La Crítica a la Compasión

Cuando tener lástima es debilidad

Ya en las primeras páginas, Nietzsche dispara contra un blanco inesperado: la compasión. Para la mayoría de la gente, tener lástima del que sufre es lo más noble que existe. Para Nietzsche, es una de las cosas más peligrosas. La compasión, dice, preserva lo que está maduro para perecer, multiplica la miseria y contagia al fuerte con la debilidad del débil. Frena la selección natural que mantendría la vida ascendente.

El blanco inmediato es el filósofo Schopenhauer, que había hecho de la compasión la base de toda la moral. Pero el blanco final es el cristianismo, la religión que puso la misericordia en el centro, que canoniza a quien cuida del leproso y del moribundo. Nietzsche ve en eso una conspiración contra la vida: una religión que toma el partido de los débiles contra los fuertes, sistemáticamente.

1 Este livro pertence aos pouquíssimos. Talvez nenhum deles ainda viva. Talvez sejam aqueles que entendem o meu Zaratustra: como eu poderia me confundir com aqueles para quem orelhas crescem hoje? o depois de amanhã me pertence. Alguns nascem póstumos.

2 As condições sob as quais me entendem, e então me entendem por necessidade, eu as conheço bem demais. É preciso ser honesto nas coisas do espírito até a dureza, para suportar sequer a minha seriedade, a minha paixão. É preciso estar treinado para viver nas montanhas, para ver abaixo de si a tagarelice miserável da época sobre política e o egoísmo dos povos. É preciso ter se tornado indiferente, é preciso nunca perguntar se a verdade é útil, se ela se torna uma fatalidade para alguém… Uma predileção da força por questões diante das quais ninguém hoje tem coragem; a coragem para o proibido; a predestinação ao labirinto. Uma experiência tirada de sete solidões. Ouvidos novos para uma música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades até agora mudas. E a vontade de economia em grande estilo: conservar reunidas a própria força, o próprio entusiasmo… O respeito por si; o amor por si; a liberdade incondicional diante de si…

3 Pois bem! esses são os meus leitores, os meus verdadeiros leitores, os meus leitores predestinados: que importa o resto? O resto é apenas a humanidade. É preciso ser superior à humanidade pela força, pela altura da alma, pelo desprezo…

4 Friedrich Nietzsche.

5 Olhemo-nos no rosto. Somos hiperbóreos, sabemos muito bem o quanto vivemos à margem. "Nem por terra, nem por mar encontrarás o caminho para os hiperbóreos": isso Píndaro sabia de nós. Para além do norte, do gelo, da morte: a nossa vida, a nossa felicidade… Descobrimos a felicidade, conhecemos o caminho, encontramos a saída de milênios inteiros de labirinto. Quem mais a encontrou? O homem moderno, por acaso? "Não sei nem entrar nem sair; sou tudo aquilo que não sabe nem entrar nem sair", suspira o homem moderno… Foi dessa modernidade que adoecemos, da paz podre, do compromisso covarde, de toda a impureza virtuosa do sim e do não modernos. Essa tolerância e largueza do coração, que tudo "perdoa" porque tudo "compreende", é siroco para nós. Antes viver no gelo do que entre virtudes modernas e outros ventos do sul!… Fomos bastante corajosos, não poupamos nem a nós nem aos outros: mas durante muito tempo não soubemos para onde dirigir a nossa coragem. Ficamos sombrios, chamaram-nos de fatalistas. O nosso fado: era a plenitude, a tensão, o represamento das forças. Sedentos de raios e de atos, mantivemo-nos o mais distantes possível da felicidade dos fracos, da "resignação"… Havia uma tempestade no nosso ar, a natureza que somos escurecia, pois não tínhamos caminho. Fórmula da nossa felicidade: um sim, um não, uma linha reta, uma meta…

6 O que é bom? Tudo o que eleva no homem o sentimento de poder, a vontade de poder, o próprio poder.

7 O que é mau? Tudo o que vem da fraqueza.

8 O que é felicidade? O sentimento de que o poder cresce, de que uma resistência é superada.

9 Não contentamento, mas mais poder; não paz em geral, mas guerra; não virtude, mas capacidade (virtude no estilo da Renascença, virtù, virtude livre de moralina).

10 Os fracos e malformados devem perecer: primeira tese do nosso amor pelos homens. E ainda se deve ajudá-los a isso.

11 O que é mais nocivo do que qualquer vício? A piedade ativa por todos os malformados e fracos: o cristianismo…

12 O problema que aqui coloco não é o de saber o que deve substituir a humanidade na sequência dos seres (— o homem é um fim —): é o de saber que tipo de homem se deve cultivar, se deve querer, como o de maior valor, mais digno de vida, mais seguro de futuro.

