A Origem das Espécies - Capítulo VI: Dificuldades da Teoria 1
Dificuldades da Teoria
Muito antes de o leitor chegar a esta parte da minha obra, uma série de dificuldades já terá lhe ocorrido. Algumas delas são tão sérias que até hoje mal consigo refletir sobre elas sem ficar um pouco abalado. Mas, no meu melhor julgamento, a maior parte é apenas aparente, e as que são reais não me parecem fatais à teoria.
Essas dificuldades e objeções podem ser agrupadas nos seguintes tópicos. Primeiro: se as espécies descenderam de outras espécies por gradações sutis, por que não vemos em toda parte inúmeras formas de transição? Por que a natureza inteira não está em confusão, em vez de as espécies serem, como as vemos, bem definidas?
Segundo: é possível que um animal com a estrutura e os hábitos de um morcego, por exemplo, tenha sido formado pela modificação de algum outro animal com hábitos e estrutura muito diferentes? Podemos acreditar que a seleção natural produza, de um lado, um órgão de importância insignificante, como a cauda de uma girafa, que serve de espanta-moscas, e, de outro lado, um órgão tão admirável quanto o olho?
Terceiro: instintos podem ser adquiridos e modificados pela seleção natural? O que diremos do instinto que leva a abelha a fazer células, antecipando na prática as descobertas de matemáticos profundos?
Quarto: como explicar que as espécies, quando cruzadas, sejam estéreis e produzam descendentes estéreis, enquanto, quando as variedades são cruzadas, sua fertilidade permanece intacta?
Os dois primeiros tópicos serão discutidos aqui. Algumas objeções variadas, no capítulo seguinte. O instinto e o hibridismo, nos dois capítulos posteriores.
Sobre a ausência ou raridade de variedades de transição. Como a seleção natural age unicamente preservando modificações vantajosas, cada nova forma tenderá, num território plenamente povoado, a tomar o lugar de sua própria forma parental menos aperfeiçoada e de outras formas menos favorecidas com que entra em competição, e por fim a exterminá-las. Assim, extinção e seleção natural caminham de mãos dadas. Por isso, se olhamos cada espécie como descendente de alguma forma desconhecida, tanto a forma parental quanto todas as variedades de transição em geral terão sido exterminadas pelo próprio processo de formação e aperfeiçoamento da nova forma.
Mas, como por esta teoria inúmeras formas de transição devem ter existido, por que não as encontramos enterradas aos milhões na crosta terrestre? Será mais conveniente discutir essa questão no capítulo sobre a imperfeição do registro geológico. Aqui só afirmo que a resposta, na minha opinião, está principalmente no fato de o registro ser incomparavelmente menos perfeito do que se costuma supor. A crosta da terra é um vasto museu, mas as coleções naturais foram feitas de modo imperfeito e apenas em longos intervalos de tempo.
Mas pode-se objetar que, quando várias espécies muito aparentadas habitam o mesmo território, deveríamos com certeza encontrar hoje muitas formas de transição. Tomemos um caso simples: viajando de norte a sul por um continente, em geral encontramos em intervalos sucessivos espécies muito aparentadas ou representativas, que evidentemente ocupam quase o mesmo lugar na economia natural da região. Essas espécies representativas muitas vezes se encontram e se entrelaçam, e, à medida que uma se torna cada vez mais rara, a outra se torna cada vez mais frequente, até que uma substitui a outra. Mas, se comparamos essas espécies onde elas se misturam, elas em geral são tão absolutamente distintas uma da outra em cada detalhe de estrutura quanto exemplares colhidos na região central que cada uma habita. Pela minha teoria, essas espécies aparentadas descendem de um ancestral comum, e, durante o processo de modificação, cada uma se adaptou às condições de vida da sua própria região, suplantando e exterminando sua forma parental original e todas as variedades de transição entre seus estados passado e presente. Por isso não devemos esperar encontrar hoje numerosas variedades de transição em cada região, embora elas devam ter existido ali e possam estar enterradas em estado fóssil. Mas, na região intermediária, com condições de vida intermediárias, por que não encontramos hoje variedades intermediárias que estabeleçam uma ligação estreita? Essa dificuldade durante muito tempo me confundiu por completo. Mas acho que ela pode ser explicada em grande parte.
