Imitação de Cristo - Livro III 39
Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo
Que o homem nada tem de bom de si mesmo e de nada deve gloriar-se
Senhor, que é o homem para que Vos lembreis dele, ou o filho do homem para que o visiteis? Que mereceu o homem para que lhe désseis a vossa graça? Senhor, de que posso queixar-me, se me abandonais? Ou que posso justamente alegar, se não fizerdes aquilo que peço? Certamente, em verdade, posso pensar isto e dizer: Senhor, nada sou; nada de bom tenho de mim mesmo, mas em tudo falho, e para o nada sempre tendo. E, se não for ajudado por Vós e interiormente formado, torno-me todo tíbio e dissoluto.
Vós, porém, Senhor, sois sempre o mesmo, e permaneceis eternamente: sempre bom e justo e santo; fazendo todas as coisas bem, justa e santamente, e dispondo-as com sabedoria. Mas eu, que sou mais propenso ao defeito do que ao progresso, não permaneço sempre num mesmo estado, porque sete tempos mudam sobre mim. Contudo, depressa fica melhor, quando Vos aprouver e estenderdes a mão que ajuda: porque só Vós, sem auxílio humano, podeis socorrer e de tal modo fortalecer, que o meu rosto não se mude mais em coisas diversas, mas em Vós, o único, se converta e descanse o meu coração.
Por isso, se eu bem soubesse rejeitar toda consolação humana, seja para alcançar a devoção, seja por causa da necessidade que me compele a buscar-Vos, porque não há homem que me console: então, com razão, poderia esperar na vossa graça, e exultar pelo dom de uma nova consolação.
Graças Vos dou, donde tudo vem, sempre que algo me sucede bem. Eu, porém, sou vaidade e nada diante de Vós, homem inconstante e enfermo. De que posso gloriar-me? Ou por que desejo ser estimado? Acaso do nada? E isso é vaníssimo. Verdadeiramente, a glória vã é peste má, vaidade máxima, porque afasta da verdadeira glória e despoja da graça celeste. Pois, enquanto o homem se compraz em si mesmo, desagrada-Vos; enquanto cobiça os louvores humanos, fica privado das verdadeiras virtudes.
Mas a verdadeira glória e a santa exultação consistem em gloriar-se em Vós e não em si, alegrar-se no vosso nome, não na própria virtude, nem deleitar-se em criatura alguma senão por causa de Vós. Seja louvado o vosso nome, não o meu; seja engrandecida a vossa obra, não a minha; seja bendito o vosso santo nome, não o meu; nada, porém, me seja atribuído dos louvores dos homens. Vós sois a minha glória, Vós a exultação do meu coração. Em Vós me gloriarei e exultarei todo o dia; por mim, porém, em nada, senão nas minhas fraquezas.
Busquem os judeus a glória que vem uns dos outros: eu buscarei aquela que vem só de Deus. Toda glória humana, todo honor temporal, toda altura mundana, comparada à vossa glória eterna, é vaidade e estultície. Ó minha verdade e minha misericórdia, Deus meu, Trindade bem-aventurada: a Vós só o louvor, a virtude, a honra e a glória pelos infinitos séculos dos séculos.