13 Esse tipo de maior valor existiu muitas vezes: mas como um acaso feliz, como uma exceção, nunca como algo querido. Pelo contrário, foi justamente ele o mais temido; ele foi até agora quase o terrível; e a partir do medo quis-se, cultivou-se, alcançou-se o tipo oposto: o animal doméstico, o animal de rebanho, o animal doente que é o homem, o cristão…

14 A humanidade não representa uma evolução em direção ao melhor, ou ao mais forte, ou ao mais elevado, do modo como se crê hoje. O "progresso" é apenas uma ideia moderna, isto é, uma ideia falsa. O europeu de hoje permanece, no seu valor, muito abaixo do europeu da Renascença; o desenvolvimento não é, de modo algum e por necessidade alguma, elevação, intensificação, fortalecimento.

15 Num outro sentido, um êxito contínuo de casos isolados nos pontos mais variados da Terra e a partir das culturas mais variadas, com os quais de fato se apresenta um tipo mais elevado: algo que, em relação à humanidade inteira, é uma espécie de super-homem. Tais acasos felizes do grande êxito sempre foram possíveis e talvez sempre serão possíveis. E mesmo gerações inteiras, tribos, povos podem, em certas circunstâncias, representar um acerto como esse.

16 Não se deve enfeitar e ataviar o cristianismo: ele moveu uma guerra de morte contra esse tipo mais elevado de homem, baniu todos os instintos fundamentais desse tipo, destilou desses instintos o mal, o maligno: o homem forte como o tipicamente reprovável, o "homem réprobo". O cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo, malformado, fez um ideal da oposição aos instintos de conservação da vida forte; corrompeu a própria razão das naturezas espiritualmente mais fortes, ao ensinar a sentir os valores supremos da espiritualidade como pecaminosos, como enganosos, como tentações. O exemplo mais lamentável: a corrupção de Pascal, que acreditava na corrupção da sua razão pelo pecado original, quando ela estava corrompida pelo seu cristianismo!

17 É um espetáculo doloroso, um espetáculo medonho o que se descortinou diante de mim: afastei a cortina diante da corrupção do homem. Essa palavra, na minha boca, está pelo menos protegida contra uma suspeita: a de que ela contenha uma acusação moral do homem. Ela é entendida (quero sublinhá-lo mais uma vez) de modo livre de moralina: e isto a tal ponto que aquela corrupção é por mim sentida com mais força justamente onde até agora se aspirava mais conscientemente à "virtude", à "divindade". Entendo corrupção (já se adivinha) no sentido de décadence: a minha afirmação é que todos os valores nos quais a humanidade hoje resume aquilo que mais deseja são valores de décadence.

18 Chamo de corrompido um animal, uma espécie, um indivíduo quando perde os seus instintos, quando escolhe, quando prefere aquilo que lhe é prejudicial. Uma história dos "sentimentos mais elevados", dos "ideais da humanidade" (e é possível que eu tenha de contá-la) seria quase também a explicação de por que o homem é tão corrompido.

19 A própria vida vale para mim como instinto de crescimento, de duração, de acúmulo de forças, de poder: onde falta a vontade de poder, declínio. A minha afirmação é que a todos os valores supremos da humanidade falta essa vontade, que valores de declínio, valores niilistas exercem o domínio sob os nomes mais santos.