Em primeiro lugar, devemos ser extremamente cautelosos ao inferir, só porque uma área é agora contínua, que ela foi contínua durante um longo período. A geologia nos levaria a crer que a maioria dos continentes se fragmentou em ilhas mesmo durante os períodos terciários mais recentes, e em ilhas assim espécies distintas poderiam ter se formado separadamente, sem a possibilidade de existirem variedades intermediárias nas zonas intermediárias. Por mudanças na forma da terra e do clima, áreas marinhas hoje contínuas devem com frequência ter existido, em tempos recentes, numa condição muito menos contínua e uniforme do que a atual. Mas vou deixar de lado essa saída para a dificuldade, pois acredito que muitas espécies perfeitamente definidas se formaram em áreas rigorosamente contínuas. Ainda assim, não duvido de que a antiga condição fragmentada de áreas hoje contínuas tenha tido um papel importante na formação de novas espécies, sobretudo em animais que cruzam livremente e que se deslocam muito.
Ao olhar as espécies tal como estão agora distribuídas por uma ampla área, em geral as encontramos razoavelmente numerosas num grande território, depois tornando-se de modo um tanto abrupto cada vez mais raras nas bordas, até que finalmente desaparecem. Por isso, o território neutro entre duas espécies representativas costuma ser estreito em comparação com o território próprio de cada uma. Vemos o mesmo fato ao subir montanhas, e às vezes é bastante notável a abrupteza com que, como Alph. De Candolle observou, uma espécie alpina comum desaparece. O mesmo fato foi notado por E. Forbes ao sondar as profundezas do mar com a draga. Para quem encara o clima e as condições físicas de vida como os elementos decisivos da distribuição, esses fatos deveriam causar surpresa, já que o clima, a altitude e a profundidade variam de modo imperceptível. Mas, quando lembramos que quase toda espécie, mesmo em sua região central, aumentaria imensamente em número se não fosse por outras espécies concorrentes; que quase todas ou predam outras ou servem de presa a outras; em suma, que cada ser orgânico está direta ou indiretamente relacionado, da maneira mais importante, a outros seres orgânicos, vemos que a distribuição dos habitantes de qualquer região não depende de modo algum exclusivamente de condições físicas que mudam de forma imperceptível, mas em grande parte da presença de outras espécies, das quais ele vive, pelas quais é destruído, ou com as quais entra em competição. E, como essas espécies já são objetos definidos, que não se fundem umas nas outras por gradações imperceptíveis, a distribuição de qualquer espécie, dependendo como depende da distribuição de outras, tenderá a ser nitidamente definida. Além disso, cada espécie nas bordas de sua distribuição, onde existe em número reduzido, ficará extremamente sujeita ao extermínio total durante flutuações no número de seus inimigos ou de suas presas, ou na natureza das estações; e assim sua distribuição geográfica passará a ser ainda mais nitidamente definida.
Como espécies aparentadas ou representativas, quando habitam uma área contínua, em geral se distribuem de tal modo que cada uma tem uma ampla distribuição, com um território neutro comparativamente estreito entre elas, no qual se tornam de modo um tanto súbito cada vez mais raras; e como as variedades não diferem essencialmente das espécies, a mesma regra provavelmente se aplica a ambas. Se tomarmos uma espécie variável que habita uma área muito grande, teremos de adaptar duas variedades a duas grandes áreas e uma terceira variedade a uma estreita zona intermediária. A variedade intermediária, em consequência, existirá em menor número por habitar uma área estreita e menor; e, na prática, até onde consigo apurar, essa regra vale para as variedades em estado natural. Encontrei exemplos marcantes da regra no caso de variedades intermediárias entre variedades bem definidas do gênero Balanus. E, pelas informações que me deram o Sr. Watson, o Dr. Asa Gray e o Sr. Wollaston, parece que, em geral, quando ocorrem variedades intermediárias entre duas outras formas, elas são numericamente muito mais raras do que as formas que ligam. Ora, se podemos confiar nesses fatos e inferências, e concluir que as variedades que ligam duas outras variedades em geral existiram em menor número do que as formas que ligam, então conseguimos entender por que as variedades intermediárias não duram por períodos muito longos: por que, como regra geral, elas são exterminadas e desaparecem mais cedo do que as formas que originalmente ligavam.
