Apologia de Sócrates 8

A defesa de Sócrates diante do tribunal de Atenas (399 a.C.), registrada por Platão: a acusação de impiedade, a missão de examinar a vida e a recusa em temer a morte

Disso vou dar provas convincentes, não com palavras, mas com aquilo que vocês mais valorizam: fatos. Ouçam o que me aconteceu, para verem que eu jamais cederia à injustiça por medo da morte, e que, por não ceder, morreria na hora. Vou contar coisas comuns de tribunal, talvez sem graça, mas verdadeiras.
O único cargo público que ocupei, atenienses, foi o de conselheiro. A minha tribo, a Antióquida, presidia o tribunal no dia em que vocês quiseram julgar em bloco os generais que não recolheram os corpos dos mortos depois da batalha de Arginusas, o que era contra a lei, como todos vocês reconheceram depois. Naquele momento, fui o único dos presidentes a me opor a fazer algo ilegal, e votei contra vocês. Quando os oradores ameaçaram me denunciar e prender, e vocês gritavam e os incentivavam, resolvi correr o risco ao lado da lei e da justiça, em vez de tomar parte na injustiça de vocês por medo da prisão e da morte.
Isso foi no tempo da democracia. Mas, quando chegou ao poder a oligarquia dos Trinta, eles mandaram me chamar, junto com outros quatro, à câmara central, e ordenaram que trouxéssemos de Salamina Leão, o salamínio, para ser executado. Davam ordens desse tipo a muita gente, querendo envolver o maior número possível nos seus crimes. Naquela hora, mais uma vez, mostrei não com palavras, mas com fatos, que pouco me importava com a morte, se não soa muito grosseiro dizer assim, mas que a minha única e grande preocupação era não cometer nenhuma injustiça nem impiedade.
Aquele governo, por mais forte que fosse, não me intimidou a ponto de me fazer agir mal. Quando saímos da câmara, os outros quatro foram a Salamina e trouxeram Leão, mas eu fui quietamente para casa. Por isso eu poderia ter perdido a vida, se aquele governo não tivesse logo chegado ao fim. E muitos podem testemunhar isso.
Acham então que eu teria sobrevivido todos estes anos se levasse uma vida pública e, como bom homem, sempre defendesse o que é justo, pondo isso, como devia, acima de tudo? De jeito nenhum, atenienses, nem eu nem qualquer outro homem. Mas eu fui sempre o mesmo em tudo o que fiz, na vida pública e na privada, e jamais cedi em nada contra a justiça a ninguém, nem a esses que, caluniando-me, dizem ser meus discípulos.
Nunca fui mestre de ninguém. Mas, se alguém quer me ouvir falar e fazer o meu trabalho, jovem ou velho, não impeço ninguém. E não converso com quem paga. Ofereço-me igualmente a ricos e pobres, para que perguntem e me respondam e ouçam o que digo. E se algum deles se torna bom ou mau, não é justo que se ponha a culpa em mim, pois nunca prometi nem ensinei coisa alguma a ninguém. Se alguém diz que aprendeu ou ouviu de mim em particular algo que todos os outros não ouviram, fiquem sabendo que ele mente.
Mas vão me perguntar: por que algumas pessoas gostam de passar tanto tempo comigo? lhes disse toda a verdade, atenienses: gostam de ouvir o exame dos que se fazem de sábios sem ser. graça nisso. E esse dever de examinar os outros me foi imposto pelo deus, por oráculos, por sonhos e por todo modo pelo qual a vontade divina alguma vez ordenou algo a alguém.
Isso, atenienses, é verdade e fácil de comprovar. Pois, se de fato corrompo ou corrompi alguns jovens, seria de esperar que aqueles que, adultos, percebessem que dei a eles maus conselhos na juventude, viessem agora me acusar e se vingar. Ou, se não quisessem vir eles mesmos, que algum dos seus parentes, pais, irmãos ou outros, dissesse que mal as suas famílias sofreram por minha causa.
Muitos deles eu vejo aqui no tribunal. Está Críton, da minha idade e do meu bairro, pai de Critóbulo, que também vejo. Está Lisânias de Esfeto, pai de Ésquines, presente. Está Antifonte de Cefiso, pai de Epígenes. E estão os irmãos de vários que conviveram comigo: Nicóstrato, filho de Teozótides, irmão de Teódoto, e Teódoto morreu, então não viria pedir ao irmão para me poupar. E Páralo, filho de Demódoco, que tinha um irmão, Teages. E Adimanto, filho de Áriston, cujo irmão Platão está presente. E Eantodoro, irmão de Apolodoro, que também vejo.
E muitos outros eu poderia mencionar, algum dos quais Meleto deveria ter trazido como testemunha no seu discurso. Se esqueceu, que os traga agora, eu cedo a vez, e que diga, se tiver alguma prova desse tipo. Mas vão descobrir o contrário, atenienses: todos eles estão prontos a defender a mim, o tal corruptor, o que faz mal aos seus parentes, como dizem Meleto e Anito.
Os jovens corrompidos talvez tivessem motivo para me defender, mas os parentes deles, que não foram corrompidos, homens de mais idade, que outro motivo teriam para me defender senão o motivo justo e correto: que sabem que Meleto mente e que eu digo a verdade?