20 Chamam o cristianismo de religião da piedade. A piedade está em oposição aos afetos tônicos, que elevam a energia do sentimento vital: ela age de modo depressivo. Perde-se força quando se sente piedade. Pela piedade, multiplica-se ainda mais a perda de força que o próprio sofrimento traz à vida. O próprio sofrimento torna-se contagioso pela piedade; em certas circunstâncias, pode-se alcançar com ela uma perda total de vida e de energia vital que está numa relação absurda com a magnitude da causa (— o caso da morte do Nazareno). Esse é o primeiro ponto de vista; mas ainda um mais importante. Supondo que se meça a piedade pelo valor das reações que ela costuma produzir, então o seu caráter mortalmente perigoso aparece numa luz muito mais clara. A piedade contraria, no todo e em grande, a lei da evolução, que é a lei da seleção. Ela conserva o que está maduro para a ruína, ela se defende em favor dos deserdados e condenados da vida, ela à própria vida um aspecto sombrio e duvidoso pela abundância de malformados de toda espécie que mantém vivos. Ousaram chamar a piedade de virtude (— em toda moral nobre ela vale como fraqueza —); foram mais longe, fizeram dela a virtude, o solo e a origem de todas as virtudes, mas, claro, sempre se deve ter em mente, do ponto de vista de uma filosofia que era niilista, que escreveu no seu escudo a negação da vida. Schopenhauer estava no seu direito com isso: pela piedade, a vida é negada, tornada mais digna de negação, a piedade é a prática do niilismo. Repito: esse instinto depressivo e contagioso contraria aqueles instintos que visam à conservação e à elevação do valor da vida: ele é, tanto como multiplicador da miséria quanto como conservador de tudo o que é miserável, um instrumento capital para a intensificação da décadence, a piedade persuade ao nada!… Não se diz "nada": diz-se em seu lugar "além"; ou "Deus"; ou "a verdadeira vida"; ou nirvana, redenção, bem-aventurança… Essa retórica inocente, vinda do reino da idiossincrasia religioso-moral, parece logo bem menos inocente quando se compreende que tendência se envolve aqui no manto de palavras sublimes: a tendência hostil à vida. Schopenhauer era hostil à vida: por isso a piedade se tornou para ele uma virtude… Aristóteles, como se sabe, via na piedade um estado doentio e perigoso, contra o qual seria bom agir de quando em quando com um purgante: ele entendia a tragédia como purgante. A partir do instinto da vida, dever-se-ia de fato buscar um meio de aplicar um golpe a um acúmulo doentio e perigoso de piedade como esse, tal como o representa o caso de Schopenhauer (e infelizmente também o de toda a nossa décadence literária e artística, de São Petersburgo a Paris, de Tolstói a Wagner): para que ela arrebente… Nada é mais doentio, em meio à nossa modernidade doentia, do que a piedade cristã. Ser médico aqui, ser inexorável aqui, manejar a faca aqui: isso é o que nos cabe, essa é a nossa espécie de amor pelos homens, com isso somos filósofos, nós, hiperbóreos!

La misericordia en el centro del Evangelio

El cristiano no puede negar el hecho: la compasión está de veras en el corazón del Evangelio. Los relatos describen a Jesús movido de íntima compasión ante las multitudes, los enfermos, los hambrientos. La parábola que da como modelo de amor al prójimo es la de un samaritano que se compadece de un extraño caído en el camino. La cuestión que Nietzsche plantea es si eso es grandeza o enfermedad.

36 E, vendo as multidões, teve grande compaixão delas, porque andavam cansadas e desgarradas, como ovelhas que não têm pastor.

33 Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão;

34 E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu animal, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele;

Perspectivas sobre este tema

Los mismos hechos, leídos por dos lentes que discrepan. Ninguna de las voces habla por la posición de la página: existen para que veas el argumento más fuerte de cada lado.

Crítico Histórico

El samaritano y el darwinista no caben en la misma moral, y Nietzsche escogió contra el samaritano.

El malestar aquí no es teológico, es histórico, y por eso es más difícil de descartar. Nietzsche no está atacando un espantapájaros: está nombrando, con precisión desagradable, aquello que el cristianismo de hecho le hizo al mundo antiguo. El mundo grecorromano exponía a recién nacidos enfermos o indeseados, y durante las grandes pestes de los siglos II y III los paganos acomodados huían de las ciudades mientras los cristianos se quedaban para cuidar a los infectados. Mateo 9:36 y el samaritano de Lucas 10:33-34 no son adornos morales: son el programa que reorientó la Antigüedad del cálculo de la utilidad hacia el cuidado del inútil. Cuando Nietzsche acusa al cristianismo de haber puesto la misericordia en el centro, está, desde el punto de vista del historiador, simplemente acertando los hechos. La discordia es sobre el veredicto.

Y el veredicto de Nietzsche tiene un lastre científico del propio siglo de él que suele borrarse. La generación que leyó a Darwin vio en la naturaleza la eliminación del inapto como el mecanismo mismo de la vida, y de ahí salió una pregunta brutal: si la selección natural asciende por la muerte del débil, ¿qué hace una civilización que dedica sus hospitales y su ahorro moral entero a preservar a quien la naturaleza descartaría? Nietzsche da a esa intuición su formulación más afilada. La compasión, dice, preserva lo que está maduro para perecer, multiplica la miseria conservándola, y contagia al fuerte con la debilidad del débil. Es la conclusión lógica de tomar en serio, a la vez, la biología evolutiva y la negativa a fingir que no vale para los humanos.