Pois qualquer forma que exista em menor número, como já observei, correria maior risco de ser exterminada do que uma que exista em grande número; e, neste caso específico, a forma intermediária estaria muito sujeita às investidas de formas estreitamente aparentadas que existem de ambos os lados dela. Mas há uma consideração bem mais importante: durante o processo de modificação posterior, pelo qual se supõe que duas variedades se convertam e se aperfeiçoem em duas espécies distintas, as duas que existem em maior número, por habitarem áreas maiores, terão grande vantagem sobre a variedade intermediária, que existe em menor número numa zona estreita e intermediária. Pois formas que existem em maior número terão, dentro de qualquer período dado, mais chance de apresentar novas variações favoráveis para a seleção natural aproveitar do que as formas mais raras, que existem em menor número. Por isso, na corrida pela vida, as formas mais comuns tenderão a vencer e suplantar as menos comuns, pois estas serão modificadas e aperfeiçoadas mais lentamente. É o mesmo princípio que, na minha opinião, explica por que as espécies comuns de cada região, como mostrei no segundo capítulo, apresentam em média um número maior de variedades bem definidas do que as espécies mais raras. Posso ilustrar o que quero dizer supondo que se criem três variedades de ovelhas: uma adaptada a uma extensa região montanhosa; uma segunda a uma faixa comparativamente estreita de colinas; e uma terceira às amplas planícies da base. E suponhamos que os habitantes estejam todos tentando, com igual constância e perícia, melhorar seus rebanhos por seleção. As chances, nesse caso, pesarão fortemente a favor dos grandes criadores das montanhas ou das planícies, que aperfeiçoarão suas raças mais depressa do que os pequenos criadores da estreita faixa intermediária de colinas. Em consequência, a raça aperfeiçoada da montanha ou da planície logo tomará o lugar da raça menos aperfeiçoada das colinas, e assim as duas raças, que originalmente existiam em maior número, entrarão em contato estreito uma com a outra, sem a interposição da variedade intermediária das colinas, que foi suplantada.
Resumindo, acredito que as espécies acabam por se tornar objetos razoavelmente bem definidos, e não apresentam, em nenhum momento, um caos inextricável de elos variáveis e intermediários. Primeiro, porque novas variedades se formam muito lentamente, pois a variação é um processo lento, e a seleção natural nada pode fazer enquanto não surgem diferenças ou variações individuais favoráveis, e enquanto algum lugar na ordem natural da região não pode ser mais bem preenchido por alguma modificação de um ou mais de seus habitantes. E esses novos lugares dependerão de mudanças lentas de clima, ou da imigração ocasional de novos habitantes e, provavelmente em grau ainda mais importante, de alguns dos antigos habitantes se modificarem lentamente, com as novas formas assim produzidas e as antigas agindo e reagindo umas sobre as outras. De modo que, em qualquer região e em qualquer época, deveríamos ver apenas algumas poucas espécies apresentando leves modificações de estrutura, em certo grau permanentes; e é exatamente isso que de fato vemos.
Segundo, áreas hoje contínuas devem com frequência ter existido, no período recente, como porções isoladas, nas quais muitas formas, sobretudo entre as classes que se unem para cada nascimento e se deslocam muito, podem separadamente ter se tornado suficientemente distintas a ponto de se classificarem como espécies representativas. Nesse caso, variedades intermediárias entre as várias espécies representativas e seu ancestral comum devem ter existido outrora dentro de cada porção isolada da terra, mas esses elos, durante o processo de seleção natural, terão sido suplantados e exterminados, de modo que já não são encontrados em estado vivo.
Terceiro, quando duas ou mais variedades se formaram em diferentes porções de uma área rigorosamente contínua, é provável que variedades intermediárias tenham se formado de início nas zonas intermediárias, mas elas em geral terão tido curta duração. Pois essas variedades intermediárias, por razões já apontadas (a saber, pelo que sabemos sobre a distribuição real de espécies muito aparentadas ou representativas, e também sobre variedades reconhecidas), existem nas zonas intermediárias em menor número do que as variedades que tendem a ligar. Só por essa causa, as variedades intermediárias ficam sujeitas ao extermínio acidental; e, durante o processo de modificação posterior pela seleção natural, quase certamente serão vencidas e suplantadas pelas formas que ligam. Pois estas, por existirem em maior número, apresentarão no conjunto mais variedades, e assim serão mais aperfeiçoadas pela seleção natural e ganharão novas vantagens.
Por fim, olhando não para um momento qualquer, mas para todos os tempos, se minha teoria for verdadeira, inúmeras variedades intermediárias, ligando estreitamente todas as espécies de um mesmo grupo, devem com certeza ter existido. Mas o próprio processo de seleção natural tende constantemente, como já se observou tantas vezes, a exterminar as formas parentais e os elos intermediários. Em consequência, a evidência de sua existência passada só poderia ser encontrada entre restos fósseis, que estão preservados, como tentaremos mostrar num capítulo futuro, num registro extremamente imperfeito e intermitente.
