Apologia de Sócrates 9
A defesa de Sócrates diante do tribunal de Atenas (399 a.C.), registrada por Platão: a acusação de impiedade, a missão de examinar a vida e a recusa em temer a morte
Pois bem, atenienses, isto e coisas parecidas é tudo o que tenho a dizer em minha defesa. Ainda mais uma palavra. Talvez alguém se ofenda comigo ao lembrar como ele mesmo, num julgamento igual ou até menos grave, suplicou e implorou aos juízes com muitas lágrimas, trazendo os filhos ao tribunal, num espetáculo comovente, junto com vários parentes e amigos, enquanto eu, que talvez corra perigo de vida, não vou fazer nada disso.
Talvez esse contraste lhe ocorra, e ele se irrite comigo e vote com raiva por estar aborrecido por isso. Se há entre vocês alguém assim, e não digo que haja, a esse posso responder com justiça: meu amigo, eu sou um homem, e, como os outros homens, sou feito de carne e osso, e não de pau ou pedra, como diz Homero. Tenho família, sim, e filhos, atenienses, três deles, um já quase homem e dois ainda crianças. E, no entanto, não vou trazer nenhum deles aqui para implorar a vocês a minha absolvição.
E por que não? Não por arrogância nem por falta de respeito a vocês. Se temo ou não a morte, é outra questão, da qual não vou falar agora. Mas, por causa da opinião pública, sinto que tal conduta seria vergonhosa para mim, para vocês e para toda a cidade. Quem chegou à minha idade e tem fama de sábio não deve se rebaixar assim. Mereça eu ou não essa fama, o certo é que a opinião geral decidiu que Sócrates é, de algum modo, superior aos outros homens.
Se aqueles entre vocês que têm fama de superiores em sabedoria, coragem ou qualquer outra virtude se rebaixam dessa forma, que vergonha seria a conduta deles. Já vi homens de reputação, depois de condenados, se comportarem do modo mais estranho, como se achassem que iam sofrer algo terrível ao morrer, e que seriam imortais se vocês os deixassem viver. Acho que esses são uma desonra para a cidade, e qualquer estrangeiro que chegasse diria que os homens mais notáveis de Atenas, a quem os próprios atenienses dão honras e cargos, não são melhores que mulheres.
Isso, atenienses, nem vocês que têm alguma reputação devem fazer, nem, se nós o fizermos, vocês devem permitir. Devem, ao contrário, mostrar que estão muito mais dispostos a condenar quem encena essas cenas tristes e faz a cidade de ridícula do que quem fica calmo.
Mas, deixando de lado a questão da opinião pública, também me parece errado pedir um favor ao juiz e assim conseguir a absolvição, em vez de instruí-lo e convencê-lo. Pois o dever do juiz não é fazer da justiça um presente, mas julgar. Ele jurou que julgaria conforme as leis, e não conforme o seu próprio agrado. Não devemos acostumar vocês a perjurar, nem vocês devem se acostumar a isso, pois nem uns nem outros agiríamos com piedade.
Não me peçam, então, atenienses, que eu faça diante de vocês coisas que considero indignas, ímpias e injustas, ainda mais quando estou sendo julgado justamente por impiedade, por acusação de Meleto. Pois, se eu vencesse os juramentos de vocês pela força da persuasão e da súplica, estaria ensinando vocês a não acreditar nos deuses e, ao me defender, estaria na verdade me acusando de não acreditar neles.
Mas não é nada disso. Pois eu acredito que há deuses, atenienses, e num sentido mais elevado do que nenhum dos meus acusadores acredita. E a vocês e ao deus eu confio a minha causa, para que seja decidida da forma que for melhor para mim e para vocês.