La tensión es real y no se disuelve con buena voluntad. Schopenhauer fundó la moral entera sobre la compasión; el cristianismo la universalizó hasta el leproso, el esclavo, el expuesto en el camino. Pero una compasión genuinamente universal no distingue, por principio, lo que merece sobrevivir de lo que no merece, y esa es exactamente la distinción de la que depende cualquier idea de selección o de mejora de un tipo. No hay forma de tener las dos cosas con plena consistencia: o cuidas al medio muerto sin preguntar si es apto, y renuncias a la selección como valor, o preservas la selección y dejas a alguien en la cuneta. Nietzsche vio que el samaritano y el darwinista no caben en la misma moral, y tuvo el coraje incómodo de escoger contra el samaritano.

Lo que esto le hace a la pretensión de revelación corta para ambos lados. Por un lado, expone que la ética del amor al prójimo no es un dato eterno y obvio escrito en el corazón de todo hombre: fue una novedad histórica, datable, impuesta contra el sentido común grecorromano, lo que tensiona la idea de una ley moral universal siempre accesible a la razón natural. Por otro lado, Nietzsche acaba prestando al cristianismo un testimonio que pocos creyentes notan: lo toma tan en serio como fuerza transvaloradora real de la historia, capaz de invertir los valores de un continente, que necesita atacarlo con toda la artillería. La pregunta que sobra, y que ni él ni el predicador responden desde lo alto, es si un valor que va contra lo que la vida hace por su cuenta es por eso una enfermedad, o si es justamente en eso en lo que consiste dejar de ser solo un animal.

Apologista Evidencial

La compasión de Jesús es la del fuerte que se inclina por elección, y fundó la civilización del cuidado.

Hay un punto en que Nietzsche acierta, y la apologética honesta necesita conceder antes que nada: existe una piedad enfermiza, y el cristianismo la produjo a gran escala. La piedad que se complace en el propio sentimiento, que mantiene al otro en la posición de objeto rescatado para que el rescatador se sienta noble, que infantiliza en lugar de levantar, esa Nietzsche la describe con precisión clínica. Quien trabajó en cualquier institución de caridad sabe que la crítica no es vacía: el asistencialismo que perpetúa la dependencia es una forma real de desprecio travestido de bondad. El propio Pablo advierte que quien no trabaja tampoco coma, lo que es un rechazo de la piedad que pudre.

Pero la lectura de Nietzsche hace algo discutible: trata la compasión de Jesús como si fuera el mismo fenómeno que la piedad decadente, cuando los datos textuales distinguen los dos. El verbo de Mateo 9:36 no describe un sentimentalismo que se rebaja, sino la reacción de alguien que se presenta con autoridad, sana, ordena y envía. La compasión de los Evangelios va siempre seguida de un imperativo: levántate, ve, haz lo mismo. En el buen samaritano, no llora junto al herido, lo cura, paga, organiza el cuidado y sigue. Eso no es la piedad del débil contagiando al fuerte, es la inclinación deliberada de quien tiene recursos y los gasta. Nietzsche presupone que toda compasión nace de la impotencia resentida, pero esa es una tesis que necesita demostrar, no un hecho dado.

Y hay un dato histórico que presiona por el lado de la consecuencia. El hospital como institución, lugar donde extraños sin valor productivo son acogidos y tratados, no existía en el mundo grecorromano en la forma que conocemos. Nace de la Basilíada de Basilio de Cesarea en el siglo IV, una ciudad hospital con alas para leprosos, pobres y enfermos, y en pocas décadas el modelo se vuelve ubicuo. El cuidado organizado del inapto, que Nietzsche identifica como síntoma de decadencia, es también la raíz empírica de casi toda la infraestructura de compasión que Occidente heredó. Eso no prueba la verdad del cristianismo, una buena institución puede brotar de una metafísica falsa. Pero le devuelve la pregunta a Nietzsche en su propio terreno, el de la vida y el florecimiento: ¿qué civilización es más habitable, la que construye la Basilíada o la que deja al leproso perecer como primer principio?

Lo que queda abierto es que Nietzsche no está equivocado por cobardía ni mala fe, hace una apuesta sobre lo que cuenta como fuerza. La cuestión honesta es si la inclinación al débil es el instinto de una vida que declina, o el gesto máximo de una fuerza que no necesita probarse dominando. El siglo XX le dio a esa pregunta un test que Nietzsche no vivió para ver: los proyectos que tomaron en serio el cálculo de eliminar al inapto, depurados de la compasión que él llamaba enferma, produjeron el eugenismo y los campos, no el superhombre. Él rechazaría con razón la lectura nazi de su obra, pero el dato moral pesa sobre la idea de que la compasión es solo costo y nunca civilización. La fe no disuelve el desafío; apuesta a que existe una compasión que es lo opuesto de la debilidad, y la historia del cuidado es el argumento más difícil de responder.