O Anticristo 1

A maldição de Nietzsche contra o cristianismo (1888): lendo o Novo Testamento como filólogo, ele separa Jesus de Paulo, acusa a Igreja de inverter os valores da vida e fecha com sua Lei contra o Cristianismo

Prefácio

Este livro pertence aos pouquíssimos. Talvez nenhum deles ainda viva. Talvez sejam aqueles que entendem o meu Zaratustra: como eu poderia me confundir com aqueles para quem orelhas crescem hoje? o depois de amanhã me pertence. Alguns nascem póstumos.
As condições sob as quais me entendem, e então me entendem por necessidade, eu as conheço bem demais. É preciso ser honesto nas coisas do espírito até a dureza, para suportar sequer a minha seriedade, a minha paixão. É preciso estar treinado para viver nas montanhas, para ver abaixo de si a tagarelice miserável da época sobre política e o egoísmo dos povos. É preciso ter se tornado indiferente, é preciso nunca perguntar se a verdade é útil, se ela se torna uma fatalidade para alguém… Uma predileção da força por questões diante das quais ninguém hoje tem coragem; a coragem para o proibido; a predestinação ao labirinto. Uma experiência tirada de sete solidões. Ouvidos novos para uma música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades até agora mudas. E a vontade de economia em grande estilo: conservar reunidas a própria força, o próprio entusiasmo… O respeito por si; o amor por si; a liberdade incondicional diante de si…
Pois bem! esses são os meus leitores, os meus verdadeiros leitores, os meus leitores predestinados: que importa o resto? O resto é apenas a humanidade. É preciso ser superior à humanidade pela força, pela altura da alma, pelo desprezo…
Friedrich Nietzsche.

§ 1

Olhemo-nos no rosto. Somos hiperbóreos, sabemos muito bem o quanto vivemos à margem. "Nem por terra, nem por mar encontrarás o caminho para os hiperbóreos": isso Píndaro sabia de nós. Para além do norte, do gelo, da morte: a nossa vida, a nossa felicidade… Descobrimos a felicidade, conhecemos o caminho, encontramos a saída de milênios inteiros de labirinto. Quem mais a encontrou? O homem moderno, por acaso? "Não sei nem entrar nem sair; sou tudo aquilo que não sabe nem entrar nem sair", suspira o homem moderno… Foi dessa modernidade que adoecemos, da paz podre, do compromisso covarde, de toda a impureza virtuosa do sim e do não modernos. Essa tolerância e largueza do coração, que tudo "perdoa" porque tudo "compreende", é siroco para nós. Antes viver no gelo do que entre virtudes modernas e outros ventos do sul!… Fomos bastante corajosos, não poupamos nem a nós nem aos outros: mas durante muito tempo não soubemos para onde dirigir a nossa coragem. Ficamos sombrios, chamaram-nos de fatalistas. O nosso fado: era a plenitude, a tensão, o represamento das forças. Sedentos de raios e de atos, mantivemo-nos o mais distantes possível da felicidade dos fracos, da "resignação"… Havia uma tempestade no nosso ar, a natureza que somos escurecia, pois não tínhamos caminho. Fórmula da nossa felicidade: um sim, um não, uma linha reta, uma meta…

§ 2

O que é bom? Tudo o que eleva no homem o sentimento de poder, a vontade de poder, o próprio poder.
O que é mau? Tudo o que vem da fraqueza.
O que é felicidade? O sentimento de que o poder cresce, de que uma resistência é superada.
Não contentamento, mas mais poder; não paz em geral, mas guerra; não virtude, mas capacidade (virtude no estilo da Renascença, virtù, virtude livre de moralina).
Os fracos e malformados devem perecer: primeira tese do nosso amor pelos homens. E ainda se deve ajudá-los a isso.
O que é mais nocivo do que qualquer vício? A piedade ativa por todos os malformados e fracos: o cristianismo…

§ 3

O problema que aqui coloco não é o de saber o que deve substituir a humanidade na sequência dos seres (— o homem é um fim —): é o de saber que tipo de homem se deve cultivar, se deve querer, como o de maior valor, mais digno de vida, mais seguro de futuro.
Esse tipo de maior valor existiu muitas vezes: mas como um acaso feliz, como uma exceção, nunca como algo querido. Pelo contrário, foi justamente ele o mais temido; ele foi até agora quase o terrível; e a partir do medo quis-se, cultivou-se, alcançou-se o tipo oposto: o animal doméstico, o animal de rebanho, o animal doente que é o homem, o cristão…

§ 4

A humanidade não representa uma evolução em direção ao melhor, ou ao mais forte, ou ao mais elevado, do modo como se crê hoje. O "progresso" é apenas uma ideia moderna, isto é, uma ideia falsa. O europeu de hoje permanece, no seu valor, muito abaixo do europeu da Renascença; o desenvolvimento não é, de modo algum e por necessidade alguma, elevação, intensificação, fortalecimento.
Num outro sentido, um êxito contínuo de casos isolados nos pontos mais variados da Terra e a partir das culturas mais variadas, com os quais de fato se apresenta um tipo mais elevado: algo que, em relação à humanidade inteira, é uma espécie de super-homem. Tais acasos felizes do grande êxito sempre foram possíveis e talvez sempre serão possíveis. E mesmo gerações inteiras, tribos, povos podem, em certas circunstâncias, representar um acerto como esse.

