Apologia de Sócrates 12

A defesa de Sócrates diante do tribunal de Atenas (399 a.C.), registrada por Platão: a acusação de impiedade, a missão de examinar a vida e a recusa em temer a morte

Depois disso, quero fazer uma profecia a vocês que me condenaram, pois estou prestes a morrer, e é justamente nesse momento que as pessoas têm o dom de profetizar. Profetizo a vocês, meus assassinos: logo depois da minha morte virá sobre vocês um castigo muito mais pesado do que esta morte que me deram.
Vocês fizeram isto achando que iam se livrar de prestar contas da própria vida, mas vai acontecer o contrário. Haverá mais gente para questionar vocês do que agora, gente que eu até aqui vinha segurando. E por serem mais jovens, serão mais duros com vocês, e vocês ficarão ainda mais irritados.
Se vocês pensam que, matando pessoas, vão impedir alguém de censurar a vida errada que levam, estão enganados. Esse modo de se livrar não é possível nem honroso. O mais fácil e o mais nobre não é calar os outros, mas se esforçar para ser a melhor pessoa possível. Com esta profecia aos que me condenaram, eu me retiro.
Mas com os que votaram pela minha absolvição eu gostaria de conversar sobre o que acaba de acontecer, enquanto os magistrados estão ocupados e antes de eu seguir para o lugar onde devo morrer. Fiquem comigo esse tempo, amigos, pois nada impede que a gente converse enquanto é possível.
A vocês, como amigos, quero mostrar o que significa o que me aconteceu hoje. Algo admirável se deu comigo, juízes, e a vocês posso de fato chamar de juízes. Aquela voz divina que sempre me adverte, e que costumava se opor a mim a toda hora, mesmo em coisas pequenas, sempre que eu ia fazer algo errado, agora não se opôs em nada.
Caiu sobre mim o que qualquer um consideraria, e em geral se considera, o pior dos males. Mas o sinal divino não se opôs a mim quando saí de casa de manhã, nem quando subi ao tribunal, nem em momento nenhum do meu discurso, fosse o que fosse que eu ia dizer. Em outras conversas ele muitas vezes me interrompia no meio da fala, mas hoje, em nada do que fiz ou disse sobre este caso, ele se opôs.
Qual a explicação que dou para esse silêncio? Vou contar a vocês. É um indício de que o que me aconteceu é um bem, e que estamos enganados, todos nós que achamos que a morte é um mal. Tenho uma grande prova disso: de jeito nenhum o sinal de costume teria deixado de se opor a mim, se eu estivesse indo para algo ruim e não para algo bom.
Vamos pensar de outra maneira, e veremos que boa razão para esperar que a morte seja um bem. A morte é uma de duas coisas: ou é como não ser nada, sem nenhuma sensação de coisa alguma, ou, como dizem, é uma mudança e mudança de morada da alma deste mundo para outro lugar.
Se não sensação nenhuma, e a morte é como um sono em que quem dorme não tem nem um sonho, então morrer seria um ganho admirável. Imagine alguém escolhendo a noite em que dormiu tão profundamente que nem sonhou, e comparando essa noite com todas as outras noites e dias da própria vida; depois pense quantos dias e noites teria vivido melhor e mais agradavelmente do que aquela noite.
Acho que qualquer pessoa, e não um cidadão comum, mas até o grande rei da Pérsia, acharia fáceis de contar essas noites diante de todas as outras. Se a morte é assim, eu digo que ela é um ganho, pois então o tempo inteiro não parece ser mais do que uma única noite.
Mas se a morte é como uma viagem daqui para outro lugar, e é verdade o que dizem, que estão todos os mortos, que bem maior poderia haver do que esse, meus amigos e juízes?
Se quem chega ao Hades, livre desses que se dizem juízes aqui, encontra os verdadeiros juízes, que dizem julgar naquele lugar, Minos, Radamanto, Éaco e Triptólemo, e todos os outros semideuses que foram justos na própria vida, será que essa viagem seria ruim? E por quanto vocês não dariam para conviver com Orfeu, Museu, Hesíodo e Homero? Por mim, se isso for verdade, eu aceitaria morrer muitas vezes.
Para mim mesmo seria um convívio admirável estar lá, encontrando Palamedes, Ájax filho de Télamon e qualquer outro dos antigos que morreu por um julgamento injusto, e comparar as minhas próprias dores com as deles. Acho que não seria nada desagradável. E o melhor de tudo: examinar e investigar a gente de lá, como fazia com a daqui, descobrindo quem é sábio e quem acha que é, mas não é.
Quanto não daria a pessoa, juízes, para examinar aquele que levou o grande exército contra Troia, ou Odisseu, ou Sísifo, ou os incontáveis outros que se poderia citar, homens e mulheres? Conversar com eles lá, conviver e examiná-los seria uma felicidade sem fim. Com certeza eles não matam ninguém por causa disso, pois, além de serem mais felizes que nós, são também imortais para sempre, se é verdade o que se diz.