pode ao mesmo tempo ser e não ser, mas não sob o mesmo aspecto. Pois a mesma coisa pode ser potencialmente duas contrárias ao mesmo tempo, mas não pode ser as duas em ato. E pediremos ainda que aceitem que, entre as coisas existentes, há também outro tipo de substância, à qual não pertence movimento algum, nem destruição, nem geração.
De modo parecido, alguns concluíram, observando o mundo sensível, que as aparências são verdadeiras. Pois acham que a verdade não deve ser decidida pelo número, grande ou pequeno, dos que sustentam uma crença. Notam que a mesma coisa parece doce a uns quando a provam e amarga a outros, de modo que, se todos estivessem doentes ou todos loucos, e apenas dois ou três estivessem sãos, é esses dois ou três que seriam tidos por doentes e loucos, e não os demais.
Dizem ainda que muitos dos outros animais recebem impressões contrárias às nossas, e que, mesmo para os sentidos de um único indivíduo, as coisas nem sempre parecem iguais. Quais dessas impressões são verdadeiras e quais são falsas não fica claro, pois um grupo não é mais verdadeiro que o outro; ambos valem igual. É por isso que Demócrito, ao menos, diz que ou não existe verdade, ou ela não nos é evidente.
E, em geral, é porque esses pensadores supõem que o conhecimento é sensação, e que a sensação é uma alteração física do corpo, que dizem que aquilo que aparece aos nossos sentidos tem de ser verdadeiro. Foi por essas razões que Empédocles, Demócrito e quase todos os outros caíram vítimas de opiniões desse tipo. Empédocles diz que, quando os homens mudam a sua condição, mudam o seu conhecimento: pois a sabedoria cresce nos homens de acordo com o que têm diante de si.
E em outra passagem ele diz que, conforme a sua natureza mudava, sempre lhes vinham à mente pensamentos mudados. Parmênides também se expressa do mesmo modo: assim como em cada momento se compõem os membros muito flexíveis, assim é a mente dos homens; pois aquilo que pensa, em cada um e em todos os homens, é a constituição dos seus membros; e o pensamento é aquilo de que há mais.
Conta-se também um dito de Anaxágoras a alguns dos seus amigos: as coisas seriam para eles tais como supusessem que elas fossem. E dizem que Homero claramente tinha essa opinião, porque pôs Heitor, quando estava sem sentidos por causa do golpe, a pensar outros pensamentos, o que dá a entender que até os que estão privados de pensamento pensam, embora não pensem os mesmos pensamentos. Fica claro, então, que, se ambos os estados são formas de conhecimento, as coisas reais também são ao mesmo tempo de tal modo e não de tal modo.
E é nessa direção que as consequências ficam mais difíceis. Pois, se aqueles que viram o máximo de verdade que nos é possível alcançar (que são justamente os que mais a buscam e a amam), se esses têm tais opiniões e dizem isso sobre a verdade, não é de esperar que os que estão começando na filosofia percam o ânimo? Buscar a verdade seria como caçar uma presa em fuga.
Mas a razão por que esses pensadores chegaram a tal opinião é que, ao investigarem a verdade do que existe, supuseram que o que existe se reduzia ao mundo sensível. Ora, nesse mundo está presente, em larga medida, a natureza do indeterminado, do que existe no sentido especial que já explicamos. Por isso, ainda que falem de modo plausível, não dizem a verdade (cabe expor a questão assim, e não como Epicarmo a expôs contra Xenófanes).
Além disso, como viram que toda a natureza está em movimento, e que sobre aquilo que muda não se pode fazer nenhuma afirmação verdadeira, concluíram que, a respeito daquilo que muda por toda parte e em todos os aspectos, nada se poderia afirmar com verdade. Foi essa crença que desabrochou na mais extrema das opiniões mencionadas, a dos chamados heraclitianos, como a que sustentava Crátilo. Ele acabou por achar que não se deve dizer nada, e apenas mexia o dedo; e criticava Heráclito por ter dito que não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois Crátilo achava que não se podia fazer isso nem sequer uma vez.
