Apologia de Sócrates 3
A defesa de Sócrates diante do tribunal de Atenas (399 a.C.), registrada por Platão: a acusação de impiedade, a missão de examinar a vida e a recusa em temer a morte
Vejam por que menciono isso: vou explicar a vocês de onde veio a minha má fama. Quando ouvi a resposta, fiquei pensando: o que será que o deus quer dizer? Qual é o sentido desse enigma? Pois sei que não tenho sabedoria alguma, nem pequena nem grande. O que ele quer dizer, então, ao afirmar que sou o mais sábio dos homens? Ele é um deus, e não pode mentir, isso seria contra a sua natureza.
Por muito tempo fiquei sem entender o que ele queria dizer. Depois, com grande esforço, parti para verificar a questão assim: procurei um homem que tinha fama de sábio, para refutar o oráculo e mostrar a ele que aquele homem era mais sábio do que eu, embora o oráculo tivesse dito que eu era o mais sábio. Não preciso dizer o nome dele, mas era um dos políticos. Quando comecei a conversar com ele, não pude deixar de notar que, embora fosse considerado sábio por muitos e ainda mais por si mesmo, ele não era de fato sábio.
Então tentei mostrar a ele que se achava sábio, mas não era. Com isso, ele passou a me odiar, e essa hostilidade foi partilhada por vários que estavam presentes e me ouviram. Fui embora pensando comigo mesmo: sou mais sábio do que esse homem. É bem provável que nenhum de nós dois saiba nada de belo e bom, mas ele acha que sabe alguma coisa sem saber, enquanto eu, como não sei, também não acho que sei. Nesse pequeno ponto pareço levar uma ligeira vantagem: não acho que sei aquilo que não sei.
Depois fui a outro, que tinha pretensões ainda maiores de sabedoria, e cheguei exatamente à mesma conclusão. E com isso fiz dele e de muitos outros meus inimigos. Então fui de um a outro, percebendo, com pesar e medo, que estava criando inimizades. Mesmo assim, parecia necessário pôr acima de tudo a palavra do deus. Eu tinha de ir a todos os que pareciam saber alguma coisa, para descobrir o sentido do oráculo.
E juro a vocês, atenienses, pois devo dizer a verdade, o resultado da minha missão foi este: descobri que os homens de maior reputação eram quase os mais tolos, e que outros, tidos como inferiores, eram na verdade mais sensatos. Vou contar a vocês as minhas andanças e os trabalhos que enfrentei, só para no fim achar o oráculo irrefutável.
Depois dos políticos, fui aos poetas, os de tragédia, os de hinos e os outros, pensando que ali eu seria flagrado na hora como mais ignorante do que eles. Peguei as passagens mais bem trabalhadas das obras deles e perguntei o que queriam dizer, achando que aprenderia algo. Tenho vergonha de confessar a verdade, mas devo dizer: quase qualquer um dos presentes falaria melhor sobre aquela poesia do que os próprios poetas.
Então percebi que não é por sabedoria que os poetas compõem o que compõem, mas por uma espécie de dom natural e inspiração, como acontece com os adivinhos e profetas, que também dizem muitas coisas belas sem entender o sentido delas. Vi que os poetas estavam no mesmo caso. E notei que, por causa da poesia, eles se julgavam os mais sábios também nas outras coisas, em que não eram sábios. Saí dali achando que era superior a eles pela mesma razão que era superior aos políticos.
Por fim, fui aos artesãos. Eu sabia que praticamente nada entendia, e tinha certeza de que eles entendiam muitas coisas boas. Nisso não me enganei: de fato sabiam coisas que eu não sabia, e nesse ponto eram mais sábios do que eu. Mas notei que até os bons artesãos caíam no mesmo erro dos poetas. Porque eram bons no seu ofício, julgavam-se sábios também nas coisas mais importantes, e esse defeito encobria a sabedoria que tinham. Então me perguntei, em nome do oráculo, se preferia ser como sou, sem o saber nem a ignorância deles, ou ser como eles nas duas coisas. E respondi a mim mesmo e ao oráculo que era melhor ser como sou.