Apologia de Sócrates 6
A defesa de Sócrates diante do tribunal de Atenas (399 a.C.), registrada por Platão: a acusação de impiedade, a missão de examinar a vida e a recusa em temer a morte
Quanto à acusação de Meleto, já disse o bastante. Não preciso de uma defesa elaborada. Mas sei bem quantas inimizades acumulei, e é isso que vai me destruir, se eu for destruído: não Meleto nem Anito, mas a inveja e a difamação da multidão, que já foi a morte de muitos homens bons e provavelmente ainda será de muitos outros. Não há perigo de eu ser o último deles.
Talvez alguém diga: e você não se envergonha, Sócrates, de ter levado uma vida que agora te traz a um fim prematuro? A esse posso responder com justiça: você se engana. Um homem que vale alguma coisa não deve ficar calculando as chances de viver ou morrer. Deve apenas considerar, ao agir, se faz o certo ou o errado, se age como homem bom ou mau.
Pelo seu raciocínio, os heróis que morreram em Troia teriam valido pouco, e acima de todos o filho de Tétis, que tanto desprezou o perigo diante da desonra. Quando ele estava ansioso para matar Heitor, a mãe, que era deusa, lhe disse mais ou menos isto: meu filho, se vingar a morte do seu amigo Pátroclo e matar Heitor, você também vai morrer, pois logo após Heitor está pronto o seu destino. Ele, ao ouvir isso, desprezou a morte e o perigo. Temendo muito mais viver na desonra sem vingar o amigo, respondeu: que eu morra já, depois de punir quem fez o mal, em vez de ficar aqui junto dos navios, motivo de riso e peso inútil da terra. Acha que ele se importou com a morte e o perigo?
Pois é assim, atenienses, na verdade: onde quer que um homem se coloque, julgando ser o melhor lugar, ou seja colocado por um comandante, ali ele deve permanecer na hora do perigo, sem dar importância à morte nem a nada, apenas à desonra. Seria estranho da minha parte, atenienses, eu que permaneci onde fui colocado, enfrentando a morte como qualquer outro, quando os generais que vocês escolheram me deram ordens em Potideia, Anfípolis e Délio, e agora, quando o deus me ordena, segundo creio e imagino, cumprir a missão do filósofo de examinar a mim mesmo e aos outros, eu abandonar o meu posto por medo da morte ou de qualquer outra coisa.
Isso é que seria estranho, e então sim eu poderia ser levado a julgamento por não acreditar nos deuses, por desobedecer ao oráculo, por temer a morte e por me achar sábio sem ser. Pois temer a morte, atenienses, é apenas se julgar sábio sem ser, é achar que se sabe o que não se sabe. Ninguém sabe se a morte não é, por acaso, o maior dos bens para o ser humano, e mesmo assim a temem como se soubessem com certeza que é o maior dos males. E não é essa a ignorância mais vergonhosa, a de achar que se sabe o que não se sabe?
Nisso, atenienses, talvez eu me diferencie da maioria, e, se em algo posso me dizer mais sábio, é nisto: como não sei o suficiente sobre o que há no Hades, também não acho que sei. Mas sei que praticar a injustiça e desobedecer a quem é melhor, seja deus ou homem, é mau e vergonhoso. Por isso, diante de males que sei serem males, nunca vou temer ou fugir do que talvez seja um bem.
Então, mesmo que vocês me soltassem agora, sem dar ouvidos a Anito, que disse que eu nunca deveria ter sido processado, ou que, uma vez processado, era preciso me condenar à morte, alegando que, se eu escapasse, os filhos de vocês seriam todos arruinados seguindo os meus ensinamentos, e se me dissessem: Sócrates, desta vez não vamos ouvir Anito e vamos te soltar, com uma condição, que você pare de investigar e filosofar, e que, se for pego fazendo isso de novo, vai morrer.
Se vocês me soltassem com essa condição, eu responderia: atenienses, eu os honro e os amo, mas vou obedecer ao deus antes que a vocês, e, enquanto eu tiver vida e forças, jamais vou deixar de filosofar, de exortar e de mostrar a verdade a cada um de vocês que eu encontrar, dizendo do meu jeito de sempre: meu amigo, você que é cidadão de Atenas, a maior e mais célebre cidade pela sabedoria e pela força, não tem vergonha de se preocupar em acumular o máximo de dinheiro, fama e honra, e de se importar tão pouco com a sabedoria, a verdade e o aperfeiçoamento da alma, com o qual você nem se incomoda?
E se alguém com quem eu converso disser que se importa, não vou logo deixá-lo ir. Vou interrogá-lo, examiná-lo e refutá-lo. E se me parecer que ele não tem virtude, mas só diz que tem, vou repreendê-lo por dar pouco valor ao que é mais importante e muito valor ao que é menor. Vou repetir isso a todos que encontrar, jovens e velhos, estrangeiros e cidadãos, mas principalmente aos cidadãos, por serem mais próximos de mim. Pois saibam que é isso que o deus me ordena.
E creio que nenhum bem maior aconteceu a esta cidade do que o meu serviço ao deus. Pois não faço outra coisa senão andar por aí convencendo vocês, jovens e velhos, a não se preocupar primeiro com o corpo e o dinheiro, mas, antes de tudo, com o maior aperfeiçoamento da alma. Eu digo que não é do dinheiro que vem a virtude, mas é da virtude que vêm o dinheiro e todos os outros bens do homem, tanto na vida pública quanto na privada.
Se é esse o ensino que corrompe a juventude, então sou nocivo. Mas, se alguém disser que esse não é o meu ensino, está mentindo. Por isso, atenienses, digo a vocês: façam ou não o que Anito manda, absolvam ou não, mas saibam que, faça o que fizerem, eu jamais vou mudar de conduta, nem que eu tivesse de morrer muitas vezes.