Imitação de Cristo - Livro III 42

Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo

Contra a ciência vã e mundana

Filho, não te comovam as palavras belas e sutis dos homens, pois o reino de Deus não está no falar, mas na virtude. Atenta para as minhas palavras, que inflamam os corações e iluminam as mentes, induzem à compunção e infundem variada consolação. Nunca leias a palavra para que possas parecer mais douto ou mais sábio; mas empenha-te na mortificação dos vícios, porque isto te aproveitará mais do que o conhecimento de muitas questões difíceis.
Quando tiveres lido e conhecido muitas coisas, importa que venhas a um princípio. Eu sou quem ensina ao homem a ciência e concedo aos pequeninos uma inteligência mais clara do que aquela que pode ser ensinada pelos homens. Aquele a quem eu falar, logo será sábio e muito aproveitará no espírito. Ai daqueles que indagam dos homens muitas coisas curiosas e pouco se importam com o caminho de me servir. Virá o tempo em que aparecerá o Mestre dos mestres, Cristo, Senhor dos Anjos, para ouvir as lições de todos e examinar a consciência de cada um; e então perscrutará Jerusalém com lâmpadas, e se manifestarão as coisas ocultas das trevas, e se calarão os argumentos das línguas.
Eu sou quem num instante eleva a mente humilde, para que apreenda mais razões da verdade eterna do que se tivesse estudado dez anos nas escolas. Eu ensino sem ruído de palavras, sem confusão de opiniões, sem fausto de honra, sem combate de argumentos. Eu sou quem ensina a desprezar as coisas terrenas, a enfastiar-se das presentes, a buscar as eternas, a saborear as eternas, a fugir das honras, a suportar os escândalos, a pôr em mim toda a esperança, a nada desejar fora de mim, e, acima de todas as coisas, a amar-me ardentemente.
Pois um certo homem, amando-me intimamente, aprendeu as coisas divinas e falava maravilhas. Mais aproveitou em abandonar todas as coisas do que em estudar as sutilezas. Mas a uns falo coisas comuns, a outros coisas especiais; a alguns apareço docemente em sinais e figuras; a outros, porém, na luz, revelo muitos mistérios. Uma é a voz dos livros, mas não a todos instrui igualmente, porque dentro deles sou eu o mestre da verdade, o perscrutador do coração, o que entende os pensamentos, o promotor das ações, distribuindo a cada um conforme eu julgar digno.