Imitação de Cristo - Livro III 20
Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo
Da confissão da própria fraqueza e das misérias desta vida
Confesso contra mim a minha injustiça; confessar-Vos-ei, Senhor, a minha fraqueza. Muitas vezes é coisa pequena o que me abate e contrista. Proponho-me agir com firmeza, mas, quando vem uma pequena tentação, fico em grande angústia. Às vezes é coisa muito vil aquela de onde provém uma tentação grave; enquanto me julgo um pouco seguro, quando menos sinto, encontro-me não raras vezes quase vencido por um leve sopro.
Vede, pois, Senhor, a minha humildade e a minha fragilidade, por toda parte conhecida de Vós. Tende piedade de mim e tirai-me do lodo, para que eu não fique atolado, nem permaneça vencido de todo. Isto é o que com frequência me fere e me confunde diante de Vós: que sou tão instável e fraco para resistir às paixões; e, ainda que nem sempre chegue ao consentimento, contudo é-me molesto e pesado o seu assédio, e cansa-me muito viver assim cada dia em luta. Daí me seja conhecida a minha fraqueza, porque muito mais facilmente irrompem as abomináveis fantasias do que se retiram.
Oxalá, fortíssimo Deus de Israel, zeloso das almas fiéis, olhásseis o trabalho e a dor do vosso servo, e o assistísseis em tudo a que se dispusesse. Fortalecei-me com a força celeste, para que o velho homem, a miserável carne ainda não bem sujeita ao espírito, não possa dominar, ela contra a qual será preciso lutar enquanto se respirar nesta vida miserabilíssima. Ai, que vida é esta, onde não faltam tribulações e misérias, onde tudo está cheio de laços e de inimigos? Pois, retirando-se uma tribulação ou tentação, chega outra; e, durando ainda o primeiro conflito, sobrevêm muitas outras e inesperadas.
E como pode ser amada a vida do homem, que tem tantas amarguras e está sujeita a tantas calamidades e misérias? Como se chama vida, ainda, a que gera tantas mortes e pestes? E, contudo, é amada, e muitos procuram nela deleitar-se. Frequentemente se censura o mundo como falaz e vão, e todavia não se abandona facilmente, quando dominam as concupiscências da carne. Mas umas coisas atraem ao amor, outras ao desprezo: ao amor do mundo, o desejo da carne, o desejo dos olhos e a soberba da vida; mas as penas e misérias que os seguem geram ódio ao mundo e fastio.
Mas vence, oh dor, o deleite perverso a mente entregue ao mundo, e julga delícias estar entre os espinhos, porque nem viu nem provou a suavidade de Deus e a interior amenidade da virtude. Os que, porém, perfeitamente desprezam o mundo e se esforçam por viver para Deus sob santa disciplina, esses não ignoram a doçura divina prometida aos verdadeiros renunciantes, e veem quão gravemente o mundo erra e de quantos modos se engana.