Apologia de Sócrates 11

A defesa de Sócrates diante do tribunal de Atenas (399 a.C.), registrada por Platão: a acusação de impiedade, a missão de examinar a vida e a recusa em temer a morte

Depois da sentença de morte: o adeus de Sócrates

Vocês não ganharam muito tempo, atenienses, e em troca vão carregar a fama dada pelos que querem difamar a cidade, pois eles dirão que vocês mataram Sócrates, um homem sábio. Vão me chamar de sábio, mesmo eu não sendo, para lançar a culpa sobre vocês.
Se tivessem esperado um pouco, o que desejam teria acontecido por conta própria. Vocês veem que estou bem avançado em idade, perto da morte. Digo isto não a todos vocês, mas apenas aos que votaram pela minha morte.
E a esses mesmos quero dizer ainda outra coisa. Talvez vocês pensem que fui condenado por me faltarem palavras capazes de convencê-los, como se eu não tivesse usado todos os recursos para escapar da pena. Mas não é assim.
Fui condenado por uma falta, sim, mas não de palavras: faltou-me a ousadia, a falta de vergonha e a disposição de falar com vocês do jeito que mais gostariam de ouvir, chorando, lamentando, dizendo e fazendo muitas coisas que considero indignas de mim, mas que vocês estão acostumados a ouvir dos outros.
Nem antes achei que devia fazer algo servil por medo do perigo, nem agora me arrependo de ter me defendido assim. Prefiro muito mais morrer depois de uma defesa como esta do que viver depois de uma defesa como aquela.
Nem num julgamento nem numa guerra eu ou qualquer outro deve usar todo e qualquer meio para fugir da morte. Nas batalhas, muitas vezes fica claro que alguém pode escapar da morte largando as armas e se ajoelhando diante dos perseguidores. Em cada perigo mil outros recursos para evitar a morte, se a pessoa estiver disposta a dizer e fazer qualquer coisa.
O difícil, meus amigos, não é escapar da morte, mas escapar da maldade, pois ela corre mais rápido que a morte. Agora, sendo eu velho e lento, fui alcançado pelo mais lento, a morte; e meus acusadores, sendo hábeis e ligeiros, foram alcançados pelo mais rápido, a maldade.
Eu saio daqui condenado por vocês à pena de morte, e eles saem condenados pela verdade à pena da torpeza e da injustiça. Eu fico com a minha sentença, e eles com a deles. Talvez as coisas tivessem mesmo de ser assim, e acho que está bem.