Metafísica - Livro IV 2

Livro IV (Gama): a ciência do ser enquanto ser e a defesa do princípio de não contradição

Por que uma só ciência estuda o ser: tudo o que é se refere à substância

A palavra "ser" pode ser dita em muitos sentidos, mas tudo o que "é" se relaciona a um único ponto central, a um único tipo definido de coisa. Não se trata de uma simples palavra ambígua que por acaso vale para coisas sem ligação entre si.
Pense na palavra "saudável". Tudo o que é saudável se relaciona com a saúde: uma coisa porque conserva a saúde, outra porque a produz, outra porque é sinal de saúde, outra ainda porque é capaz de tê-la. Do mesmo modo, "médico" se diz em relação à arte médica: uma coisa é chamada médica porque domina essa arte, outra porque é por natureza apta a ela, outra porque é tarefa própria da medicina. E encontraremos outras palavras usadas dessa mesma forma.
Assim também "ser" se diz em muitos sentidos, mas todos remetem a um único ponto de partida. Algumas coisas são ditas "ser" porque são substâncias; outras porque são afecções da substância, isto é, estados ou modificações que ela sofre; outras porque são um processo em direção à substância, ou destruições, ou privações, ou qualidades dela; outras porque produzem ou geram a substância, ou geram coisas relativas a ela; outras, enfim, porque são negações de algum desses casos ou da própria substância. É por isso que dizemos, até mesmo do não ser, que ele "é" não ser.
Ora, assim como existe uma única ciência que trata de todas as coisas saudáveis, o mesmo se aplica aos demais casos. Pois cabe a uma ciência investigar não apenas as coisas que partilham uma noção comum, mas também as que se relacionam a uma única natureza comum, que, num certo sentido, também essas partilham uma noção comum. Fica claro, então, que cabe igualmente a uma ciência estudar as coisas que são, enquanto são, ou seja, estudá-las no que elas têm de ser.
Mas a ciência trata sempre, antes de tudo, daquilo que é primeiro, daquilo de que as outras coisas dependem e em virtude do qual recebem seus nomes. Se esse algo primeiro é a substância, então é dos princípios e das causas das substâncias que o filósofo precisa se apropriar.
Para cada classe de coisas uma única percepção e também uma única ciência. A gramática, por exemplo, sendo uma ciência, investiga todos os sons articulados. Por isso, investigar todas as espécies do ser enquanto ser é tarefa de uma ciência que é una quanto ao gênero, enquanto investigar cada espécie em particular é tarefa das partes específicas dessa ciência.
Considere agora que o ser e o uno são a mesma coisa e uma realidade, no sentido de que um implica o outro, como acontece com princípio e causa. Não é que se expliquem pela mesma definição, embora nem isso faria diferença para o nosso argumento (na verdade, isso até o reforçaria). Pois "um homem" e "homem" são a mesma coisa, assim como "homem existente" e "homem", e dobrar as palavras em "um homem e um homem existente" não exprime nada de diferente. É evidente que esses pares não se separam nem ao surgir nem ao deixar de existir.
Da mesma forma, "um homem existente" não acrescenta nada a "homem existente". É óbvio que esse acréscimo, nesses casos, significa a mesma coisa, e que a unidade não é nada à parte do ser. Além disso, a substância de cada coisa é una de maneira não acidental, isto é, por sua própria natureza, e é também, por essa mesma natureza, algo que é. Sendo tudo isso verdade, deve haver exatamente tantas espécies do ser quantas do uno.
E investigar a essência dessas coisas é tarefa de uma ciência que é una quanto ao gênero. Refiro-me, por exemplo, à discussão sobre o mesmo, o semelhante e os outros conceitos desse tipo. Quase todos os contrários podem ser remetidos a essa mesma origem; vamos supor que os examinamos na obra "Seleção dos Contrários".
E tantas partes da filosofia quantos são os tipos de substância, de modo que entre elas tem de existir necessariamente uma filosofia primeira e outra que vem depois dela. Pois o ser se divide de imediato em gêneros, e por isso também as ciências corresponderão a esses gêneros. O filósofo, nesse ponto, é como o matemático: a matemática também tem partes, e nela uma primeira ciência, uma segunda e outras que se seguem.
Cabe a uma ciência investigar os opostos, e a pluralidade é oposta à unidade. Cabe a uma ciência investigar a negação e a privação, porque em ambos os casos estamos na verdade investigando a mesma coisa única, da qual a negação ou a privação é negação ou privação. Pois ou dizemos simplesmente que algo não está presente, ou que não está presente em certa classe. Neste segundo caso uma diferença a mais do que na simples negação: negar significa apenas a ausência da coisa em questão, ao passo que, na privação, supõe-se também uma natureza de base à qual a privação é atribuída.
Diante de tudo isso, os contrários dos conceitos que nomeamos acima, ou seja, o outro, o dessemelhante, o desigual, e tudo o mais que deriva deles ou da dupla pluralidade e unidade, devem cair sob o domínio da ciência que mencionamos. A contrariedade é um desses conceitos, pois a contrariedade é um tipo de diferença, e a diferença é um tipo de alteridade.