A esse argumento responderemos que, embora haja alguma razão em pensar que aquilo que muda, enquanto está mudando, não existe, ainda assim isso é discutível. Pois o que está perdendo uma qualidade ainda guarda algo daquilo que está sendo perdido, e daquilo que está vindo a ser já tem de haver algo presente. Em geral, se uma coisa está perecendo, haverá algo que existe; e se uma coisa está vindo a ser, tem de haver algo de que ela vem a ser e algo pelo qual é gerada, e esse processo não pode seguir ao infinito.
Mas, deixando esses argumentos de lado, insistamos no seguinte: mudar em quantidade não é a mesma coisa que mudar em qualidade. Admita que em quantidade uma coisa não seja constante; ainda assim, é em respeito à sua forma que conhecemos cada coisa.
Seria justo, também, criticar os que sustentam essa tese por afirmarem do universo material inteiro aquilo que observaram apenas numa minoria das coisas sensíveis. Pois só aquela região do mundo sensível que fica ao nosso redor está sempre em processo de destruição e geração; mas isso não chega a ser, por assim dizer, nem uma fração do todo. Teria sido mais justo absolver essa parte do mundo por causa da outra do que condenar a outra por causa desta.
E daremos a eles também a mesma resposta que demos há pouco: temos de mostrar e convencê-los de que existe algo cuja natureza não muda. Aliás, os que dizem que as coisas ao mesmo tempo são e não são deveriam, por coerência, dizer que todas as coisas estão em repouso, e não em movimento. Pois não há nada em que elas possam mudar, já que todos os atributos pertencem desde já a todos os sujeitos.
Sobre a natureza da verdade, devemos sustentar que nem tudo o que aparece é verdadeiro. Primeiro, porque, mesmo que a sensação não seja falsa quanto ao objeto próprio de cada sentido, ainda assim aparência não é o mesmo que sensação.
Depois, é justo estranhar que nossos adversários levantem questões como se as grandezas têm o tamanho, e as cores a natureza, com que aparecem a quem está longe ou a quem está perto; se são tais como aparecem ao sadio ou ao doente; se são pesadas as coisas que parecem pesadas ao fraco ou as que parecem pesadas ao forte; se são verdadeiras as que aparecem a quem dorme ou a quem está acordado. Pois claramente nem eles próprios consideram isso questões em aberto: ninguém que, estando na Líbia, sonhou certa noite que estava em Atenas, sai de casa rumo à sala de concertos.
E, quanto ao futuro, como diz Platão, a opinião do médico e a do ignorante não têm o mesmo peso, por exemplo na questão de se um homem vai ou não sarar.
E, entre as próprias sensações, a sensação de um objeto estranho a um sentido e a do objeto próprio dele não têm a mesma autoridade. No caso da cor, quem tem autoridade é a visão, não o paladar; no caso do sabor, é o paladar, não a visão. E nenhum desses sentidos diz ao mesmo tempo, do mesmo objeto, que ele é de tal modo e não de tal modo.
Nem mesmo em momentos diferentes um sentido se contradiz quanto à qualidade em si, mas apenas quanto àquilo a que a qualidade pertence. Quero dizer, por exemplo, que o mesmo vinho pode parecer, se ele ou o nosso corpo mudar, ora doce, ora não doce. Mas o doce, tal como ele é quando existe, nunca mudou; sempre se acerta a respeito dele, e aquilo que vai ser doce é necessariamente de tal e tal natureza. No entanto, todas essas teses destroem essa necessidade, não deixando nada que seja por necessidade, assim como não deixam essência alguma em coisa nenhuma. Pois o que é necessário não pode ser deste modo e também daquele; logo, se algo é por necessidade, ele não será de tal modo e não de tal modo ao mesmo tempo.
E, em geral, se só o sensível existe, não haveria nada caso não existissem seres animados, pois não haveria a faculdade de sentir. Ora, é verdade que talvez nem as qualidades sensíveis nem as sensações existiriam sem eles, pois são afecções de quem percebe. Mas é impossível que aquilo que está por baixo e causa a sensação não exista mesmo separado da sensação. Pois a sensação não é sensação de si mesma; há algo além da sensação, que tem de ser anterior a ela. Pois aquilo que move é, por natureza, anterior àquilo que é movido, e isso vale mesmo que sejam termos correlativos.