Ética a Nicômaco - Livro VII 2
Continência e incontinência (akrasia): por que se conhece o certo e mesmo assim se age errado, e a natureza do prazer
Enigmas sobre a falta de autocontrole: a negação de Sócrates e as dificuldades que ela cria
Podemos agora perguntar: como é que alguém que julga corretamente consegue agir sem autocontrole? Que ele aja assim quando tem conhecimento, alguns dizem ser impossível. Seria estranho, pensava Sócrates, que, havendo conhecimento dentro de um homem, alguma outra coisa pudesse dominá-lo e arrastá-lo de um lado para o outro como a um escravo.
Sócrates se opunha por completo a essa ideia. Ele sustentava que não existe isso de falta de autocontrole. Segundo ele, ninguém, quando julga, age contra aquilo que julga ser o melhor: as pessoas só agem assim por ignorância.
Essa visão contradiz claramente os fatos que observamos, e precisamos investigar o que acontece com um homem desses. Se ele age por ignorância, qual é o tipo dessa ignorância? Pois é evidente que quem age sem autocontrole, antes de cair nesse estado, não acha que deveria agir daquele jeito.
Mas há quem aceite alguns dos argumentos de Sócrates e rejeite outros. Admitem que nada é mais forte que o conhecimento, mas não admitem que ninguém aja contra o que lhe pareceu o melhor caminho. Por isso dizem que quem age sem autocontrole, quando é dominado pelos prazeres, não tem conhecimento, e sim mera opinião.
Mas se for opinião e não conhecimento, se o que resiste não for uma convicção forte e sim uma fraca, como nas pessoas que ficam em dúvida, então temos compaixão por elas não conseguirem manter essas convicções diante de desejos fortes. Já com a maldade não temos compaixão, nem com nenhum dos outros estados que merecem censura.
Será então a prudência (a sabedoria prática, o saber agir bem em cada situação) que tem a resistência vencida? Esse é o mais forte de todos os estados. Mas isso é absurdo: a mesma pessoa seria ao mesmo tempo prudente e sem autocontrole, e ninguém diria que cabe ao prudente fazer de bom grado as ações mais vis. Além disso, já se mostrou antes que o prudente é quem de fato age (pois ele lida com os fatos particulares) e quem tem também as outras virtudes.
Outro ponto: se o autocontrole supõe ter desejos fortes e maus, então a pessoa temperante não terá autocontrole, nem a pessoa com autocontrole será temperante. Pois quem é temperante não terá desejos excessivos nem maus.
E quem tem autocontrole precisa tê-los. Pois, se os desejos forem bons, o estado de caráter que nos impede de segui-los é mau, de modo que nem todo autocontrole será bom. Se os desejos forem fracos e não maus, não há nada de admirável em resistir a eles. E se forem fracos e maus, também não há nada de grandioso em resistir a esses.
Outro ponto: se o autocontrole deixa a pessoa pronta a se manter firme em qualquer opinião, ele é mau, ou seja, se a faz manter-se firme até numa opinião falsa. E se a falta de autocontrole leva a pessoa a abandonar qualquer opinião, então haveria uma boa falta de autocontrole. Um exemplo seria o Neoptólemo de Sófocles, na peça Filoctetes. Ele merece elogio por não fazer o que Odisseu o convenceu a fazer, porque sente dor em contar uma mentira.
Outro ponto: o argumento dos sofistas cria uma dificuldade. O raciocínio surge do desejo dessas pessoas de expor resultados absurdos que decorrem da opinião do adversário, para serem admiradas quando conseguem. Esse raciocínio nos deixa em apuros, pois o pensamento fica preso: não consegue descansar, porque a conclusão não o satisfaz, e não consegue avançar, porque não consegue refutar o argumento.
Há um argumento do qual se conclui que a tolice junto com a falta de autocontrole seria virtude. Pois a pessoa faz o oposto do que julga, por falta de autocontrole. Mas, se ela julga que o bem é um mal e algo que não deveria fazer, então acabará fazendo o bem, e não o mal.
Outro ponto: quem, por convicção, faz, busca e escolhe o que é prazeroso pareceria melhor do que quem faz isso não por cálculo, e sim por falta de autocontrole. Pois o primeiro é mais fácil de curar, já que pode ser convencido a mudar de ideia.
Já a quem não tem autocontrole cabe o provérbio: quando a água sufoca, com o que se vai engoli-la? Se ele tivesse sido convencido de que está certo no que faz, teria parado quando fosse convencido a mudar de ideia. Mas, do jeito que está, ele age mesmo estando convencido de algo bem diferente.
Outro ponto: se a falta de autocontrole e o autocontrole dizem respeito a todo e qualquer tipo de objeto, quem é a pessoa sem autocontrole no sentido pleno? Ninguém tem todas as formas de falta de autocontrole, mas dizemos que algumas pessoas não têm autocontrole sem mais qualificação.