Sobre a origem e a transição de seres orgânicos com hábitos e estrutura peculiares. Os adversários de visões como a que sustento perguntaram, por exemplo, como um animal carnívoro terrestre poderia ter se convertido num animal de hábitos aquáticos, pois como o animal teria subsistido em seu estado de transição? Seria fácil mostrar que existem hoje animais carnívoros que apresentam estreitas gradações intermediárias, dos hábitos rigorosamente terrestres aos aquáticos; e, como cada um existe por uma luta pela vida, fica claro que cada um deve estar bem adaptado a seu lugar na natureza. Veja a Mustela vison da América do Norte, que tem pés com membranas e que se assemelha a uma lontra na pelagem, nas patas curtas e na forma da cauda; durante o verão, esse animal mergulha em busca de peixes e os preda, mas durante o longo inverno deixa as águas congeladas e preda, como outras doninhas, camundongos e animais terrestres. Se tivéssemos tomado um caso diferente e perguntado como um quadrúpede insetívoro poderia ter se convertido num morcego voador, a pergunta seria muito mais difícil de responder. Ainda assim, acho que dificuldades desse tipo têm pouco peso.
Aqui, como em outras ocasiões, estou em séria desvantagem, pois, dos muitos casos marcantes que reuni, só posso dar um ou dois exemplos de hábitos e estruturas de transição em espécies aparentadas, e de hábitos diversificados, constantes ou ocasionais, numa mesma espécie. E me parece que nada menos do que uma longa lista de casos assim é suficiente para reduzir a dificuldade em qualquer caso específico, como o do morcego.
Veja a família dos esquilos. Aqui temos a mais fina gradação, desde animais com a cauda apenas levemente achatada, e desde outros que, como observou Sir J. Richardson, têm a parte posterior do corpo bastante larga e a pele dos flancos bastante folgada, até os chamados esquilos voadores. E os esquilos voadores têm os membros, e até a base da cauda, unidos por uma ampla extensão de pele, que serve de paraquedas e lhes permite planar pelo ar a uma distância surpreendente, de árvore em árvore. Não podemos duvidar de que cada estrutura é útil a cada tipo de esquilo em sua própria região, permitindo-lhe escapar de aves ou feras predadoras, ou coletar alimento mais depressa, ou, como há razão para crer, reduzir o perigo de quedas ocasionais. Mas não decorre desse fato que a estrutura de cada esquilo seja a melhor que se possa conceber sob todas as condições possíveis. Suponhamos que o clima e a vegetação mudem, que outros roedores concorrentes ou novas feras predadoras imigrem, ou que as antigas se modifiquem: toda analogia nos levaria a crer que pelo menos alguns dos esquilos diminuiriam em número ou seriam exterminados, a menos que também se modificassem e aperfeiçoassem sua estrutura de modo correspondente. Por isso, não vejo dificuldade alguma, sobretudo sob condições de vida em mudança, na preservação continuada de indivíduos com membranas dos flancos cada vez mais amplas, cada modificação sendo útil, cada uma sendo propagada, até que, pelos efeitos acumulados desse processo de seleção natural, se produziu um perfeito esquilo voador, como é chamado.
Agora veja o Galeopithecus, ou chamado lêmure voador, que antes era classificado entre os morcegos, mas hoje se acredita que pertença aos Insectívoros. Uma membrana dos flancos extremamente ampla se estende dos cantos da mandíbula até a cauda, e inclui os membros com os dedos alongados. Essa membrana dos flancos é provida de um músculo extensor. Embora nenhum elo gradual de estrutura, apropriado para planar pelo ar, ligue hoje o Galeopithecus aos demais Insectívoros, não há dificuldade em supor que tais elos existiram outrora, e que cada um se desenvolveu da mesma maneira que nos esquilos de planeio menos perfeito, tendo cada grau de estrutura sido útil ao seu possuidor. Tampouco vejo dificuldade insuperável em acreditar, indo mais longe, que os dedos e o antebraço do Galeopithecus, ligados pela membrana, possam ter sido muito alongados pela seleção natural; e isso, no que toca aos órgãos de voo, teria convertido o animal num morcego. Em certos morcegos, nos quais a membrana da asa se estende do alto do ombro até a cauda e inclui as patas traseiras, talvez vejamos vestígios de um aparato originalmente apropriado para planar pelo ar, e não para voar.
Se cerca de uma dúzia de gêneros de aves se extinguissem, quem teria ousado conjeturar que poderiam ter existido aves que usavam as asas unicamente como remos, como o pato-vapor (Micropterus de Eyton); como nadadeiras na água e como patas dianteiras em terra, como o pinguim; como velas, como o avestruz; e funcionalmente para nenhum propósito, como o apteryx? Ainda assim, a estrutura de cada uma dessas aves é boa para ela nas condições de vida a que está exposta, pois cada uma tem de viver por uma luta; mas não é necessariamente a melhor possível sob todas as condições possíveis. Não se deve inferir destas observações que algum dos graus de estrutura de asa aqui mencionados, que talvez sejam todos resultado do desuso, indique os passos pelos quais as aves de fato adquiriram seu perfeito poder de voo; mas eles servem para mostrar que meios diversificados de transição são ao menos possíveis.