Apologia de Sócrates 7

A defesa de Sócrates diante do tribunal de Atenas (399 a.C.), registrada por Platão: a acusação de impiedade, a missão de examinar a vida e a recusa em temer a morte

Não me interrompam, atenienses, e ouçam-me, pois ficou combinado que vocês me ouviriam até o fim. Tenho mais a dizer, e talvez vocês queiram gritar, mas creio que ouvir vai ser bom para vocês. Saibam que, se matarem um homem como eu, vão prejudicar a si mesmos mais do que a mim. A mim nada pode prejudicar, nem Meleto nem Anito. Eles não podem, pois não é permitido que um homem melhor seja prejudicado por um pior.
Talvez Anito possa me matar, me exilar ou me tirar os direitos de cidadão, e ele pode achar, e outros também, que com isso me causa um grande mal. Mas nisso eu não concordo. Bem maior é o mal que ele faz agora, ao tentar matar um homem injustamente. Agora, atenienses, estou longe de me defender por mim mesmo, como talvez se pense, mas por vocês, para que não cometam um erro contra a dádiva que o deus lhes deu, condenando a mim.
Pois, se me matarem, não vão achar facilmente outro como eu, que, se posso usar uma comparação um tanto cômica, fui colocado junto à cidade pelo deus como um moscardo junto a um cavalo grande e nobre, que, por causa do próprio tamanho, é meio lento e precisa ser despertado. Parece-me que o deus me colocou junto à cidade para ser algo assim: para despertar, persuadir e repreender cada um de vocês, sem parar, o dia inteiro, por toda parte.
Não vai ser fácil para vocês arranjar outro como eu, atenienses. Por isso, se me ouvirem, vão me poupar. Mas talvez vocês, irritados como quem é acordado de repente do sono, me dêem um golpe e, dando ouvidos a Anito, me matem com facilidade. então passariam o resto da vida dormindo, a não ser que o deus, no seu cuidado por vocês, lhes enviasse outro moscardo.
De que fui dado a vocês pelo deus, eis a prova: se eu fosse como os outros homens, não teria descuidado de todos os meus negócios, nem suportado o abandono das minhas coisas por tantos anos, para sempre cuidar dos assuntos de vocês, indo a cada um em particular, como um pai ou um irmão mais velho, exortando vocês a cuidar da virtude. Tal conduta não seria própria da natureza humana.
Se eu tivesse ganho algo com isso, ou recebido pagamento pelas minhas exortações, ainda haveria algum sentido. Mas, como vocês mesmos veem, nem a ousadia dos meus acusadores se atreve a dizer que algum dia eu cobrei ou pedi pagamento de alguém. Disso eles não têm testemunha. E eu tenho uma testemunha suficiente da verdade do que digo: a minha pobreza.
Talvez alguém se admire por que ando por em particular dando conselhos e me metendo nos assuntos dos outros, mas não me atrevo a subir à tribuna e aconselhar a cidade em público. Vou dizer por quê. Vocês me ouviram falar, em várias ocasiões e lugares, de uma voz divina que me vem, e que é justamente a divindade de que Meleto zomba na denúncia.
Esse sinal, que é uma espécie de voz, começou a me vir desde criança. Ela sempre me proíbe, mas nunca me ordena fazer algo que eu fazer. É isso que me impede de entrar para a política. E me parece muito bem que ela me impeça. Pois saibam, atenienses, que, se eu tivesse entrado na política, teria morrido muito tempo, sem trazer nenhum benefício nem a vocês nem a mim.
E não fiquem irritados comigo por eu dizer a verdade: ninguém que se oponha honestamente a vocês ou a qualquer multidão, tentando impedir as muitas injustiças e ilegalidades que se cometem numa cidade, vai salvar a vida. Quem luta de verdade pelo que é justo, se quiser viver ao menos por um breve tempo, precisa ficar na vida privada, e não na pública.