Imitação de Cristo - Livro III 41
Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo
Que não se deve pôr a paz nos homens
Filho, se pões a tua paz em alguma pessoa por causa da tua afinidade de sentimento ou do teu convívio, serás instável e inquieto. Mas se recorres à verdade que sempre vive e permanece, não te entristecerá o amigo que se afasta ou que morre. Em mim deve firmar-se o amor do amigo, e por causa de mim deve ser amado todo aquele que te pareceu bom e muito querido nesta vida. Sem mim não vale nem perdura a amizade, nem é verdadeiro e puro o amor que eu não uno. De tal modo deves estar morto a tais afeições dos homens amados, que, no que de ti depende, desejes estar sem companhia humana. Tanto mais o homem se aproxima de Deus, quanto mais longe se afasta de todo consolo terreno. Tanto mais alto também sobe a Deus, quanto mais profundamente desce em si mesmo, e mais vil se torna a seus próprios olhos.
Aquele, porém, que atribui a si algum bem, impede que a graça de Deus se encontre nele, porque a graça do Espírito Santo busca sempre o coração humilde. Se soubesses aniquilar-te perfeitamente e esvaziar-te de todo amor criado, então eu deveria derramar-me em ti com grande graça. Quando tu olhas para as criaturas, é-te subtraída a visão do Criador. Aprende a vencer-te a ti mesmo em todas as coisas por causa do Criador: então poderás chegar ao conhecimento divino. Por menor que seja algo, se é amado e olhado de modo desordenado, retarda-te do sumo bem e te corrompe.