Metafísica - Livro IV 3
Livro IV (Gama): a ciência do ser enquanto ser e a defesa do princípio de não contradição
O princípio de não contradição: a verdade mais firme, base de toda demonstração
Precisamos decidir se cabe a uma só ciência, ou a ciências diferentes, investigar tanto a substância (ousia) quanto aquelas verdades que na matemática são chamadas de axiomas. Está claro que a investigação desses axiomas também pertence a uma única ciência, a do filósofo. Pois essas verdades valem para tudo o que existe, e não apenas para algum tipo particular de coisa, separado dos demais.
Todos os homens usam esses axiomas, porque eles são verdadeiros do ser enquanto ser, e cada tipo de coisa tem ser. Mas as pessoas os usam só na medida em que isso lhe basta para seus fins, ou seja, até onde chega o campo a que se referem as suas demonstrações.
Como essas verdades valem claramente para todas as coisas enquanto coisas que são (pois é justamente isso que elas têm em comum), cabe investigá-las àquele que estuda o ser enquanto ser. Por essa razão, ninguém que conduz uma investigação particular tenta dizer algo sobre se esses axiomas são verdadeiros ou falsos, nem quem estuda geometria, nem quem estuda os números.
Alguns filósofos que estudavam a natureza chegaram a fazer isso, e o procedimento deles era compreensível: eles pensavam que só eles investigavam o conjunto da natureza e o ser. Mas existe um tipo de pensador que está acima até mesmo do filósofo da natureza, porque a natureza é apenas um tipo particular de ser. A discussão dessas verdades, então, caberá a esse pensador, aquele cuja investigação é universal e trata da substância primeira. O estudo da natureza também é um tipo de sabedoria, mas não é o primeiro tipo.
Algumas pessoas que discutem em que condições uma verdade deve ser aceita agem assim por falta de treino em lógica. Elas deveriam já dominar essas coisas antes de chegar a um estudo particular, e não ficar investigando-as enquanto assistem às lições sobre esse estudo.
Está claro, então, que cabe ao filósofo, isto é, a quem estuda a natureza de toda substância, investigar também os princípios do raciocínio. E quem conhece melhor cada tipo de coisa precisa ser capaz de enunciar os princípios mais firmes do seu assunto. Logo, quem tem por assunto as coisas que existem enquanto existem precisa ser capaz de enunciar os princípios mais firmes de todas as coisas. Esse é o filósofo.
O princípio mais firme de todos é aquele a respeito do qual é impossível enganar-se. Um princípio assim precisa ser ao mesmo tempo o mais conhecido de todos (pois as pessoas podem se enganar sobre aquilo que não conhecem) e não ser uma suposição. Pois um princípio que todo aquele que entende qualquer coisa que existe precisa ter não é uma suposição. E aquilo que todo aquele que conhece algo precisa saber, ele já tem que possuir antes de chegar a um estudo particular. Fica claro, então, que um princípio assim é o mais firme de todos.
Qual é esse princípio, vamos agora dizer. Ele é o seguinte: a mesma propriedade não pode, ao mesmo tempo, pertencer e não pertencer à mesma coisa, sob o mesmo aspecto. Devemos pressupor todas as outras qualificações que se possa acrescentar, para nos defendermos de objeções capciosas. Esse, então, é o mais firme de todos os princípios, pois corresponde à definição que demos acima.
De fato, é impossível alguém acreditar que a mesma coisa exista e não exista, como uns pensam que Heráclito dizia. Pois o que uma pessoa afirma com palavras ela não acredita necessariamente. Se é impossível que propriedades contrárias pertençam ao mesmo tempo à mesma coisa (também aqui devemos pressupor as qualificações de sempre), e se uma opinião que contradiz outra é contrária a ela, então é evidente que é impossível a mesma pessoa, ao mesmo tempo, acreditar que a mesma coisa exista e não exista. Quem se enganasse nesse ponto teria opiniões contrárias ao mesmo tempo.
É por essa razão que todos os que apresentam uma demonstração a reduzem a esse princípio como crença última. Pois ele é, por natureza, o ponto de partida até mesmo de todos os outros axiomas.