A Origem das Espécies - Capítulo V: As Leis da Variação 5

As Leis da Variação

Voltemos agora aos efeitos do cruzamento das várias espécies do gênero do cavalo. Rollin afirma que a mula comum, do jumento com a égua, é particularmente propensa a ter barras nas patas; segundo o Sr. Gosse, em certas partes dos Estados Unidos, cerca de nove em cada dez mulas têm patas listradas. Vi uma vez uma mula com as patas tão listradas que qualquer um poderia ter pensado tratar-se de uma zebra híbrida; e o Sr. W.C. Martin, em seu excelente tratado sobre o cavalo, apresentou uma figura de uma mula semelhante. Em quatro desenhos coloridos que vi, de híbridos entre o jumento e a zebra, as patas tinham barras muito mais nítidas do que o resto do corpo; e num deles havia uma faixa de ombro dupla. No famoso híbrido de Lord Morton, de uma égua alazã com um quaga macho, o híbrido e até os descendentes puros produzidos depois pela mesma égua com um garanhão árabe preto tinham barras nas patas muito mais nítidas do que tem até o próprio quaga puro. Por fim, e este é outro caso muito notável, o Dr. Gray ilustrou um híbrido (e ele me informa que conhece um segundo caso) do jumento com o hemíono; e esse híbrido, embora o jumento ocasionalmente tenha listras nas patas e o hemíono não tenha nenhuma e nem sequer tenha faixa de ombro, ainda assim tinha as quatro patas com barras, e tinha três faixas de ombro curtas, como as dos pôneis baios-amarelados de Devonshire e do País de Gales, e tinha até algumas listras semelhantes às da zebra nos lados do rosto. A respeito desse último fato, eu estava tão convencido de que nem mesmo uma listra de cor aparece por aquilo que comumente se chama de acaso, que fui levado, unicamente pela ocorrência das listras faciais nesse híbrido do jumento com o hemíono, a perguntar ao Coronel Poole se tais listras faciais tinham ocorrido na raça de cavalos Kattywar, tão notavelmente listrada; e, como vimos, a resposta foi afirmativa.
O que diremos agora a respeito desses vários fatos? Vemos várias espécies distintas do gênero do cavalo ficarem, por simples variação, listradas nas patas como uma zebra, ou listradas nos ombros como um jumento. No cavalo, vemos essa tendência forte sempre que aparece um tom baio-amarelado, um tom que se aproxima do colorido geral das outras espécies do gênero. O aparecimento das listras não vem acompanhado de nenhuma mudança de forma, nem de qualquer outro caráter novo. Vemos essa tendência a ficar listrado exibida com mais força em híbridos entre várias das espécies mais distintas. Observe agora o caso das várias raças de pombos: elas descendem de um pombo (incluindo duas ou três subespécies ou raças geográficas) de cor azulada, com certas barras e outras marcas; e quando qualquer raça assume por simples variação um tom azulado, essas barras e outras marcas invariavelmente reaparecem, mas sem nenhuma outra mudança de forma ou caráter. Quando as raças mais antigas e puras de várias cores são cruzadas, vemos uma forte tendência ao reaparecimento do tom azul e das barras e marcas nos mestiços. Afirmei que a hipótese mais provável para explicar o reaparecimento de caracteres muito antigos é a de que há, nos filhotes de cada geração sucessiva, uma tendência a produzir o caráter muito perdido, e que essa tendência, por causas desconhecidas, às vezes prevalece. E acabamos de ver que, em várias espécies do gênero do cavalo, as listras ou são mais nítidas ou aparecem com mais frequência nos jovens do que nos velhos. Chame de espécies as raças de pombos, algumas das quais se reproduzem fielmente séculos; e veja como o caso é exatamente paralelo ao das espécies do gênero do cavalo! Quanto a mim, ouso olhar com confiança milhares e milhares de gerações para trás, e vejo um animal listrado como uma zebra, mas talvez de constituição muito diferente em outros aspectos, o ancestral comum do nosso cavalo doméstico (quer descenda ou não de uma ou mais linhagens selvagens), do jumento, do hemíono, do quaga e da zebra.
Quem acredita que cada espécie de equino foi criada de forma independente vai, suponho, afirmar que cada espécie foi criada com uma tendência a variar, tanto na natureza quanto sob domesticação, exatamente desta maneira, de modo a muitas vezes ficar listrada como as outras espécies do gênero. E vai afirmar também que cada uma foi criada com uma forte tendência, quando cruzada com espécies que habitam regiões distantes do mundo, a produzir híbridos cujas listras lembram não os próprios pais, mas outras espécies do gênero. Aceitar essa visão, ao que me parece, é rejeitar uma causa real em favor de uma irreal, ou pelo menos desconhecida. Isso transforma as obras de Deus em mera zombaria e engano. Eu quase tão facilmente acreditaria, junto com os velhos e ignorantes cosmogonistas, que as conchas fósseis nunca tinham vivido, e sim tinham sido criadas dentro da pedra para imitar as conchas que hoje vivem na beira do mar.