§ 5

Não se deve enfeitar e ataviar o cristianismo: ele moveu uma guerra de morte contra esse tipo mais elevado de homem, baniu todos os instintos fundamentais desse tipo, destilou desses instintos o mal, o maligno: o homem forte como o tipicamente reprovável, o "homem réprobo". O cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo, malformado, fez um ideal da oposição aos instintos de conservação da vida forte; corrompeu a própria razão das naturezas espiritualmente mais fortes, ao ensinar a sentir os valores supremos da espiritualidade como pecaminosos, como enganosos, como tentações. O exemplo mais lamentável: a corrupção de Pascal, que acreditava na corrupção da sua razão pelo pecado original, quando ela estava corrompida pelo seu cristianismo!

§ 6

É um espetáculo doloroso, um espetáculo medonho o que se descortinou diante de mim: afastei a cortina diante da corrupção do homem. Essa palavra, na minha boca, está pelo menos protegida contra uma suspeita: a de que ela contenha uma acusação moral do homem. Ela é entendida (quero sublinhá-lo mais uma vez) de modo livre de moralina: e isto a tal ponto que aquela corrupção é por mim sentida com mais força justamente onde até agora se aspirava mais conscientemente à "virtude", à "divindade". Entendo corrupção (já se adivinha) no sentido de décadence: a minha afirmação é que todos os valores nos quais a humanidade hoje resume aquilo que mais deseja são valores de décadence.
Chamo de corrompido um animal, uma espécie, um indivíduo quando perde os seus instintos, quando escolhe, quando prefere aquilo que lhe é prejudicial. Uma história dos "sentimentos mais elevados", dos "ideais da humanidade" (e é possível que eu tenha de contá-la) seria quase também a explicação de por que o homem é tão corrompido.
A própria vida vale para mim como instinto de crescimento, de duração, de acúmulo de forças, de poder: onde falta a vontade de poder, declínio. A minha afirmação é que a todos os valores supremos da humanidade falta essa vontade, que valores de declínio, valores niilistas exercem o domínio sob os nomes mais santos.

§ 7

Chamam o cristianismo de religião da piedade. A piedade está em oposição aos afetos tônicos, que elevam a energia do sentimento vital: ela age de modo depressivo. Perde-se força quando se sente piedade. Pela piedade, multiplica-se ainda mais a perda de força que o próprio sofrimento traz à vida. O próprio sofrimento torna-se contagioso pela piedade; em certas circunstâncias, pode-se alcançar com ela uma perda total de vida e de energia vital que está numa relação absurda com a magnitude da causa (— o caso da morte do Nazareno). Esse é o primeiro ponto de vista; mas ainda um mais importante. Supondo que se meça a piedade pelo valor das reações que ela costuma produzir, então o seu caráter mortalmente perigoso aparece numa luz muito mais clara. A piedade contraria, no todo e em grande, a lei da evolução, que é a lei da seleção. Ela conserva o que está maduro para a ruína, ela se defende em favor dos deserdados e condenados da vida, ela à própria vida um aspecto sombrio e duvidoso pela abundância de malformados de toda espécie que mantém vivos. Ousaram chamar a piedade de virtude (— em toda moral nobre ela vale como fraqueza —); foram mais longe, fizeram dela a virtude, o solo e a origem de todas as virtudes, mas, claro, sempre se deve ter em mente, do ponto de vista de uma filosofia que era niilista, que escreveu no seu escudo a negação da vida. Schopenhauer estava no seu direito com isso: pela piedade, a vida é negada, tornada mais digna de negação, a piedade é a prática do niilismo. Repito: esse instinto depressivo e contagioso contraria aqueles instintos que visam à conservação e à elevação do valor da vida: ele é, tanto como multiplicador da miséria quanto como conservador de tudo o que é miserável, um instrumento capital para a intensificação da décadence, a piedade persuade ao nada!… Não se diz "nada": diz-se em seu lugar "além"; ou "Deus"; ou "a verdadeira vida"; ou nirvana, redenção, bem-aventurança… Essa retórica inocente, vinda do reino da idiossincrasia religioso-moral, parece logo bem menos inocente quando se compreende que tendência se envolve aqui no manto de palavras sublimes: a tendência hostil à vida. Schopenhauer era hostil à vida: por isso a piedade se tornou para ele uma virtude… Aristóteles, como se sabe, via na piedade um estado doentio e perigoso, contra o qual seria bom agir de quando em quando com um purgante: ele entendia a tragédia como purgante. A partir do instinto da vida, dever-se-ia de fato buscar um meio de aplicar um golpe a um acúmulo doentio e perigoso de piedade como esse, tal como o representa o caso de Schopenhauer (e infelizmente também o de toda a nossa décadence literária e artística, de São Petersburgo a Paris, de Tolstói a Wagner): para que ela arrebente… Nada é mais doentio, em meio à nossa modernidade doentia, do que a piedade cristã. Ser médico aqui, ser inexorável aqui, manejar a faca aqui: isso é o que nos cabe, essa é a nossa espécie de amor pelos homens, com isso somos filósofos, nós, hiperbóreos!