Imitação de Cristo - Livro III 32

Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo

Da instabilidade do coração e de dirigir a intenção final a Deus

Filho, não confieis no vosso afeto presente: ele logo se mudará em outro. Enquanto viverdes, estareis sujeito à mutabilidade, ainda que contra a vossa vontade: de modo que ora vos achareis alegre, ora triste; ora tranquilo, ora perturbado; ora devoto, ora indevoto; ora diligente, ora desidioso; ora grave, ora leve. Mas acima dessas coisas mutáveis está aquele que é sábio e bem instruído no espírito, não atendendo ao que sente em si, nem de que parte sopra o vento da instabilidade, mas fazendo com que todo o sentido da sua intenção tenda ao devido e desejado fim. Pois assim pode permanecer um e o mesmo, imutável, através dos vários acontecimentos, dirigindo a mim, com olhar não desviado, a pureza da sua intenção.
E quanto mais puro for o olhar da intenção, tanto mais constantemente se atravessa por entre as diversas tempestades. Mas em muitos se obscurece o olhar da pura intenção, porque ele se volta depressa para qualquer coisa deleitável que se apresenta. É, na verdade, raríssimo aquele que está inteiramente livre de toda mancha do interesse próprio. Assim, outrora, os judeus vieram a Betânia, a Marta e Maria, não por causa de Jesus, mas também para ver Lázaro. Deve-se, pois, purificar o olhar da intenção, para que seja simples e reto, e, acima de todos os vários objetos interpostos, seja dirigido a mim.