Imitação de Cristo - Livro III 33
Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo
Que ao que ama, Deus tem sabor acima de todas as coisas e em todas as coisas
Eis o meu Deus e o meu tudo. Que mais quero? E que poderia desejar de mais feliz? Oh, palavra saborosa e doce, mas para quem ama, palavra que não se refere ao mundo nem às coisas que estão no mundo. O meu Deus e o meu tudo. A quem entende, basta o que está dito, e ao que ama é agradável repeti-lo muitas vezes. Estando Vós presente, com efeito, todas as coisas são agradáveis; mas estando Vós ausente, tudo se torna enfadonho. Vós fazeis o coração tranquilo, e dais grande paz e alegria festiva. Vós fazeis sentir bem de todas as coisas, e em todas as coisas Vos louvar; nem pode algo agradar por muito tempo sem Vós; mas, para que seja grato e tenha bom sabor, é preciso que a vossa graça esteja presente, e que seja temperado com o condimento da vossa sabedoria.
Aquele a quem Vós tendes sabor, que não lhe saberá bem com retidão? E aquele a quem Vós não tendes sabor, que lhe poderá com retidão ser motivo de alegria? Mas falham na vossa sabedoria os sábios do mundo e os que têm sabor da carne, porque ali se encontra muita vaidade, e aqui a morte. Aqueles, porém, que Vós seguem pelo desprezo das coisas mundanas e pela mortificação da carne, esses são reconhecidos como verdadeiramente sábios, porque são transferidos da vaidade para a verdade, e da carne para o espírito. A esses Deus tem sabor, e tudo o que se encontra nas criaturas eles referem por inteiro ao louvor do seu Criador. Diferente, contudo, e muito diferente é o sabor do Criador e o da criatura, da eternidade e do tempo, da luz incriada e da luz iluminada.
Oh, luz perpétua, que transcendes todas as luzes criadas: lança o relâmpago do teu fulgor desde o alto, penetrando todas as coisas mais íntimas do meu coração. Purifica, alegra, ilumina e vivifica o meu espírito com suas potências, para que adira a Vós com jubilosos progressos. Oh, quando virá esta hora bem-aventurada e desejável, em que me sacieis com a vossa presença, e sejais para mim tudo em todas as coisas? Enquanto isto não for concedido, nem a alegria será plena. Ainda, ai de mim, vive em mim o velho homem; não está de todo crucificado, não está perfeitamente morto, ainda cobiça fortemente contra o espírito. Move guerras intestinas, e não deixa que o reino da alma esteja em paz.
Mas Vós, que dominais sobre o poder do mar e abrandais o movimento das suas ondas, levantai-Vos, ajudai-me. Dissipai as nações que querem as guerras; esmagai-as no vosso poder. Mostrai, eu Vos peço, as vossas maravilhas, e seja glorificada a vossa destra: porque não há outra esperança nem refúgio para mim, senão em Vós, Senhor meu Deus.