Imitação de Cristo - Livro III 29

Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo

Sobre como pedir o auxílio divino e ter confiança em recuperar a graça

Filho, eu sou o Senhor que conforta no dia da tribulação. Vem a mim quando não te sentires bem. Isto é o que mais impede a consolação celeste: o fato de te voltares tarde demais para a oração. Pois antes de me suplicares com fervor, buscas entrementes muitos consolos e te recreias nas coisas exteriores. E por isso acontece que tudo pouco aproveita, até que percebas que sou eu quem cuida dos que esperam em mim; e que fora de mim não conselho válido nem útil, e tampouco remédio duradouro. Mas agora, retomado o ânimo depois da tempestade, recobra as forças na luz das minhas misericórdias, porque estou perto, diz o Senhor, para restaurar tudo, não apenas inteiramente, mas também abundante e copiosamente.
Acaso algo difícil para mim? Ou serei semelhante a quem diz e não faz? Onde está a tua fé? Mantém-te firme e perseverante. paciente e homem forte. A consolação virá a ti no seu tempo. Espera por mim, espera: eu virei e te curarei. É a tentação que te perturba, e o vão temor que te aterroriza. De que serve a inquietação acerca de coisas futuras e incertas, senão para teres tristeza sobre tristeza? Basta a cada dia o seu próprio mal. Vão e inútil é perturbar-se ou alegrar-se com coisas futuras, que talvez nunca venham a acontecer.
Mas é próprio do homem ser iludido por imaginações dessa espécie, e ainda é sinal de ânimo pequeno deixar-se arrastar tão facilmente pela sugestão do inimigo. Pois ele não se importa se ilude e engana com coisas verdadeiras ou falsas, nem se te derruba pelo amor das coisas presentes ou pelo temor das futuras. Não se turbe, portanto, o teu coração nem se atemorize; crê em mim, e tem confiança na minha misericórdia. Quando te julgas afastado de mim, muitas vezes estou mais próximo. Quando julgas estar tudo perdido, então muitas vezes está mais perto o lucro de merecer. Nem tudo está perdido quando algo acontece de modo contrário. Não deves julgar segundo o sentir presente, nem aderir e acolher de tal modo qualquer aflição, venha de onde vier, como se toda esperança de escapar te tivesse sido tirada.
Não penses que foste de todo abandonado, ainda que por algum tempo te tenha permitido alguma tribulação: pois assim se passa ao reino dos céus. E isto sem dúvida é mais proveitoso para ti e para os demais servos meus, que sejais exercitados por diversas provações, do que se tivésseis tudo a vosso gosto. Eu conheço os pensamentos ocultos: pois muito convém à tua salvação que às vezes sejas deixado sem sabor algum, para que porventura não te ensoberbeças no bom êxito, e queiras agradar-te a ti mesmo naquilo que não és. O que dei posso tirar e restituir, quando me aprouver.
Quando dou, é meu; quando retiro, não tirei o que era teu: porque meu é todo bom dom e toda dádiva perfeita. Se eu deixar vir sobre ti uma aflição, ou qualquer contrariedade, não te indignes, nem desfaleça o teu coração, porque eu posso depressa aliviar-te e transformar todo peso em alegria. Contudo, sou justo e muito digno de louvor quando assim procedo contigo.
Se entendes retamente e olhas na verdade, nunca deves entristecer-te tão abatido por causa das adversidades, mas antes alegrar-te e dar graças. Mais ainda, considerar como única alegria o fato de que, afligindo-te com dores, não te poupo. Como o Pai me amou, também eu vos amei, disse aos meus amados discípulos, os quais certamente não enviei para as alegrias temporais, mas para grandes combates; não para honras, mas para desprezos; não para o ócio, mas para os trabalhos; não para o repouso, mas para produzir muito fruto na paciência. Lembra-te, filho meu, destas palavras.