Portanto, que muitos sentidos em que algo se diz "um", esses termos também terão muitos sentidos, mas mesmo assim cabe a uma ciência conhecer todos eles. Um termo pertence a ciências diferentes não quando tem sentidos diferentes, mas quando não tem um significado único e suas definições não podem ser remetidas a um significado central. E como todas as coisas são remetidas àquilo que é primeiro (por exemplo, tudo o que se chama "um" é remetido ao uno primeiro), devemos dizer que o mesmo vale para o idêntico, o outro e os contrários em geral. Assim, depois de distinguir os vários sentidos de cada um, teremos de explicar como cada caso se relaciona com aquilo que nele é primeiro: alguns serão chamados como são por possuírem esse algo primeiro, outros por produzirem-no, outros de outras maneiras semelhantes.
É evidente, então, que cabe a uma ciência dar conta tanto desses conceitos quanto da substância (essa era uma das questões do nosso livro de problemas), e que é função do filósofo poder investigar todas as coisas. Pois, se não é função do filósofo, quem irá perguntar se Sócrates e Sócrates sentado são a mesma coisa, ou se cada coisa tem um contrário, ou o que é a contrariedade, ou quantos sentidos ela tem? E assim por diante com todas as questões desse tipo.
Como esses são modos essenciais da unidade enquanto unidade e do ser enquanto ser, e não da unidade enquanto número, linha ou fogo, fica claro que cabe a esta ciência investigar tanto a essência desses conceitos quanto suas propriedades. E os que estudam essas propriedades erram não por sair do campo da filosofia, mas por esquecer que a substância, da qual não têm ideia correta, é anterior a essas outras coisas.
Pois o número, enquanto número, tem atributos próprios, como ser ímpar ou par, ter ou não ter medida comum, igualdade, excesso e falta; e esses atributos pertencem aos números em si mesmos ou em relação uns aos outros. Da mesma forma, o sólido, o imóvel, o que está em movimento, o sem peso e o que tem peso possuem outras propriedades próprias. Assim também certas propriedades próprias do ser enquanto ser, e é sobre essas que o filósofo deve investigar a verdade.
Eis um indício disso: os dialéticos e os sofistas tomam a mesma aparência do filósofo, pois a sofística é uma sabedoria na aparência, e os dialéticos abarcam todas as coisas em sua dialética, que o ser é comum a tudo. Mas é evidente que a dialética abarca esses assuntos porque eles são próprios da filosofia.
A sofística e a dialética giram em torno da mesma classe de coisas que a filosofia, mas a filosofia se diferencia da dialética pela natureza da capacidade que exige, e da sofística pelo modo de vida que tem em vista. A dialética apenas examina criticamente, ali onde a filosofia pretende conhecer de fato; e a sofística é o que aparenta ser filosofia, mas não é.
Mais uma observação: na lista dos contrários, uma das duas colunas é a privativa, e todos os contrários se reduzem ao ser e ao não ser, à unidade e à pluralidade. O repouso, por exemplo, pertence à unidade, e o movimento, à pluralidade. E quase todos os pensadores concordam que o ser e a substância são compostos de contrários; pelo menos, todos apontam contrários como seus princípios primeiros: uns nomeiam o ímpar e o par, outros o quente e o frio, outros o limite e o ilimitado, outros o amor e a discórdia.
Todos esses contrários também se reduzem, claramente, à unidade e à pluralidade (vamos tomar essa redução como certa), e os princípios apontados pelos outros pensadores caem inteiramente sob esses dois, como sob seus gêneros. Fica óbvio, também por essas considerações, que cabe a uma ciência examinar o ser enquanto ser. Pois todas as coisas ou são contrários, ou são compostas de contrários, e a unidade e a pluralidade são os pontos de partida de todos os contrários.
E esses dois pertencem a uma ciência, quer tenham um único significado, quer não. Provavelmente a verdade é que não têm; mesmo assim, ainda que "um" tenha vários sentidos, os demais sentidos se relacionarão com o sentido primeiro (e o mesmo no caso dos contrários). Isso vale mesmo que o ser ou o uno não seja um universal idêntico em cada caso, nem algo separável dos exemplos particulares (como de fato provavelmente não é): a unidade, em alguns casos, é unidade de referência comum; em outros, é unidade de sucessão em série.
E por essa razão não cabe a quem estuda geometria perguntar o que é a contrariedade, a completude, a unidade, o ser, o mesmo ou o outro; cabe a ele apenas pressupor esses conceitos e raciocinar a partir desse ponto de partida. Fica claro, portanto, que é tarefa de uma única ciência examinar o ser enquanto ser e os atributos que lhe pertencem enquanto ser. Essa mesma ciência examinará não as substâncias, mas também seus atributos, tanto os nomeados quanto os conceitos de "anterior" e "posterior", "gênero" e "espécie", "todo" e "parte", e outros do mesmo tipo.