Imitação de Cristo - Livro III 51
Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo
Que o homem não se julgue digno de consolação, mas antes digno de açoites
Senhor, não sou digno da vossa consolação, nem de qualquer visitação espiritual; e por isso justamente agis comigo quando me deixais pobre e desolado. Pois, ainda que eu pudesse derramar lágrimas como o mar, mesmo assim não seria digno da vossa consolação. Por isso de nada sou digno senão de ser açoitado e punido, porque gravemente e muitas vezes Vos ofendi, e em muitas coisas gravemente pequei. Portanto, pesada a verdadeira razão, não sou digno nem da mínima consolação. Mas Vós, clemente e misericordioso, porque não quereis que pereçam as vossas obras, para mostrar as riquezas da vossa bondade nos vasos da vossa misericórdia, mesmo sem mérito algum meu, vos dignais consolar o vosso servo acima do modo humano. Pois as vossas consolações não são como as conversas humanas.
Que fiz eu, Senhor, para que me concedêsseis alguma consolação celeste? Não me recordo de haver feito coisa boa alguma, mas de ter sido sempre inclinado aos vícios e preguiçoso para a emenda. É verdade, e não posso negá-lo; se eu dissesse o contrário, Vós estaríeis contra mim, e não haveria quem me defendesse. Que mereci eu por meus pecados, senão o inferno e o fogo eterno? Na verdade confesso que sou digno de toda zombaria e desprezo; nem me convém habitar entre os vossos devotos. E ainda que isto me seja penoso ouvir, contudo, em favor da verdade, acusarei contra mim mesmo os meus pecados, para mais facilmente alcançar a vossa misericórdia.
Que direi eu, réu e cheio de toda confusão? Não tenho boca para falar, senão somente esta palavra: Pequei, Senhor, pequei; tende piedade de mim, perdoai-me. Deixai-me um pouco, para que chore a minha dor, antes que vá para a terra tenebrosa e coberta pela escuridão da morte. Que exigis Vós principalmente do réu e mísero pecador, senão que se contrição e se humilhe por seus delitos? Na verdadeira contrição e humilhação do coração nasce a esperança do perdão, reconcilia-se a consciência perturbada, recupera-se a graça perdida, é o homem defendido da ira futura, e encontram-se mutuamente em santo ósculo Deus e a alma penitente.
A humilde contrição dos pecadores é, Senhor, sacrifício aceitável para Vós, de odor muito mais suave em vossa presença do que o incenso queimado. Este é também o agradável ungüento que quisestes derramado sobre os vossos sagrados pés, porque nunca desprezastes o coração contrito e humilhado. Ali está o lugar de refúgio diante da face da ira do inimigo; ali se emenda e se lava tudo o que de outra parte se contraiu de imundo.