Imitação de Cristo - Livro III 35
Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo
Contra os vãos juízos dos homens
Filho, lança o teu coração firmemente no Senhor, e não temas o juízo humano, ali onde a consciência te declara piedoso e inocente. Bom é e bem-aventurado padecer assim, e isto não será penoso para o coração humilde, que mais confia em Deus do que em si mesmo. Muitos dizem muitas coisas, e por isso pouco crédito se lhes deve dar. Mas também não é possível satisfazer a todos. E ainda que Paulo se esforçasse por agradar a todos no Senhor, e a todos se fizesse tudo, contudo teve por coisa mínima ser julgado pelo juízo humano.
Trabalhou bastante pela edificação e salvação dos outros, quanto estava em seu poder e podia; mas não pôde impedir que às vezes fosse julgado ou desprezado por outros. Por isso entregou tudo a Deus, que tudo conhecia, e com paciência e humildade se defendeu contra as bocas dos que falavam coisas iníquas, e também contra os que pensavam coisas vãs e mundanas, e contra os que se gloriavam de tudo a seu bel-prazer. Respondia, contudo, algumas vezes, para que, por causa do seu silêncio, não se gerasse escândalo nos fracos.
Quem és tu, para que temas a um homem mortal? Hoje existe, e amanhã não aparece. Teme a Deus, e não te apavorarás com os terrores dos homens. Que pode alguém contra ti? Com palavras ou injúrias prejudica antes a si mesmo do que a ti, nem poderá escapar ao juízo de Deus, quem quer que seja. Tu tem a Deus diante dos olhos, e não contendas com palavras de queixume. E se por ora pareces sucumbir e sofrer uma confusão que não mereceste, não te indignes por isso, nem por impaciência diminuas a tua coroa. Mas antes olha para mim no céu, eu que sou poderoso para livrar-te de toda confusão e injúria, e para retribuir a cada um segundo as suas obras.