Resumo. Nossa ignorância sobre as leis da variação é profunda. Nem em um caso entre cem podemos pretender apontar alguma razão pela qual esta ou aquela parte variou. Mas sempre que temos meios de estabelecer uma comparação, as mesmas leis parecem ter atuado tanto para produzir as diferenças menores entre variedades da mesma espécie quanto as diferenças maiores entre espécies do mesmo gênero. Condições alteradas em geral induzem apenas uma variabilidade flutuante, mas às vezes causam efeitos diretos e definidos, e estes podem se tornar bem marcados com o passar do tempo, embora não tenhamos evidência suficiente sobre esse ponto. O hábito, ao produzir peculiaridades constitucionais, e o uso, ao fortalecer órgãos, e o desuso, ao enfraquecer e reduzir órgãos, parecem em muitos casos ter tido efeitos potentes. Partes homólogas tendem a variar do mesmo modo, e partes homólogas tendem a se unir. Modificações em partes duras e em partes externas às vezes afetam partes mais moles e internas. Quando uma parte se desenvolve muito, talvez ela tenda a extrair nutrientes das partes vizinhas, e toda parte da estrutura que possa ser poupada sem prejuízo será poupada. Mudanças de estrutura numa idade precoce podem afetar partes que se desenvolvem depois, e muitos casos de variação correlacionada, cuja natureza não conseguimos entender, sem dúvida ocorrem. Partes múltiplas variam em número e em estrutura, talvez porque tais partes não foram intensamente especializadas para nenhuma função específica, de modo que suas modificações não foram intensamente controladas pela seleção natural. Provavelmente decorre dessa mesma causa que os seres orgânicos situados na parte baixa da escala são mais variáveis do que os que estão mais acima, cuja organização inteira é mais especializada. Os órgãos rudimentares, por serem inúteis, não são regulados pela seleção natural e por isso são variáveis. Os caracteres específicos, ou seja, os caracteres que passaram a diferir desde que as várias espécies do mesmo gênero se ramificaram a partir de um ancestral comum, são mais variáveis do que os caracteres genéricos, aqueles que foram herdados por muito tempo e não diferiram dentro desse mesmo período. Nestas observações nos referimos a partes ou órgãos especiais que ainda são variáveis porque variaram recentemente e assim passaram a diferir. Mas vimos também no segundo capítulo que o mesmo princípio se aplica ao indivíduo inteiro, pois numa região onde se encontram muitas espécies de um gênero, ou seja, onde houve muita variação e diferenciação no passado, ou onde a fábrica de novas formas específicas esteve em plena atividade, nessa região e entre essas espécies hoje encontramos, em média, o maior número de variedades. Os caracteres sexuais secundários são altamente variáveis, e tais caracteres diferem muito entre as espécies do mesmo grupo. A variabilidade nas mesmas partes da organização em geral foi aproveitada para conferir diferenças sexuais secundárias aos dois sexos da mesma espécie, e diferenças específicas às várias espécies do mesmo gênero. Qualquer parte ou órgão desenvolvido até um tamanho extraordinário, ou de maneira extraordinária, em comparação com a mesma parte ou órgão nas espécies aparentadas, deve ter passado por uma quantidade extraordinária de modificação desde que o gênero surgiu. E assim conseguimos entender por que ele costuma ainda ser variável em grau muito maior do que outras partes, pois a variação é um processo lento e prolongado, e nesses casos a seleção natural ainda não terá tido tempo de vencer a tendência a uma variabilidade adicional e à reversão a um estado menos modificado. Mas quando uma espécie com um órgão extraordinariamente desenvolvido se torna a ancestral de muitos descendentes modificados, o que, segundo nossa visão, deve ser um processo muito lento, exigindo um longo intervalo de tempo, nesse caso a seleção natural conseguiu dar um caráter fixo ao órgão, por mais extraordinária que tenha sido a sua forma de desenvolvimento. Espécies que herdam de um ancestral comum praticamente a mesma constituição, e estão expostas a influências semelhantes, naturalmente tendem a apresentar variações análogas, ou essas mesmas espécies podem ocasionalmente reverter a alguns dos caracteres de seus antigos progenitores. Embora modificações novas e importantes possam não surgir da reversão e da variação análoga, tais modificações acrescentam à bela e harmoniosa diversidade da natureza.
Seja qual for a causa de cada pequena diferença entre os descendentes e seus pais, e uma causa para cada uma deve existir, temos razão para acreditar que é o acúmulo constante de diferenças benéficas que deu origem a todas as modificações mais importantes da estrutura em relação aos hábitos de cada espécie.