Imitação de Cristo - Livro III 30
Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo
Do desprezo de toda criatura para que se possa encontrar o Criador
Senhor meu, ainda preciso de maior graça, se devo chegar lá, onde ninguém me poderá impedir, nem criatura alguma. Pois, enquanto alguma coisa me retém, não posso voar livremente para Vos. Desejava voar livremente aquele que dizia: Quem me dará asas como de pomba, para que eu voe e descanse? Que há mais tranquilo que o olho simples, e que mais livre do que aquele que nada deseja na terra? Convém, portanto, ultrapassar toda criatura, e abandonar-se a si mesmo perfeitamente, e permanecer no arrebatamento da mente, e ver que Vós, Criador de todas as coisas, nada tendes de semelhante com as criaturas. E, se alguém não estiver desembaraçado de todas as criaturas, não poderá atender livremente às coisas divinas. Por isso, com efeito, encontram-se poucos contemplativos, porque poucos sabem apartar-se plenamente das criaturas perecíveis.
Para isto requer-se grande graça, que eleve a alma e a arrebate acima de si mesma. E, se o homem não for elevado acima de si no espírito, e libertado de todas as criaturas, e totalmente unido a Deus, tudo o que sabe, e mesmo tudo o que tem, não é de grande peso, e por muito tempo será pequeno. E ficará por baixo aquele que estima algo como grande, a não ser somente o único bem imenso e eterno. E tudo o que Deus não é, é nada e deve ser contado por nada. Há, na verdade, grande diferença entre a sabedoria do homem iluminado e devoto, e a ciência do clérigo letrado e estudioso. Muito mais nobre é aquela doutrina que mana do alto, da divina influência, do que a que se adquire trabalhosamente pelo engenho humano.
Muitos se encontram que desejam a contemplação, mas não se aplicam a exercitar o que para ela se requer. É também grande impedimento o deter-se em sinais e coisas sensíveis, e ter-se pouco de perfeita mortificação. Não sei o que é, e por que espírito somos conduzidos, e o que pretendemos nós que parecemos ser chamados espirituais, que empregamos todo o trabalho e a maior solicitude pelas coisas transitórias e vis, e raramente cuidamos de nosso interior com os sentidos plenamente recolhidos.
Ai, que dor! Logo após um breve recolhimento, irrompemos para fora, nem pesamos nossas obras com rigoroso exame. Não atentamos onde jazem nossos afetos, e não deploramos quão impuras são todas as nossas coisas. Toda carne, com efeito, havia corrompido o seu caminho, e por isso seguiu-se o grande dilúvio. Estando, pois, corrompido o nosso afeto interior, é necessário que a ação que se segue, índice da falta de vigor interior, seja corrompida. De um coração puro procede o fruto da boa vida.
Pergunta-se quanto alguém fez, mas não se pondera com tanto cuidado de quanta virtude age. Investiga-se se foi forte, rico, formoso, hábil, ou bom escritor, ou bom cantor, ou bom trabalhador; mas quão pobre seja de espírito, quão paciente e manso, quão devoto e interior, é silenciado por muitos. A natureza olha para o exterior do homem; a graça volta-se para o interior. Aquela frequentemente se engana; esta espera em Deus, para não ser enganada.