Imitação de Cristo - Livro II 11

Livro II: admoestações que conduzem à vida interior

Dos poucos amadores da cruz de Jesus

Tem Jesus muitos amadores do seu reino celeste, mas poucos carregadores da sua cruz. Acha muitos companheiros de mesa, mas poucos de abstinência. Todos querem alegrar-se com Cristo, mas poucos querem suportar alguma coisa por ele. Muitos seguem a Jesus até a fração do pão, mas poucos até beber o cálice da paixão. Muitos veneram os seus milagres, mas poucos seguem a ignomínia da cruz. Muitos amam a Jesus enquanto não lhes sobrevêm adversidades. Muitos o louvam e bendizem enquanto recebem dele algumas consolações. Mas, se Jesus se esconder e por um pouco os deixar, caem em queixa ou em demasiado abatimento.
Mas os que amam a Jesus por Jesus, e não por alguma consolação própria sua, bendizem-no na tribulação e na angústia do coração tanto quanto na suma consolação. E, ainda que ele nunca lhes quisesse dar consolação, ainda assim o louvariam e sempre lhe quereriam dar graças.
Ó, quanto pode o puro amor de Jesus, não misturado com nenhum proveito próprio ou amor a si mesmo! Não se devem chamar mercenários todos os que sempre buscam consolações? Não se mostram mais amadores de si mesmos do que de Jesus aqueles que sempre cogitam os seus próprios proveitos ou ganhos? Onde se acha alguém assim, que queira servir a Deus de graça?
Raro se acha alguém tão espiritual que esteja despojado de tudo. Pois quem achará um verdadeiro pobre de espírito, despido de toda criatura? De longe, e até dos confins da terra, é o seu valor. Se o homem der toda a sua substância, ainda nada é. E se fizer grande penitência, ainda é pouco. E se alcançar toda a ciência, ainda está longe. E se tiver grande virtude e devoção ardentíssima, ainda lhe falta muito: uma coisa, a saber, que lhe é sumamente necessária. Que coisa é essa? Que, deixadas todas as coisas, se deixe a si mesmo, e saia totalmente de si, e nada retenha do amor próprio. E, quando tiver feito tudo o que sabe que deve ser feito, sinta que nada fez.
Não tenha em grande conta o que pode ser estimado grande, mas, na verdade, declare-se servo inútil, como diz a Verdade: Quando tiverdes feito tudo o que vos foi mandado, dizei ainda que somos servos inúteis. Então, sim, poderá ser pobre e despido de espírito, e dizer com o Profeta: Porque sou único e pobre eu. Ninguém é mais rico do que esse, ninguém mais livre, ninguém mais poderoso do que aquele que sabe deixar-se a si mesmo e a todas as coisas e pôr-se no lugar mais ínfimo.