Apologia de Sócrates 2
A defesa de Sócrates diante do tribunal de Atenas (399 a.C.), registrada por Platão: a acusação de impiedade, a missão de examinar a vida e a recusa em temer a morte
Pois bem, devo me defender, atenienses, e tentar arrancar de vocês, em tão pouco tempo, uma má fama que carregaram por tanto tempo. Quem dera eu consiga, se for melhor para vocês e para mim. Mas sei que a tarefa é difícil, e percebo bem o que ela tem. Que isso se resolva como for do agrado do deus. À lei devo obediência, e por isso vou me defender.
Voltemos ao começo, e vejamos qual é a acusação que deu origem à má fama a meu respeito, na qual Meleto se apoiou para abrir este processo contra mim. O que diziam os que me caluniavam? Vou ler a denúncia deles como se fossem meus acusadores: Sócrates é um malfeitor, um curioso intrometido que investiga as coisas debaixo da terra e no céu, que faz a causa mais fraca parecer a mais forte, e ensina isso aos outros.
Essa é a acusação, e foi o que vocês mesmos viram na comédia de Aristófanes: um homem a quem ele chama de Sócrates, andando por aí, dizendo que caminha pelos ares e falando um monte de bobagens sobre coisas das quais não entendo nem muito nem pouco. Não digo isso para desprezar quem estuda esses assuntos, e nem queria que Meleto me processasse por algo assim. Mas a verdade, atenienses, é que não tenho nada a ver com essas investigações sobre a natureza.
Disso a maioria de vocês é testemunha, e a vocês eu apelo: falem entre si, vocês que já me ouviram conversar, e digam uns aos outros se alguma vez me ouviram tratar dessas coisas, pouco ou muito. Pela resposta de vocês vão poder julgar a verdade do resto que dizem a meu respeito.
Não tem mais fundamento o boato de que sou professor e cobro dinheiro por isso. Embora me pareça bonito, se alguém for capaz de educar as pessoas como Górgias de Leontinos, Pródico de Ceos e Hípias de Élis. Cada um deles é capaz de ir de cidade em cidade e convencer os jovens, que poderiam aprender de graça com seus próprios concidadãos, a deixar esses mestres, pagar a eles e ainda ficar agradecidos.
Há também aqui um sábio de Paros, de quem ouvi falar, e soube dele assim: encontrei um homem que gastou mais dinheiro com sofistas do que todos os outros juntos, Cálias, filho de Hipônico. Sabendo que ele tinha dois filhos, perguntei: Cálias, se os seus dois filhos fossem potros ou bezerros, não seria difícil arranjar alguém para cuidar deles. Contrataríamos um treinador de cavalos ou um agricultor, que os aperfeiçoaria na virtude própria deles. Mas, como são seres humanos, quem você pensa em colocar para cuidar deles? Quem entende da virtude humana e cívica? Você deve ter pensado nisso, já que tem filhos. Existe alguém assim?
Existe sim, ele respondeu. Quem é, perguntei eu, de onde é, e quanto cobra? Éveno de Paros, disse ele, é o homem, e cobra cinco minas. E eu pensei que Éveno seria feliz se realmente tivesse essa arte e ensinasse por um preço tão moderado. Se eu soubesse fazer isso, ficaria muito orgulhoso e vaidoso. Mas a verdade, atenienses, é que não tenho conhecimento desse tipo.
Talvez algum de vocês me responda: mas, Sócrates, de onde vêm essas acusações contra você? Você deve ter feito algo estranho. Toda essa fama e esses boatos não teriam surgido se você fosse como os outros homens. Diga-nos, então, qual é a causa disso, pois não queremos julgar você de forma precipitada. Acho a pergunta justa, e vou tentar mostrar a vocês por que ganhei esse nome e essa má fama.
Escutem, então. Talvez alguns de vocês achem que estou brincando, mas saibam que vou dizer toda a verdade. Atenienses, foi por causa de uma certa sabedoria que ganhei essa fama. Que sabedoria é essa? Aquela que talvez seja própria do ser humano. Nessa eu de fato pareço ser sábio. Já os homens de quem falava há pouco talvez tenham uma sabedoria maior que a humana, ou então não sei como descrevê-la, pois ela eu não possuo. Quem disser que possuo está mentindo e querendo manchar a minha reputação.
E aqui, atenienses, peço que não me interrompam, mesmo que eu pareça dizer algo grandioso. Pois a palavra que vou dizer não é minha. Vou citar uma testemunha digna de confiança: a respeito da minha sabedoria, se é que tenho alguma, e de que tipo ela é, a minha testemunha será o deus de Delfos. Vocês conheciam Querefonte.
Ele era meu amigo desde a juventude, e também amigo da maioria de vocês, pois partilhou o exílio recente do povo e voltou junto. Vocês sabem como Querefonte era impetuoso em tudo o que fazia. Pois certa vez ele foi a Delfos e teve a ousadia de perguntar ao oráculo, e aqui peço de novo que não me interrompam, se havia alguém mais sábio do que eu. A sacerdotisa de Apolo respondeu que não havia ninguém mais sábio. O próprio Querefonte já morreu, mas o irmão dele, que está aqui no tribunal, pode confirmar o que digo.